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Full text of "Enciclopédia do Integralismo III - Estudos e Depoimentos"

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BCÜCLOPÉaii 

DO 

INTE6RAUSMC 

Ui 

DIVERSOS 

* 

ESTUDOS 

E 

EPOMÍTOS 


















1 

















■ 










ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


UI 

ESTUDOS E 
DEPOIMENTOS 

TASSO DA SILVEIRA 
AUGUSTO DE LIMA JÚNIOR 
FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 
ROCHA VAZ 

JOÃO CARLOS FAIRBANKS 
JAYME REGALO PEREIRA 



LIVRARIA CLÁSSICA BRASILEIRA 
Rua l.° de Março, 147 - 2.° andar 
— Rro DE JANEIRO — 







ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


Volumes publicados : 

I — O Integraíismo na Vida Brasileira 
Plínio Salgado 

II — Estudos e Depoimentos 
Belisário Penna 
Lúcio José dos Santos 
Alcebíades Delamare 
Rodolpho Josetti 
Victor Pujol e 
Madeira de Freitas 





INTRODUÇÃO AO TERCEIRO VOLUME 
(com um retrospecto referente ao segundo) 






Digitalizado pela 
Frente Integralista Brasileira 
http://www.integralismo.org.br/ 

Deus - Pátria - Família 





Eis o terceiro volume da Enciclopédia do Integra- 
lismo, onde se acham reunidas colaborações de Tasso da 
Silveira, Felix Contreiras Rodrigues, Rocha V az, João 
Carlos Fairbanks, Augusto de Lima Júnior e Jayme Re¬ 
galo Pereira t como representantes da geração que o In- 
tegralismo encontrou já plenamente lançados na vida 
cultural do Pais, e que, após estudos da doutrina lançada 
por Plínio Salgado no cenário da cultura brasileira , por 
livre e espontânea vontade a êle se uniram, na certeza 
de que a êste verbo estava destinado a indicação dos ca¬ 
minhos de verdadeira realização que o Brasil algum dia 
trilhará , 

Na mesma fronteira lutaram, lado a lado, com um 
Belisário Penna, um Rodolpho Josetti, um Alcebíades 
Deíamare, um Victor Pujol, um Madeira de Freitas, um 
Herbert Parentes Fortes, um Lúcio José dos Santos, um 
Prado Valadares, e tantos outros vultos eminentes cujos 
perfis estão gravados na vida do pensamento brasileiro, 
seja no campo da medicina, da arte, da literatura, da 
engenharia, da linguística, seja no da filosofia, ou da so¬ 
ciologia. Que coorte de gigantes, os que já se foram desta 
vida e cs que, dentro de um princípio de dignidade ina¬ 
balável, se mantêm fiéis ao pensamento integralista, cuja 
pureza o tempo jamais tisnou / 

A minha geração nao conheceu o grande compa¬ 
nheiro de Osvaldo Cruz, Belisário Penna, cuja capach 




dade de trabalho assombra a quem procure vislumbrá-lo 
através de todas as suas campanhas sanitárias t que mo¬ 
dificaram radicalmente o mapa da Pátria , ou através 
de seus livros (O Clamor da Verdade, Saneamento do 
Brasil, etc. . *) verdadeiros libelos contra a permanente 
incúria nacional além de sólido lastreamento científico; 
não conheceu Josettl o grande Rodolpho Josetti, incen - 
tivador das artes, criador da famosa e internacionaímen- 
te conhecida Sociedade de Cultura Artística, talvez o 
maior intérprete e conhecedor de Beethoven no Brasil, 
_ sobre quem escreveu maravilhosas e inspiradas e pes¬ 
quisadas páginas (As nove sinfonias de Beethoven, 1945, 
Liv. Agin ed), incansável incentivador da música de 
câmera (tendo escrito sobre Boccherini belo ensaio de 
compreensão), promotor de concêrtos e coníerências da 
Secretaria Nacional de Cultura Artística da Ação Inte¬ 
gralista Brasileira , — que marcaram época no Teatro 
Municipal e na Escola Nacional de Música do Rio de 
Janeiro —, sem dêíe querermos olvidar a formidável 
comemoração do centenário de Carlos Gomes, levada a 
efeito na hora das matinas, em Campinas, iniciada pelos 
acordes da sinfonia d’0 Guarani, perante a multidão de 
milianos do Sigma que ali reverenciavam o gênio da 
música brasileira; não conheceu um Victor Pujol, lutador 
que jamais arrefeceu o entusiasmo da divulgação do pen¬ 
samento integralista; não conheceu um Madeira de Frei¬ 
tas, vulto que também aguarda a palheta de um cinzela - 
dor para mostrar ao Brasil a sua figura, espirito inesque¬ 
cível para os que com êle mantiveram contacto; não co¬ 
nheceu um Lúcio José dos Santos , mestre emérito da 



pedagogia e da religião, autor de trabalhos de envergada- 
r a t Filosofia, Pedagogia, Religião, obra imensa e sin¬ 
gular no ambiente cultural brasileiro, prefaciado por 
Affonso de E , Taunay, que diz : “De um homem a quem 
cabe t em sua totalidade, o conceito horaciano do "integer 
vitae”, cuja mentalidade e cujo culto pelo trabalho aqui¬ 
nhoaram o patrimônio nacional de uma obra valiosíssima 
de didata e de técnico, de pensador e de moralista, de 
sociólogo e de historiador, de educador católico e de 
apaixonado brasileiro . . * 

Demonsíra-nos o "curriculum vitae ,f de Lúcio José 
dos Santos quanto, acima de tudo, correram-lhe os dias 
empolgados pelo trabalho e a consciência do dever inte¬ 
grai Seu lema inflexível filia-se à tríade, grandiosa como 
nenhuma outra, do Deus, Pátria, Família' (edição da 
Comp. Melhoramentos, s/d, porém com imprimatur de 
1936); Coração Kucarístico de Jesus, Edições Melhora¬ 
mentos, 1942 ); colaborador durante anos de revistas bra¬ 
sileiras e estrangeiras (no Brasil, entre outras, Panorama 
e A Ordem); não conheceu um Prado Valadares, cuja 
obra científica a Bahia reverencia como a de um dos 
seus grandes e eternos mestres , , ■ 

Muitos conheceram Alcebíades Delamare, aquêle 
homem vibrante que esquecia o coração descompassado 
para fazer com que a platéia que o escutava vibrasse de 
emoção quando alçava bem alto a bandeira da monarquia 
brasileira: historiador arguto, biógrafo de Colombo e si- 
Ihuetista sutil das mulheres do Evangelho, era um ho¬ 
mem — como os outros citados — que não se entibiava, 
nos lugares onde exercia a sua ação apostolar, ao procla - 




mar a sua condição de Integralista, motivo pelo qual, 
como professor que era de economia política, causou 
celeuma profunda quando apresentou o programa de 
seu curso, todo é/e baseado nos princípios que informa¬ 
vam e informam a reforma estatal programada pela ideo¬ 
logia integralista * 

Oufros conheceram tíerbert Parentes Fortes, sobre 
cuja figura é difícil falar . A sua presença ainda é muito 
viva para os que com êle conviveram, seja no auge da 
luta integralista, nos períodos cansativos das persegui¬ 
ções, ou no post-guerra, inamovível nos seus princípios, 
irredutível no seu lastro cultural, intangível nos seus 
sonhos. ,, 

Alguns destes vultos, que Deus já chamou a si, como 
que constatando terem êles cumprido as missões que 
lhes foram destinadas, ressurgiram para as novas gera¬ 
ções no II volume da Enciclopédia do Integralísmo. 
Assim, as páginas de Belisário Penna, dirigidas ao diretor 
do "Correio da Manhã " reprochando-lhe a transforma- 
ção da imprensa em arma de vilipêndio e calúnias, — 
parecendo até terem sido escritas no ano de 1958. . * ao 
lado de imorredouras e atualíssimas páginas de interpre¬ 
tação histórica e de exegese do Integralísmo ; Rodolpho 
J o set ti, com páginas de verdadeiro esteta, está ao nosso 
lado, com a sua bela e vasta cabe/eira, fisionomia sonha¬ 
dora e atormentada, bem demonstrativa do anseio in- 
contido que lhe ia n’alma, — o de poder, algum dia, ver 
realizada, em ferras de Santa Cruz, a Civilização Integra¬ 
lista, essenciaímente cristã e totalizadora de todas as 
perspectivas do homem na sua luta permanente para o 



Alto * Política e Arte, para /osetti, eram mani/esfaçoes 
diversas de uma única Rea/idade, a Rea/idade To£a/, que 
ê Deus, que se projeta não sd na edificação dos Homens 
como também na edificação das Pátrias e das Nacionali¬ 
dades ; Por isso viveu intensamente a sua vida, cheia de 
sonho , num descortínio de horizontes que o tornaram 
figura singular nos ambientes em que militava, numa 
total entrega de seu ser ; Lúcio José dos Santos f filósofo 
eminente, compareceu com o sólido ensaio sobre o In- 
tegralismo e o Corporativismo perante a Igreja Católica, 
além de ter transcrita a sua oração que, em nome das 
Cortes do Sigma, pronunciou r indicando o nome de Plínio 
Salgado como o candidato oficial da Ação Integralista 
Brasileira na luta pela Presidência da República, que se 
daria no ano de 1937, caso não tivesse existido o 10 de 
novembro, dia que jogou por terra, como uma grande 
rasteira usada pelos capoeiristas, os sonhos da mais bela 
geração que o Brasil produzira, e que anulou t por muitos 
anos os sentimentos morais do povo brasileiro, fazendo 
surgir, em compensação, a mediocridade de uma pseudo - 
-elite que hoje viceja frondosamente; Alcebíades Dela- 
mare teve a sua voz novamente ressoando ao ou¬ 
vido dos que bem sabem escutar: o seu discurso pronun¬ 
ciado na Escola Nacional de Música nos dita sentenças 
de inesgotável sabedoria, que o sonho de uma Grande 
Nação fazia vir a tona\, radicando no espírito dos que o 
ouviam — principaímente dos moços, a quem se dirigia 
— princípios de eternidade e de brasilidade pura; de 
Victor Pujol, um significativo capítulo do seu Rumo ao 
Sigma, onde estuda o que virá a ser o Estado Integralista , 



e de Madeira de Freitas inúmeros pequenos estudos, 
publicados r'A Offensiva, onde interpretava, com a finura 
que lhe era peculiar — assim dizem os que o conheceram 

_ os fatos que se sucediam, todos vistos e enquadrados 

no pensamento que foi seu alimento até o último dia * 

Mas a geração a que pertenço conhece um Tasso da 
Silveira r mestre universitário de sucessivas gerações, o 
grande Poeta católico e integralista do Brasil contempo¬ 
râneo, cuja linha de dignidade jamais foi interrompida 
pelas ambições ou pela covardia, — ou pela acomoda¬ 
ção. Através de seus ensaios e romances, e principalmen- 
te através de uma vida inteiramente voltada para as 
coisas do Espírito, nos proporciona um testemunho de 
consequências ilimitadas, no mesquinho horizonte que 
hoje circunda o Brasil, a todos asfixiando e tornando 
medíocres e inescrupulosos na consecução de seus objeti¬ 
vos * Não obstante tudo isto, e sobretudo a despeito da 
capitulação dos que, por dever, não podem capitular, êle, 
_ Tasso da Silveira *—, crê no Brasil. E deposita con¬ 
fiança nos que surgem, cheios de fé e esperança « 

O seu livro intitulado O Estado Corporativo foi sur¬ 
preendido pelo golpe de 10 de novembro de 1937. E evi¬ 
dentemente foi apreendido, com exceção de alguns exem¬ 
plares que hoje circulam de mão em mão, sob os olhos 
ávidos de uma geração que anseia por uma modificação 
radical do panorama brasileiro. O que franscrevemos de 
Tasso da Silveira ê da mais cristalina atualidade * 

Conhecemos também um Felix Contreiras Rodri¬ 
gues, o homem que, em 1942, em sua tese de concurso 




para a cadeira de Economia Política da Faculdade dô 
1 breito da Universidade de Porto Alegre, não teve medo 
do proclamar, em alto e bom som, a salvação do Brasil 
polo Integralismo. Dele transcrevemos, neste III volume 
üu Enciclopédia, só o capííuio que aborda a organização 
social integral, como também alguns outros ensaios que 
trazem para a superfície alguns dos proòíemas mais can¬ 
dentes e de mais urgência para uma tomada de rumos 
por parte dos que pretendem reformar o ambiente 
nacional . 

De um Rocha Vaz, o capítulo que agora vamos tor¬ 
nar conhecido para as novas gerações, original pelo as- 
sunto que aborda e pelos caminhos que abre para a in¬ 
satisfação dos moços de pesquisar e avançar, cada vez 
mais, nos mais diversos campos do conhecimento. 

João Carlos Fairbanks, homem de cultura polimor¬ 
fa, dono de forte espírito combativo, nos proporciona uma 
colaboração inédita (Porquê ingressei no Integralismo), 
o oufros trabalhos, selecionados para despertar, junto a 
todos os que almejam alguma coisa de diferente para o 
Brasil, um espírito de polêmica e, ao mesmo tempo, de 
fornadas sedentos de indispensável iniciação científica. 

O historiador de A Capitania das Minas Gerais, o 
esteta de O Aleijadínho e a arte colonial, o pesquisador 
do Caraça, Augusto de Lima Júnior, em bela síntese cote - 
ja o Integralismo com a Inconfidência Mineira, É uma 
valiosa e pouco conhecida coíahoração. 

Por fim r encerrando este III volume, ingressa na 
Enciclopédia o nome de Jayme Regalo Pereira, catedrᬠ
tico da Faculdade de Medicina de São Paulo, encimando 


inúmeras páginas onde, exaustivamente, sao estudados 
o liberalismo, o socialismo e o Integralismo. As suas linhas 
finais nào deverão jamais ser esquecidas pelos que, al¬ 
gum dia, sonharam em realizar o Integralismo: 4Í Essa ê a 
grande força atrativa do nosso movimento: a sincerida¬ 
de. Não conhecemos o ódio, como nào conhecemos a 
mentira. Com o nosso grande Chefe Nacional aprendemos 
a falar sempre a linguagem da verdade e a pregar o 
amor aos nossos semelhantes . Pelos nossos lábios falam 
sempre os nossos corações e o nosso olhar ê a expressão 
objetiva das nossas almas . Todos voltados para vós, todo& 
cuidando de vós ■ Porque vós sois, ó proletários do Brasil 
— os que mais sofrem e o nosso movimento é um apos¬ 
tolado de sacrifício e de dor\ 

Dentro de nossas possiõi/idaeíes, e conforme os pla¬ 
nos fraçados, a Enciclopédia do Integralismo prossegue 
mostrando o que foi êste grande Movimento na forma¬ 
ção de uma nova mentalidade , O primeiro volume cons¬ 
tituiu um planejamento geral, traçado por Plínio Salga¬ 
do, do seu pensamento na vida brasileira , O segundo le¬ 
vou aos moços do Brasil, — para quem, inegàvelmente, 
esta Enciclopédia foi sonhada e esíá sendo realizada — 
os sonhos daqueles que até ontem, quando a morte os 
recolheu fatigados mas não vencidos na luta pelo Bem, 
eram soldados da primeira linha, onde o fogo mais inten¬ 
sivo se apresentava . Neste terceiro, os incansáveis, os que 
não se fatigaram, os que persistem, invioláveis na sua fé, 
recôndita ou ostensiva. Êíes resistiram a todas as in¬ 
tempéries , 




E que f ao lado dos jovens que ainda sonham t o so¬ 
nho dóles se retempere t idealizando epopéias capazes de 
ftftnir aos mais moços e capazes de atirá-los no cimo da 
toholiâo que cria raízes no fundo das almas, . . 


Gumercindo R, Dorea 


RíOp Abril de Í958 





TASSO DA SILVEIRA 

LIMIAR 









f í 




RASILEIROS que, de boa fé, porventura 
rm ainda vos conservais, não só apenas fora 
das hostes integralistas, mas numa íntima 
indiferença, ou numa explícita hostilidade contra o 
Movimento do Sigma; — escutai-me! 

Não é possível, brasileiros de boa fé, que conti¬ 
nueis assim... 

Não é possível que ao fundo de vossa inteligên¬ 
cia não chegue, por fim, a pulsação tremenda do 
poderoso pensamento criador, que nasceu, não ape¬ 
nas da cabeça de um homem: — êste, o grande 
Chefe, foi simplesmente o condensador prodigioso 
- mas do fundo mesmo da ansiedade brasileira, 
das origens telúricas de nossa alma do povo, do 
substrato de nossos sonhos, desejos, inquietações 
coletivas! 

Não é possível que não venhais a romper com 
o hábito de ceticismo e descrença que vos cega, e 
que vos conduz a apoiar-vos, por displiscência, a 
grupos políticos em cujas promessas não acreditais, 
mas a que aderis por vos parecerem menos perigosos. 

Não é possível que não seja a substância de 
vossa sensibilidade tocada, enfim, pela angústia 
verde. Angústia, reparai bem! Angústia criadora e 
heróica, mas angústia... 





20 


TASSO DA SILVEIRA 


Angústia, porque em face cia vossa hostilidade 
ou da vossa indiferença, sente a alma integralista a 
ineficácia da mais profunda e ardente palavra de 
verdade, quando anteparos de impureza e precon¬ 
ceito se opõem a que essa palavra fecundamente 
se comunique à totalidade dos espíritos que ela de¬ 
sejaria salvar. 

Angústia, porque na vossa boa fé desprevenida, 
aceitais, muitas vêzes, senão verdadeiras, pelo me¬ 
nos como verosímeis, as calúnias, infâmias e labeos 
de que, por tática estudadíssima, cobrem o Inte- 
gralismo os inimigos, não propriamente da doutri¬ 
na, mas do Brasil e dos seus formidáveis destinos. 

Angústia, porque, por simples conveniências 
partidárias, ou por lamentável, surpreendente in¬ 
consciência, estão os eternos politiqueiros, que, com 
a vossa atitude, auxiliais, obscurecendo a visão ní¬ 
tida das coisas, escondendo os aspectos mais amar¬ 
gos da realidade presente, e permitindo, assim, que 
se processe a desagregação do Brasil. 

Brasileiros que, de boa fé, ainda vos conservais 
à distância do Sigma: escutai! 

Já vinte e sete integralistas pagaram com o 
sangue e a vida a audácia de sonhar um Brasil 
maior. Tem vinte e sete mártires a Idéia Verde, e 
terá, talvez dentro em pouco, cem, duzentos, qui¬ 
nhentos, se a insânia continuar lavrando. Terá 
quantos mártires se fizerem necessários para que no 
sangue inocente lave o Brasil a mancha dos seus 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


21 


pecados. Há um milhão de integralistas prontos 
para o sacrifício pela Pátria. Para o redentor sacri¬ 
fício pela Pátria. 

Não é possível que não venhais a compreender 
o sentido dêsse fenômeno. Não é possível que vós, 
brasileiros de formação cristã, não vos deixeis im¬ 
pressionar pela transcedente realidade do martírio. 
Pela abnegação com que todos nós aceitamos o pen¬ 
samento de morrer a qualquer instante para que 
vingue a Idéia, para que vença a Idéia, para que a 
Idéia seja a grandeza vindoura do Brasil! 

Não é possível que vós, brasileiros de formação 
cristã, não vos deixeis impressionar pela obra de 
devotamento que nós, sob uma inspiração cristianís¬ 
sima, vimos há quatro longos anos desdobrando 
através do Brasil inteiro. Nós já criamos mil e pou¬ 
cas escolas de primeiras letras por todo o território 
brasileiro, exclusivamente à custa de nossos recur¬ 
sos pessoais. Nós já criamos, de norte a sul do país, 
perto de três mil ambulatórios médicos, através 
dos quais fornecemos remédio e médico a dezenas 
de milhares de criaturas desvalidas , Nós já criamos 
numerosos lactários, restaurantes, campos de espor¬ 
tes e de educação física, bibliotecas, oficinas de cos¬ 
tura, — destinados, sempre, a atender às necessida¬ 
des mais prementes da massa humilde de que os par- 
t idos políticos só se lembram nas vésperas de elei¬ 
ções , 



22 


TASSO DA SILVEIRA 


Nós ajudamos a dominar a intentona comunis¬ 
ta de 1935, e tomamos difícil a atuação do Komin- 
tern no seio de nossas forças armadas, pela alegria 
com que receberam nossa palavra os nossos soldados 
e marujos, de alma accessível à verdade, pela pureza 
em que permanecem. 

Não é possível, brasileiros de boa fé, que não 
venhais a impressionar-vos com tudo isso. 

Nós não pregamos nenhuma vaga ideologia, 
nem vivemos a encher os ares de expressões vasias 
de conteúdo. Elaboramos uma doutrina profundís¬ 
sima, supremamente realista, no sentido de que 
está em perfeita adequação com a nossa realidade. 
Quem primeiro a propoz foi o grande Chefe, mas, 
após, recebeu ela a adesão de grandes poetas e pen¬ 
sadores patrícios, de insignes sociólogos e pedago¬ 
gos, que vinham de há muito procurando a signifi¬ 
cação essencial do espírito da beleza, da Pátria, e 
que nessa doutrina encontraram a satisfação plena 
às suas ansiedades interiores. Quem primeiro a pro¬ 
poz foi o grande Chefe, mas, após, recebeu ela a 
adesão de milhares de trabalhadores humildes, que 
vinham de há muito vergando ao peso excessivo do 
sofrimento, e que nessa doutrina vislumbraram uma 
certeza de felicidade e de paz. Quem primeiro a 
propôs foi o grande Chefe, Êste, porém, não a fabri¬ 
cou artificiosamente de peças desencontradas, Não 
a construiu como um esquema inspirado de alheias 
realizações e inadaptável, portanto, à realidade bra- 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALI8MO 23 

slleira. Arancou-a da sua meditação, da enorme dôr, 
da sua intuição profundíssima, do conhecimento 
magistral da vida política dos povos e, sobretudo, dos 
dados essenciais do nosso próprio destino. Por isso, 
à análise lúcida dos críticos desprevenidos, apresen¬ 
ta-se hoje essa doutrina como nascida do fundo da 
ansiedade brasileira, das origens telúricas de nossa 
alma de povo, do substrato dos nossos sonhos, dese¬ 
jos, inquietações coletivas. 

A respeito dessa doutrina, dizem infâmias sô- 
bre infâmias os inimigos da Pátria. Ela, porém, 
brasileiros, não está escondida na cabeça do grande 
Chefe. Não existe apenas no coração dos integra¬ 
listas. Tem sido largamente propagada pelo livro, 
pela tribuna, pela revista, pelo jornal, pela folha 
volante, pelo boletim, pelo cartaz. 

Há mais de sessenta volumes doutrinários, de 
autores diversíssimos, que a põem ao alcance de to¬ 
das as inteligências. 

Há oito ou nove jornais diários, (1) de extensa 
circulação, em que sínteses sábias ou ligeiros apa¬ 
nhados dessa doutrina são continuamente ofereci¬ 
dos à compreensão geral. Em cada um dos nossos 
três mil e quinhentos núcleos da faixa litorânea, à 
beira dos grandes rios, — há sempre uma tribuna 
do alto da qual um orador de palavra simples e cla¬ 
ra, duas, três vezes por semana, quando não todos os 


(1) Não esquecer que o A. pronuncia estas palavras se 
referindo ao ano de 1937, (Nota do Editor) 





24 


TASSO DA SILVEIRA 


dias, ensina a doutrina integralista aos que desejem 
compreender melhor. A propaganda do pensamento 
do Sigma, brasileiro, é feita por cêrca de quinze mü 
oradores! 

Não é possível que aos vossos ouvidos nâo ve¬ 
nham a vibrar penetrante e agudamente tôdas es¬ 
tas verdades, brasileiros de boa fé que ainda vos 
mantendes afastados das fileiras integralistas. 

Não é possível que continueis por muito tempo 
a pactuar com a injustiça. 

Haveis de sufocar em vós o ceticismo e a des¬ 
crença. Haveis de sentir, dentro em pouco, que a 
vossa atitude atual é um crime, um crime, contra a 
Pátria e contra o Espírito. 

Não é possível que continueis nessa cegueira. 
Não é possível que continueis nessa surdez. 

Não é possível, brasileiros! 




II 

O MOVIMENTO DO SIGMA 




O Movimento do Sigma não nasceu do desespe¬ 
ro, como os movimentos que geraram o Esta¬ 
do novo europeu sob os seus vários aspectos. 
A entrada dêste capítulo sôbre a doutrina integralis¬ 
ta, sinto-me instintivamente compelido a assentar 
essa afirmação. Mussolini, Dollfuss, Hitler, Carmona 
-Salazar surgiram no trágico momento em que a 
Itália, Áustria, a Alemanha e a pátria lusa imergiam 
no abismo da desagregação final. Com todos os seus 
gravíssimos problemas e todas as sinistras ameaças 
que sôbre o seu destino pairavam, o Brasil do após- 
guerra era ainda um país em que se respirava a pul¬ 
mões plenos. Isto porque, do ponto de vista econô¬ 
mico, a sua vitalidade é surpreendente. E do ponto 
de vista humano, a sua mansuetude é infinita. Ha¬ 
via o drama vivo das populações sertanejas, aban¬ 
donadas, ou pouco menos do que isto, à sua própria 
miséria física, moral e intelectual. Havia o drama 
acerbo das populações dos grandes centros de ativi¬ 
dade, submetidas a um processo lento de proletiza- 
ção geral. E havia o trabalho surdo de erosão de 
tôda a vasta realidade brasileira por parte de secre¬ 
tas e desagregadoras energias, que misteriosamente 
consumiam os resultados do nosso esforço constru¬ 
tor. Mas, não obstante tudo isto, era sensível, no 




28 


TASSO DA SILVEIRA 


país inteiro, a pulsação das forças de crescimento. 
Em vez de atirar-nos para a desesperança e o desa¬ 
lento, a catástrofe mundial como que nos foi acor¬ 
dando, aos poucos, para a consciência das nossas 
possibilidades formidáveis. Enquanto no Velho 
Mundo os povos se debatiam em transes de agonia, 
com a Exposição do Centenário da Independência, 
nós davamos, como que por instinto, um balanço 
completo à nossa capacidade de realização. E en¬ 
saiavamos um grande esforço de cultura, que re¬ 
sultou no período presente de multíplice atividade 
da inteligência. 

Não foi, pois, do desespero que nasceu o Movi¬ 
mento do Sigma. Foi de uma condensação subitâ- 
nea da nossa vontade de vencer. Tanto assim que as 
suas origens se confundem com as origens do movi¬ 
mento de renovação estética, de tão profunda signi¬ 
ficação criadora, como mais tarde se verá, com que 
os artistas e pensadores da geração a que pertenço 
abriram perspectivas ilimitadas para o espírito do 
Brasil. Tanto assim, que foi da pena e dos lábios de 
um poeta que partiu a palavra transfigurada a 
que o Brasil deverá sua grandeza futura e que hoje 
ressoa como um grito novo da América em face da 
realidade universal. 

Mas se o Brasil, apesar de tudo, crescia, e por 
essa forma se mostrava exuberante de fôrça, por 
que, para que, essa palavra de revolução de trans¬ 
formação, de integração? Porque havia um destino 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


2li 


de povo a realizar-se, destino que dados concretos, 
estatísticos, apresentavam como susceptível de uma 
efetivação maravilhosa, — e vinha sendo, no en¬ 
tanto, retardado, frustrado, negado, por obscuras 
contingências, extrínsecas à sua própria essência 
superior. Para que, num fundo impulso de ânimo 
heróico, nos libertássemos de peias seculares ou re¬ 
centes, que nos prendiam músculos e membros, e 
nos afirmássemos perante o mundo como sentimos 
que podemos ser. 


I 

A FACE PROFUNDA DO MOVIMENTO 


No despertar da ansiedade nova de beleza que 
se expressou no chamado “movimento modernista” 
da literatura brasileira ao fim da segunda década do 
século, os primários nada mais viram do que um 
vão prurido de imitação de movimentos congêneres 
europeus. Os primários nunca perceberam que cada 
grande período de nossa história literária — Roman¬ 
tismo, Naturalismo, Simbolismo, — oriundo, embora 
por fôrça de leis universais do espírito, de impulsos 
iniciais vindos de fora, representam, para nós, algo 
dc profundamente diferente dos períodos literários 
riiropeus do mesmo nome. Nunca se aperceberam 
de que nós não “refletimos” simplesmente, por que 


30 


TASSO DA SILVEIRÀ 


não podemos simplesmente “refletir”, em razão de 
não sermos simples superfície. Mas “refractamos” 
sempre, e com violência, por motivos de extrema 
densidade do nosso ambiente de alma; 

Assim, o Romantismo, que foi na Europa afir¬ 
mação do indivíduo e ruptura da hierarquia inte¬ 
rior, com a superposição do sentimento à inteligên¬ 
cia, constituiu no Brasil, embora conservando muito 
do seu caráter europeu, uma afirmação de naciona¬ 
lidade. Y-Juca Pirama e os Timbiras, de Gonçalves 
Dias, são o anseio de heroicidade de um povo ten¬ 
tando ingenuamente explicitar-se por meio da in¬ 
gênua alegria. Tôda a novelística de Alencar é uma 
tomada de posse da realidade física e espiritual bra¬ 
sileira, e nas páginas de Iracema — o nosso poema 
védico, se se pudesse dizer, — aparece como primeira 
tentativa de interpretação simbólica de nosso misté¬ 
rio racial. Os Naturalistas e Parnasianos foram fi¬ 
lhos, sem dúvida, do espírito negativista e cético 
que caracterizou a geração européia de que provie¬ 
ram , Coube-lhes, no entanto, para além de tal sen¬ 
tido ideológico, entre nós, refundir o idioma e des¬ 
cobrir melhor a realidade aos ncssos olhos, com o 
apuramento do nosso senso de observação. Os sim- 
bolistas vieram, inegàvelmente, marcados de muitas 
das taras lamentáveis que a obra de um Baudelaire, 
de um Rimbaud, de um Verlaine, na velha Europa 
registrou. Mas o que, sobretudo, a obra de um Cruz 
e Souza, de um Emiliano Perneta, de um Silveira 



ENCICLOPÉDIA do integralismo 


31 


Neto, ficou significando, foi o retorno de nossa inte¬ 
ligência à fonte da espiritualidade profunda, a pro¬ 
cura do sentido de eternidade do espírito, — o des¬ 
pertar dâ ansiedade metafísica no Brasil (1). Os 
primários não reparaln em que, com os poetas sim- 
bolistas, apareceram Farias Brito, Euclides da 
Cunha, Alberto Torres, Nestor Vitor. 

Assim como não repararam em que o “movi¬ 
mento modernista” surgiu — não obstante o puro 
caráter estesíaco de alguns dos seus corifeus, e não 
obstante o ânimo destrutivo de alguns dos seus pro- 
pugnadores — de funda fermentação de pensamen¬ 
to, não apenas estético, mas, principalmente, polí¬ 
tico, filosófico, religioso. 

Teriam notado os primários, se lhes sobrasse 
capacidade para tal, que havia uma ligação sub¬ 
terrânea entre o apostolado pela “ordem”, de 
Jackson de Figueiredo, (que acordou nossa inteli¬ 
gência, com a sua palavra, para o interêsse profun¬ 
do pelo destino coletivo), e a procura do “pitoresco" 
e dos temas originalmente nossos, na poesia, e ainda 
o “Rappel a l’ordre” da campanha restauradora do 
chamado “grupo da Festa” (2). Que havia essa 
mesma ligação entre os “poemas continentais” de 
itonald, ou o canto admirável de Murilo Araújo em 
A Cidade de Ouro, ou as estrofes raciais de Martim 
( crerê, e o fascínio que arrastou um Tristão de 
Atayde, por exemplo, com muitos outros de seus 
cnmpanheiros de luta, à renúncia de uma “filosofia” 



52 


TASSO DA SILVEIRA 


própria, para se darem com fervor incontido e hu¬ 
mildade perfeita, ao pensamento da Igreja. 

Teriam notado, sobretudo, que na obra de Plínio 
Salgado havia, não uma dispersiva multiplicidade de 
direções, como pareceu de começo, mas uma totali- 
zação de anseios, desejos e tendências, que forçosa¬ 
mente deveria corresponder — por ser uma totali- 
zação — a um qualquer sentido particular profundo. 

II 

O MANIFESTO DE OUTUBRO 

Êste sentido que, para irromper, forçava os pa¬ 
redões da construção estética e filosófica que tôda 
uma geração mal consciente dos seus supremos mo¬ 
tivos interiores, vinha erguendo, aflorou, por fim 
explicou-se, nos escritos políticos do "visionário" de 
O Estrangeiro. Escuso-me a historiar as diferentes 
tentativas de entrada em ação, pelo lutador solitᬠ
rio e incompreendido, durante os quatro ou cinco 
anos que precederam o hoje célebre "Manifesto de 
Outubro". Êste documento político, lançado em São 
Paulo no mês referido do ano de 1932, é, por um la¬ 
do, a cristalização depurada de tôda a vasta expe¬ 
riência e meditação anteriores do fundador do Inte- 
gralismo, e. por outro lado, pois que as suas funda¬ 
mentais disposições são as que ainda neste instante 
dirigem o movimento na sua expansão prodigiosa, a 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 33 

prova da estabilidade e da solidez do pensamento 
do Sigma. 

Que dizia êsse manifesto? Que Deus é que dirige 
o destino dos povos. Que o homem só vale pela sua 
espiritualidade, pela sua capacidade de sacrifício, 
pelo seu poder criador. Que os homens e as classes 
podem viver em harmonia, desde que os conjugue 
uma suprema finalidade comum. Que a riqueza é 
um bem passageiro que a ninguém engrandece, 
desde que não sejam cumpridos pelos seus detento¬ 
res os deveres que rigorosamente se impõem, para 
com a sociedade e a pátria. Que a Nação brasileira 
deve ser organizada, una, indivisível, forte, prós¬ 
pera e feliz, sendo mistér para isso abolir no seu seio 
os motivos de divisão, coordenando-lhe os homens 
em classes profissionais. Que uma Nação, para pro¬ 
gredir em paz, para ver frutificar os seus esforços, 
para lograr prestígio no Interior e no Exterior, pre¬ 
cisa ter uma perfeita consciência do princípio de au¬ 
toridade. Que o cosmopolitismo, isto é, a influência 
estrangeira é um mal de morte para a realidade 
que sonhamos. Que precisamos afirmar-nos como 
somos na essência de nós mesmos, procurando su¬ 
blimar esta essência numa extrema tensão da inte¬ 
ligência e da vontade. Que o materialismo histórico 
é um êrro grande e uma mentira, e o seu trágico 
fruto, o extremismo soviético, uma negra ameaça 
contra nós. Que os partidos políticos, no Brasil, fa¬ 
zendo o jôgo do espírito naturalista-negativista, 



TASSO DA SILVEIRA 


34 

por um lado, e dos consórcios financeiros por outro, 
são uma causa precípua de desagregação. Que são 
uma indignidade todas as conspirações, todas as 
tramas, conjurações, conchavos de bastidores, con¬ 
fabulações secretas, sedições, porque quem se bate 
por princípios não precisa combinar coisa alguma 
nas trevas, e quem marcha em nome de idéias níti¬ 
das, definidas, não precisa de máscaras. Que a ques¬ 
tão social deve ser resolvida com a cooperação de 
todos, conforme a justiça e o desejo que cada um 
nutre de progredir e melhorar. Que o direito de pro¬ 
priedade é fundamental, considerado no seu caráter 
natural e pessoal. Que o capitalismo atenta hoje 
contra êsse direito, baseado como se acha no indi¬ 
vidualismo desenfreado, assinalador da fisionomia 
do sistema econômico liberal democrático. Que é 
mistér adotar novos processos reguladores da pro¬ 
dução e do comércio. Que é preciso não destruir a 
pessoa humana, como o comunismo, nem oprimi-la, 
como a liberal-democracia, porém dignificá-la. Que 
o operário deve gosar do seu pleno direito de vida e 
de felicidade, por uma organização racional do tra¬ 
balho, da produção e do consumo. Que a Família é 
a base, na Terra, das únicas venturas possíveis. Que 
o Homem e a sua família precederam o Estado e que 
o Estado deve ser forte para manter o Homem ínte¬ 
gro e a sua família. Que a liberdade moral da fa¬ 
mília é sustentáculo da liberdade e da fôrça do Es¬ 
tado . Que o Município, centro das famílias, é a cé- 







ENCICLOPÉDIA DO IN TE GRAL ISMO 


35 


lula da Nação. Que o homem e a mulher, como 
agentes de produção e de progresso, devem inscre¬ 
ver-se nas classes respectivas, afim de que sejam 
por estas amparadas, nas ocasiões de enfermidade e 
desemprêgo. Que os municípios devem ser autôno¬ 
mos em tudo o que respeita a seus interêsses pe¬ 
culiares, mas diretamente ligado aos desígnios na¬ 
cionais . 

É nos têrmos abaixos que se desdobra o artigo 
final do "Manifesto”: 

“Pretendemos realizar o Estado Integralista, 
livre de todo e qualquer princípio de divisão: parti¬ 
dos políticos; estadualismo em luta pela hegemonia; 
lutas de classes; facções locais; caudilhismo; econo¬ 
mia desorganizada; antagonismos entre militares e 
civis; antagonismos entre polícias estaduais e o 
Exército; entre o govêrno e o povo; entre o governo 
e os intelectuais; entre êstes e a massa popular. 
Pretendemos fazer funcionar os poderes clássicos 
(Executivos, Legislativo e Judiciário), segundo os 
impositivos da Nação Organizada, com base nas suas 
classes produtoras, no município c na família. Pre¬ 
tendemos criar a suprema autoridade da Nação. 
Pretendemos mobilizar todas as capacidades técni¬ 
cas, todos os cientistas, todos os artistas, todos os 
profissionais, cada qual agindo na sua esfera, para 
realizar a grandeza da Nação Brasileira. Pretende¬ 
mos tomar como base o homem de nossa terra, na 
tma realidade histórica, geográfica, econômica, na 


36 


TASSO DA SILVEIRA 


sua índole, no seu caráter, nas suas aspirações, es¬ 
tudando-o profundamente, conforme a ciência e a 
moral. Dêsse elemento biológico e psicológico dedu¬ 
ziremos as relações sociais, com normas seguras de 
direito, de pedagogia, de política econômica, de fun¬ 
damentos jurídicos. Como cúpula dêsse edifício, 
realizaremos a idéia absoluta, a síntese de nossa ci¬ 
vilização: na filosofia, na metafísica, na literatura, 
na pintura, na escultura, na arquitetura, na música, 
como conclusão suprema do espírito nacional e hu¬ 
mano. Pretendemos criar com os elementos racio¬ 
nais, segundo os imperativos mesológicos e econô¬ 
micos, a Nação Brasileira, salvando-a dos êrros da 
civilização capitalista e dos êrros da barbaria co¬ 
munista . Criar numa única expressão o Estado Eco¬ 
nômico, o Estado Financeiro, o Estado Representa¬ 
tivo e o Estado Cultural. Pretendemos levantar as 
populações brasileiras, numa união sem preceden¬ 
tes, numa fôrça jamais atingida, numa esperança 
jamais imaginada. Pretendemos lançar as bases de 
um sistema educacional para garantir a subsistên¬ 
cia da Nação no futuro. Pretendemos insuflar ener¬ 
gia aos moços, arrancá-los da descrença, da apatia, 
do ceticismo, da tristeza em que vivem; ensinar-lhes 
a lição da coragem, incutindo-lhes a certeza do va¬ 
lor que cada um tem dentro de si, como filho do 
Brasil e da América Latina. Movimentar as massas 
populares numa grande afirmação de rejuvenesci¬ 
mento. Sacudir as fibras da Pátria. Erguê-la da 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


37 


sua depressão, do seu desalento, da sua amargura, 
para que ela caminhe, dando começo à Nova Civi¬ 
lização, que pela nossa fôrça, pela nossa audácia, 
pela nossa fé, faremos partir do Brasil, incendiar a 
América Latina e influir mesmo no Mundo. Para 
isso, combateremos os irônicos, os “blasés”, os de¬ 
siludidos, os descrentes, porque nesta hora juramos 
não descançar um instante, enquanto não morrer¬ 
mos ou vencermos, porque conosco morrerá ou ven¬ 
cerá uma pátria. 

Êsses são os rumos da nossa marcha”. 

III 

ESTRATÉGIA 

O manifesto de Outubro de 32 foi seguido de 
outros documentos de sentido relevante, notada- 
mente do Manifesto Programa, do ano de 1936, com 
que os Camisas-Verdes disputarão a Presidência da 
República nas próximas eleições presidenciais, e de 
uma série enorme de livros doutrinários, da autoria 
de Plínio Salgado e outros vultos do Movimento, — 
uos quais êsse documento inaugural é longamente 
explicitado e desenvolvido até as suas últimas con- 
Keqüências . 

No entanto, sob forma esquemática embora, 
nêle se contém a totalidade da doutrina. Não se fa¬ 
ria mistér explicá-lo, explicitá-lo, desenvolvê-lo, se 


36 


TASSO DA SILVEIRA 


tôdas as inteligências no Brasil houvessem atingido 
um nível razoável de cultura histórica, filosófica e 
política. Estudando-o em face, por exemplo, da 
"Carta das Liberdades de Carnaro”, do “Programa 
dos Pasci di Combatimento” e do “Statuto per il 
Partido Nazionale Fascista da Itália”, do "Programa 
político e econômico do Partido Nacional-Socialista 
do operário alemão”, dos discursos fundamentais 
de Salazar, — verifico que os seus conceitos se in¬ 
tegram de maneira mais perfeita num corpo total 
de doutrina do que a dêstes outros documentos 
igualmente inaugurais, e que uma logicidade mais 
profunda e mais íntima presidiu à sua coordenação. 

Apenas, êles aparecem, no “Manifesto”, em 
condensadíssimas sínteses, obra, que são, de um 
poeta acostumado às fusões extremas de expressão, 
e a inteligência desatenta ao sentido certo dos vo¬ 
cábulos e desprovida de amplos recursos culturais 
ou, ainda, obscurecida pelo preconceito, haveria, 
sem dúvida, de passar por êles sem perceber-lhes a 
profundidade. 

Algo de semelhante acontece, ainda em mais 
alta escala, com os grandes documentos pontifícios 
modernos a respeito do problema social. As encícli¬ 
cas “Rerum Novarum” e “Quadragésimo ano”, res¬ 
pectivamente de Leão XIII e Pio XI, contém tôda 
uma vasta substância de sabedoria divina e humana 
com relação ao destino dos homens no planeta. Só, 
no entanto, a exegese apurada de dezenas de pen- 



ENCICLOPÉDIA DO INTE GR ALT SMO 


39 


sadores e a explicitação que lhe deram os fatos his¬ 
tóricos posteriores nos abriram, de par em par, 
como portas de um palácio surpreendente, os sen¬ 
tidos multíplices que nelas se contém. 

Ouvi comentários de pessoas de aguda inteli¬ 
gência, mas tomadas de prejuízos invencíveis, ou de 
deficiente cultura histórica, ao Manifesto inicial do 
Integralismo: e de uma vez por tôdas me convenci 
da necessidade, para os doutrinadores do Sigma, de 
pôrem ombros à tarefa de ensinar a imensa lição 
desde o abc, afim de possibilitar a muita gente a lú¬ 
cida compreensão do documento. 

Antes, porém, de dar início à tarefa, premedita¬ 
damente relembro a circunstância que acentuei nas 
linhas iniciais desta página introdutória: o Movi¬ 
mento do Sigma não nasceu do desespêro, mas de 
uma condensação subitânea da nossa vontade de 
vencer. Isto é, da nossa determinação de realizar 
em plenitude o surpreendente destino que nos foi 
reservado. A primeira vista, pode parecer gratuita 
esta insistência. Mas é que muito nos importa afir¬ 
mar o caráter de fôrça nascida das profundidades 
do espírito, do Movimento Integralista. Ninguém 
terá direito de ver nêle uma pura reação de instinto 
vital, em face de esmagadoras energias adversas. 
Porque êle representa uma construção livremente 
ideada pela inteligência, quando esta podia ainda 
dispôr de si mesma inteiramente, e nenhuma pode¬ 
rosa pressão lhe imprimia o rumo que tomou. De 


40 


TASSO DA SILVEIRA 


todos os movimentos políticos de reação construtiva 
no planeta, o Integralismo ficará pela circunstância 
referida, e pelo seu triunfo completo, como a que 
mais claramente expressa o poder da idéia na dia¬ 
lética da história, em formal desmentido à doutrina 
marxista. 


(1) Esta exegese "em profundidade” dos nossos períodos 
literários no presente livro, apenas indicada em traços 
esquemáticos, vem lon mamente desenvolvida na próxi¬ 
ma publicação, "História ãa Literatura Brasileira de 
minha autoria. Para tal obra remeto o leitor curioso 
de penetrar melhor meu pensamento a respeito do as¬ 
sunto. E faço a advertência contida nesta nota para 
evitar malentendidos possíveis. 

(2) Veja-se, a êste propósito, meu livro Definição do Mo¬ 
dernismo Brasileiro , 




m 

O PENSAMENTO INTEGRALISTA 





I 


Concepção do mundo 

O pensamento do Sigma parte de uma con¬ 
cepção totalitária do mundo. "Deus dirige o desti¬ 
no dos povos” é a primeira afirmação do manifesto 
de Outubro. "O Integralismo, compreendendo o 
mundo de um modo total, aceita a idéia de Deus e 
do Espírito e pretende construir a sociedade, segun¬ 
do o sentido de sua essência espiritual e material e 
de acordo com as leis de seus movimentos”, — são 
palavras do artigo l.° do Manual do Integralista, do 
próprio punho do Condutor admirável. Por isto, no 
livro O que é o Integralismo, também de sua lavra, 
Plínio Salgado começa por indagar: qual o destino 
do homem e da sociedade? 

“Durante tôda a marcha da Humanidade, — 
esclarece éle, e sirvo-me de sua própria exposição 
para não parecer que modifico ou acrescento — 
dois conceitos de vida e de finalidade se revesaram, 
ou se antepuseram, ou se conciliaram, de um ponto 
de vista formal, para de novo se separarem nessa ou¬ 
tra luta do Espírito, que acompanhou paralelamen¬ 
te o combate econômico. 


44 


TASSO DA SILVEIRA 


Um dêsses conceitos de vida é o materialismo, 
isto é, o que encara a vida humana como um fenô¬ 
meno que começa e que termina sôbre a Terra. 
Para os que adotam êsse conceito, não existe Deus, 
não existe a Alma, e, como conseqüência natural, 
tudo o que se relaciona com essas duas idéias pura¬ 
mente espirituais, como seja: a dignidade do ser 
humano, que se toma insubsistente por falta de 
base; a concepção moral, que se torna inexplicável 
e perfeitamente inútil; a idéia da Pátria, que não 
passa, então, de simples convencionalismo; a idéia 
estética, isto é, da Beleza, que sendo uma disciplina 
dos sentidos, segundo aspirações transcendentais, 
perde seus pontos de referência; o amor da família 
e do próximo, que já não se explicam uma vez que 
se tem de adotar um critério de felicidade pessoal 
egoística, sem incômodos nem compromissos; e, fi- 
nalmente, o sentimento de disciplina consciente, 
que será substituído pela disciplina mantida pela 
violência dos mais felizes nos golpes aventurosos . 

O outro conceito é o espiritualista, isto é, o que 
considera a vida humana como um fenômeno tran¬ 
sitório, condicionando uma aspiração eterna, supe¬ 
rior. Para os que adotam êsse conceito, existe Deus, 
existe a Alma, e como conseqüência natural, tudo o 
que se relaciona com essas duas idéias. O ser-huma- 
no tem a sua dignidade, porque se torna superior às 
contingências materiais, ultrapassando os limites 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGHALISMO 


45 


da luta biológica e a esta impondo um ritmo pró¬ 
prio; a concepção moral torna-se um imperativo 
perfeitamente definido e compreensível; a Pátria 
deixa de ser uma convenção, para ser uma realida¬ 
de moral, ligada à realidade da família e à tradição 
do povo; a estética, isto é, a idéia da beleza, torna-se 
preciso, jamais descambando para as aberrações, 
que traduzem quase sempre confusão dos instintos 
ou perversões sexuais ou da sensibilidade; o amor 
da família e do próximo determina a abnegação e o 
sacrifício, glorificando o Homem pela libertação do 
egoismo; e finalmente a disciplina terá uma origem 
interior, criando a harmonia dos movimentos so¬ 
ciais, com finalidade suprema” (1), 

O esquema é admirável exatamente pela sua 
extrema simplicidade e lucidez: o livro, aliás, desti¬ 
na-se às massas populares. Seria fácil, mas inútil 
para os meus intuitos, longamente desdobrá-lo em 
linguagem conceituai, ad usum das inteligências 
mais complicadas e difíceis. Em todo caso, faz-se 
mistér acentuar que a concepção do mundo e do 
destino no pensamento integralista, segundo as 
grandes diretrizes traçadas pela pena do seu criador 
e supremo chefe, não se restringe ao vago espiritua¬ 
lismo que das páginas acima citadas parece resal- 
tar. São numerosos os textos de Plínio Salgado na 
vasta série de volumes que vem ininterruptamente 



4G 


TASSO DA SILVEIRA 


publicando, que direta ou indiretamente definem 
como criador e transcendente o “Deus que governa 
o destino dos homens”. O que, sem dúvida, bastaria 
para resguardar-lhe o pensamento de qualquer pru¬ 
rido de interpretação individualista do sentido re¬ 
ligioso da existência. Mas o pensamento do Sigma 
é mais do que simpiesmente espiritualista-transcen- 
dentalista. É deíinitivamente cristão. É pela res¬ 
tauração da pátria em Cristo que, antes de tudo 
mais, se bate o Integralismo. Ninguém, de boa-fé, 
poderia pô-lo em dúvida, em face de paiavras como 
estas, da comovente “oração de Natal da Pátria — 
criança”, dirigidas a Jesus: “... E é por isto que 
neste Brasil, no teu Brasil, já se sente o hálito 
mômo dos conflitos do mundo. Já se vive aqui 
numa anarquia, numa desordem, que são geradas 
no orgulho, na ambição, porque aqui também se 
esqueceram de ti, Senhor. 

Na hora em que sonhamos criar uma Nação, 
isenta dos males e dos crimes do materialismo do 
século, nós, os que sofremos as torturas dessas in¬ 
quietações fecundas, escutamos também o rumor 
surdo das conspirações dos ambiciosos, o trabalho 
ardiloso dos que querem varrer, de uma vez para 
sempre, da lembrança do povo brasileiro, os últimos 
vestígios da tua luz (2). 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


47 


II 

O HOMEM 

No seio da doutrina integralista não se con¬ 
fundem nunca os conceitos de pessoas e indivíduos. 
E é notável que isto aconteça. A confusão perigo- 
síssima, e tão fecunda nos mais graves êrros, é 
facilmente assinalável mesmo nos escritos de pres¬ 
tigiosos doutrinadores do Estado novo europeu. Em 
verdade, podemos afirmar que, no velho mundo, só 
os construtores do novo Estado austríaco, pela ni¬ 
tidez das suas diretivas filosófico-religiosas, estavam 
em condições de perceber a diferença essencial que 
separa os dois conceitos, e o supremo interêsse que 
há, para o estadista como para o filósofo, em man¬ 
ter a distinção. 

Max Lamberty enxerga, de certo ponto de vis¬ 
ta, não apenas no socialismo e no comunismo, mas 
também no fascismo e no hitlerismo, como no libe¬ 
ralismo que os precedeu, derivações sutis das cor¬ 
rentes profundas da filosofia moderna, caracteri¬ 
zada por um radical particularismo. 

“Não tomaram tôdas estas doutrinas — per¬ 
gunta êle — como ponto de partida e como fim 
último, quer o indivíduo, quer a classe social, quer o 
Estado, quer a Nação, quer a raça? 

Não destacaram todos um fragmento do uni¬ 
verso, que em seguida acharam interessante por si 


48 


TASSO DA SILVEIRA 


mesmo e do qual, finalmente, fizeram o eixo e a base 
da sua concepção do mundo? 

Não tomaram uma parte do universo pelo todo, 
dividindo-o? 

Uma parte do universo? D gamos, antes, uma 
parte da natureza. Porque esta parte do universo 
que elas tomam como ponto de partida ou como fim 
é sempre uma parte da natureza concreta. Eis 
ainda aí um índice de parentesco com a filosofia 
moderna e o culto da natureza que ela instaurou 
desde o princípio” (3). 

Êste texto precioso do pensador flamengo põe- 
-nos na pista de verdade essenciais para o momento. 
Antes de tudo, esclarece-nos sobre a radical diversi¬ 
dade que existe entre fascismo e nazismo, de um 
lado, e Integralismo do outro. De qualquer manei¬ 
ra, o movimento de Mussolini, com o seu caracterís¬ 
tico cezarismo, e o movimento de Hitler, com o seu 
racismo radical, são expressões de uma visão parti- 
cularista do mundo: são filhos, ainda, do negativis¬ 
mo moderno. Não vai nesta análise nenhum desco¬ 
nhecimento da grandeza interior verdadeira que 
anima os dois grandes movimentos, nem do serviço 
inolvidável que lhes ficou devendo a humanidade: 
na parte terceira do presente volume claramente os 
defini como providenciais movimentos de salvação, 
pelo menos no instante agudo da crise desagrega- 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


49 


cíora. Mas é necessário acentuar-se aquela diversi¬ 
dade, dada a insistência com que os gratuitos do 
Sigma acusam de totalitarismo estatal a doutrina 
integralista. 

Ora, justamente por serem ainda, no fundo, 
como o adverte Lamberty, derivações últimas do es¬ 
pírito que criou, alimentou e animou a liberal-demo¬ 
cracia, — do espírito naturalista, particularista, — 
é que o fascismo e o nazismo, assim como o comu¬ 
nismo, não sabem distinguir individualidade de per¬ 
sonalidade. E, vendo no homem apenas o indivíduo, 
desprendido de sua significação transcendente, que 
é o que constitui a personalidade, reduzem-no a uma 
unidade de significação nula em face da totalidade 
estadual ou racial, como a liberal democracia, com 
o seu conceito do homem-cívico, o havia nulificado 
em face da chamada “expressão da soberania nacio¬ 
nal". 

A “concepção totalitária do mundo", funda¬ 
mento da doutrina integralista, constitui exatamen¬ 
te o polo oposto de todos êsses particularismos la¬ 
mentáveis . 

Quem diz “concepção totalitária do mundo" diz, 
a um só tempo, combate à idéia do “Estado totali¬ 
tário". E combate a qualquer pensamento de pre¬ 
eminência racial, no sentido em que a proclama o 
nazismo. E ainda combate a qualquer fragmenta¬ 
ção de sentido da realidade humana, como a reali¬ 
zaram sempre todos os movimentos negativistas da 


50 


TASSO DA SILVEIRA 


história. — como a encontramos no homem-cívico 
da liberal-democracia e no homem econômico do 
marxismo. 

O homem total, o que em verdade existe, é uma 
realidade, a um só tempo, material, intelectual, mo¬ 
ral e transcendente. Não pode, sem êrro grave e de 
gravíssimas conseqüências, ser considerado fóra do 
seu destino de eternidade, desligado do pensamento 
do Deus criador e ordenador. 

Como indivíduo, o homem é pura divisão da 
matéria, e obedece ao tropismo do não-ser. Por isto, 
conduz o individualismo a tôdas as dolorosas desa¬ 
gregações. Como pessoa porém, é, na Terra, um 
centro de ordenação de atividades e energias ten¬ 
dentes, por sua vez, a ordená-lo com relação às rea¬ 
lidades que trancendem o destino terreno. Como 
pessoa, deixa de ser a mônada fechada, a que atribui 
o individualismo todos os direitos, mas que o Estado 
totalitário, o Estado racista, o Estado comunista 
pretendem aproveitar como passivo e inerte mate¬ 
rial de construção, — para tornar-se a realidade in¬ 
tangível, portadora da alma imortal, a que o Deus 
criador e ordenador atribuiu um destino de deifica- 
ção, mas a que, por isto mesmo, sujeitou aos condi¬ 
cionamentos e hierarquias determinados pela sua 
sabedoria infinita, — quer dizer: absolutamente ne¬ 
cessárias . 

O Estado Integral — tão diverso, como fàcil- 
mente se percebe agora, do Estado totalitário, — 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRAL ISMO 


51 


só pode considerar o homem dêsse ponto de vista. 
Para o Estado Integral, é o homem total que existe. 

III 

A FAMÍLIA 

O mais próximo dos condicionamentos neces¬ 
sários à realização do homem total é a família. Dis¬ 
se “condicionamentos”. Porque o “princípio” essen¬ 
cial dessa realização é o próprio Deus criador e or- 
denador. 

O puro encontro dos sexos, quando fecundo, o 
que produz é o indivíduo. A família é que constitui 
o ambiente afetivo e moral indispensável à forma¬ 
ção da personalidade. Recebendo em seu seio o ser 
novo que vem, é a família que, primeiro, estabelece 
a ligação dêsse novo ser com a sua destinação mara¬ 
vilhosa. O simples jôgo da matéria, do apetite 
sexual, não bastaria a atender nem às mais incoer¬ 
cíveis necessidades do mundo animal, que são a con¬ 
servação do indivíduo e a propagação da espécie. O 
ser novo depende, para crescer e florescer, do espí¬ 
rito de amor e sacrifício que, ao seu advento, des¬ 
perta na alma dos que o geraram. E os que o geraram 
só nesse espírito de sacrifício e de amor encontram 
a ccmpletação verdadeira de sua realidade interior 
e sccial, que se ilumina, então, de um sentido ines¬ 
perado. 





52 


TASSO DA SILVEIRA 


Quando, arrancado às raizes de sua espirii.ua- 
lidade profunda, o homem se reclui no egoismo indi¬ 
vidual, o próprio encontro dos sexos se toma mate¬ 
rialmente infecundo, mesmo quando, por outras 
conveniências, a família aparentemente persiste. 
As práticas anti-concepcionistas são facilmente ac- 
cessíveis às inteligências mais humildes. Daí o trᬠ
gico fenômeno do despovoamento, que ameaça o fu¬ 
turo de grandes povos modernos, e contra o qual, 
inutilmente, pretende reagir os governos respectivos 
por meio de providência de natureza jurídica. 

A família, por isto, se reveste, para os que lhe 
penetram a inteira significação, de um caráter sa¬ 
grado . 

“O Homem, no individualismo, hipertrofia-se. 
Êle parte de Rousseau e vai a Nietzche. 

O Homem, no coletivismo, anula-se. Depois de 
crescer nas democracias, vai terminar atrofiado, li¬ 
quidado em Marx. 

O Homem, no estatismo racista ou imperialista, 
estandardiza-se, uniformiza-se nos movimentos de 
um todo que é a finalidade inumana do Estado, 

Mas o Homem, no Integralismo, não é o gigan¬ 
te, nem o pigmeu, nem o autômato: é simplesmente 
o homem”. 

Por que? Porque a doutrina considera na sua 
totalidade de sentido a instituição da Família. 

“A Família é que dá ao homem o senso das pro¬ 
porções exatas. É ela que lhe imprime o sentido pro- 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


53 


fundo de humanidade. É em razão dela que o Esta¬ 
do não absorve o indivíduo, nem o indivíduo absor¬ 
ve o Estado; que o interêsse coletivo não atenta 
contra o interêsse individual, nem o interêsse indi¬ 
vidual se sobrepõe ao interêsse coletivo”. 

As civilizações que desconheceram ou amesqui- 
nharam o sentido total da Família, encontram nesse 
fato a razão precípua do seu deperecimento. 

Tal aconteceu com as civilizações da antigui¬ 
dade, levadas à desagregação moral, política, econô¬ 
mica e social pela depreciação da idéia de família, 
que o totalitarismo estatal antigo provocou. 

Realidade suprema e intangível, o Estado pa¬ 
gão reduzia, não apenas o homem, mas também a 
Família, a simples elemento de sua grandeza absor¬ 
vente, tirando-lhes a ambos qualquer significação 
de autonomia em face dos destinos universais. 

' “Em tôda a Antiguidade, — escreve A. M. 
Weiss, — não existiu a personalidade livre, no sen¬ 
tido em que nós, cristãos, entendemos o vocábulo”. 

“O homem não conhecia a sua própria fôrça. 
Bem mais, não a presentia. A importância de cada 
um como pessoa privada, a idéia de que o todo se 
compunha de indivíduos, e de membros isolados su¬ 
bordinados, que todos tinham antes do mais deveres 
a cumprir em sua esféra respectiva, e segundo o lu¬ 
gar que ocupavam, e em seguida deveres com rela¬ 
ção à totalidade; em síntese: o que hoje chamamos 
concepção orgânica da humanidade, desde que São 




54 


TASSO DA SILVEIRA 


Paulo no-la ensinou, tudo isto, salvo raríssimas ex¬ 
ceções, era completamente estranho ao paganis¬ 
mo. (...) Estava nisto precisamente uma das cau¬ 
sas principais do malestar que irrompia de todos os 
lados na vida dos Antigos, e que a convulsionava 
completamente. O que devia formar o vértice da 
pirâmide era-lhe dado como base. Êis porque a so¬ 
ciedade não poude jamais desenvolver-se: o Estado 
absorvia tudo em si mesmo. Eis porque o matrimô¬ 
nio permanecia em situação lamentável: o Estado 
oprimia a família, em lugar de organizar fortemen¬ 
te a vida doméstica para fazer dela um apôio... ” 

Conseqüência de tal inversão da ordem natu¬ 
ral das coisas foi o desprestígio de cada vez mais 
profundo, na antigüidade helénica, como na roma¬ 
na, ou na germânica, do a que chamei o sentido da 
família, o que resultou no afrouxamento dos laços 
familiares e morais, na licenciosidade exacerbada 
dos homens, na escravização da mulher, primeiro, e, 
mais tarde, na sua gradativa “libertação” dos sa¬ 
grados deveres matrimoniais, e, por fim, na propa¬ 
gação dos vícios contra a natureza como instituição 
verdadeiramente nacional que foram em Grécia e 
Roma. 

Chegados a êste ponto, estavam, respectivamen¬ 
te a seu tempo, os gregos, preparados para a con¬ 
quista romana, e os romanos preparados para a dis¬ 
solução do Império sob a enorme onda bárbara. 






ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


55 


Os elementos em decomposição do paganismo 
antigo foram refundidos na Idade Média ao calor 
do pensamento cristão, que definiu a pessoa huma¬ 
na como realidade do sentido transcedente, por ser 
portadora de uma alma imperecível, e por essa mes¬ 
ma via restituiu a dignidade à família, — amoiente 
necessário para a formação e manifestação em ple¬ 
nitude do ser humano com o seu destino de eterni¬ 
dade. 

Elevado à culminância de sua integral signifi¬ 
cação na Terra, o homem, por fôrça do seu pendor 
para o pecado, haveria de avançar, nessa afirmação 
glorificadora, para além dos limites da pura sabe¬ 
doria, pondo em jôgo a energia da negação do seu 
próprio orgulho. Foi o que sucedeu no período final 
da Meia Idade, do qual surdiu aos poucos o espírito 
renascentista, que consistiu propriamente numa 
soberba auto-afirmação do homem como senhor dos 
seus próprios destinos. Essa auto-afirmação conti¬ 
nha, em germe pelo menos, o mais extremado natu¬ 
ralismo, isto é, a negação de Deus e do sentido trans¬ 
cendente da existência. A dialética interior dessa vi¬ 
são do mundo se desdobrou longamente através da 
história moderna, produzindo a confusão da pessoa 
humana com o indivíduo. De sorte que acabaram 
sendo atribuídos a êste os direitos sagrados que só 
ao homem total cabiam. 

Sabemos o que daí se originou: o individualis¬ 
mo liberalista, que escravizou o indivíduo e virtual- 


56 


TASSO DA SILVEIRA 


mente negou a família; e o coletivismo marxista, 
que nega o próprio indivíduo, transformando-o num 
retorno agravado ao paganismo, em peça inerte da 
grande máquina inumana, ou, como vemos na Rús¬ 
sia atual, tràgicamente desumana. Tanto é certo 
que Deus é o supremo interêsse do homem. 

Por tudo isto, a doutrina integralista reafirma, 
em plenitude de consciência, o sentido total da ins¬ 
tituição da família. “O Integralismo pode ser con¬ 
siderado a revolução da família”, disse uma vez o 
Chefe insigne. O mais próximo dos elos que pren¬ 
dem o homem ao seu destino integral devia ser, em 
verdade, o primeiro a merecer a atenção do restau¬ 
rador dos sentidos perdidos. 

Jesus indicou tal necessidade com o fato de ter 
operado o seu primeiro milagre público por ocasião 
de uma cerimônia nupcial; para glorificai - a famí¬ 
lia, nas Bodas de Caná. ,. 

IV 

O TRABALHO 

Ao primeiro movimento de transposição do cír¬ 
culo fechado da família paterna, cada homem pisa 
em cheio o terreno do seu particular destino econô¬ 
mico. Pisa-o, sem desprender-se do plasma familial; 
pelo contrário: fazendo-se um núcleo de reprodução, 
por sisci paridade, dêsse plasma, pela constituição da 




56 


TASSO DA SILVEIRA 


mente negou a família; e o coletivismo marxista, 
que nega o próprio indivíduo, transformando-o num 
retorno agravado ao paganismo, em peça inerte da 
grande máquina inumana, ou, como vemos na Rús¬ 
sia atual, tràgicamente desumana. Tanto é certo 
que Deus é o supremo interesse do homem. 

Por tudo isto, a doutrina integralista reafirma, 
em plenitude cie consciência, o sentido total da ins¬ 
tituição da família. "O Integralísmo pode ser con¬ 
siderado a revolução da família”, disse uma vez o 
Chefe insigne. O mais próximo dos elos que pren¬ 
dem o homem ao seu destino integral devia ser, em 
verdade, o primeiro a merecer a atenção do restau¬ 
rador dos sentidos perdidos. 

Jesus indicou tal necessidade com o fato de ter 
operado o seu primeiro milagre público por ocasião 
de uma cerimônia nupcial; para glorificar a famí¬ 
lia, nas Bodas de Caná... \ 

IV 

O TRABALHO 

Ao primeiro movimento de transposição do cír¬ 
culo fechado da família paterna, cada homem pisa 
em cheio o terreno do seu particular destino econô¬ 
mico. Pisa-o, sem desprender-se do plasma familial; 
pelo contrário; fazendo-se um núcleo de reprodução, 
por sisciparidade, dêsse plasma, pela constituição da 




58 


TASSO DA SILVEIRA 


é que, normalmente, consagra o melhor tempo de 
sua vida” (4). 

No ambiente da liberal-democracia perdeu-se 
por inteiro o senso desta realidade, a qual constitui, 
no entanto, o eixo central de ordenação da vida eco¬ 
nômica e social dos povos. 

Intimamente identificado à sua profissão, o ho¬ 
mem se prende, por isto mesmo, por laços fortes de 
interdependência, a todos os que com êle labutam 
no mesmo setor de atividade. Antes de tudo, tare¬ 
fas idênticas ou afins criam uma mentalidade co¬ 
mum, que transforma numa espécie de família 
maior o grupo profissional e favorece o ânimo de 
cordialidade e afetividade tão necessário aos enten¬ 
dimentos fecundos. Em segundo lugar, só no seio do 
grupo profissional se verifica perfeita comunidade 
de interêsses, exclusão feita dos antagonismos arti¬ 
ficialmente criados pelo liberalismo entre dirigen¬ 
tes e dirigidos, e que a organização da economia eli¬ 
minará por inteiro. 

“Os indivíduos que exercem uma mesma pro¬ 
fissão, patrões e operários, estão, por natureza, num 
estado de mútua dependência. Há entre todos êles 
uma solidariedade proveniente de sua comunhão de 
interêsses. As condições de prosperidade do oficio 
são as mesmas para todos. Os atos de uns têm re- 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


59 


percusão sôbre a situação dos outros. O operário 
que aceita um salário inferior à taxa média preju¬ 
dica os outros operários com o abaixar o nível do 
salário. O comerciante desleal que engana seus 
clientes na quantidade da mercadoria vendida, lan¬ 
ça o descrédito sôbre tôda a profissão. Os produto¬ 
res e trabalhadores de um mesmo estado constituem, 
pois, uma verdadeira sociedade, são membros de um 
corpo cuja existência é tão incontestável quanto a 
da família ou da comuna. Para evitar que a ação 
individual prejudique o interêsse corporativo, é pre¬ 
ciso que o corpo profissional esteja organisado, quer 
dizer, provido de orgãos que disponham de autori¬ 
dade sôbre todos os membros da profissão, afim de 
impór-lhes uma disciplina e exercer sôbre a sua ati¬ 
vidade um contrôle” (5). 

Ora, o que mais profundamente caracteriza o 
liberalismo é ter êie negado êste círculo necessário 
de relações — o da comunidade profissional, — es¬ 
tabelecendo, em face do Estado inerme, a infinita 
atomização da sociedade e a luta impiedosa dos in¬ 
divíduos entre si, — com o que produziu a escravi¬ 
zação do indivíduo e sujeitou a família às mais tris¬ 
tes condições de existência. 

Êste é mesmo o ponto nevrálgico do antagonis¬ 
mo entre a liberal democracia e a concepção corpo¬ 
rativa do Estado. Aquela, na sua vertigem alucina- 



60 


TASSO DA SILVEIRA 


tória em torno da idéia de liberdade, desconheceu 
um nexo indispensável da grande cadeia hierárqui¬ 
ca que liga o ser humano aos seus destinos totais. O 
corporativismo, consultando outra vez a realidade 
infrangível, pretende restabelecer a ordenação or¬ 
gânica que a convulsão de 79 aboliu para o maior 
sofrimento das grandes massas humildes. 

O. P. Pascoal considera o regime corporativo, 
entendido em seu sentido largo e elevado, como o 
regime natural da Sociedade Humana. “Há sôbre 
a Sociedade, diz êle, duas concepções absolu lamen¬ 
te diferentes. A primeira, a que chamarei materia¬ 
lista e mecânica. A segunda, viva e orgânica. Para 
os sustentadores do primeiro sistema, a Sociedade 
é uma aglomeração de átomos individuais, mais ou 
menos engenhosamente arranjados pela mão de 
ferro do Estado, um. mecanismo de roldanas que se 
engrenam umas nas outras, e que obedecem à im¬ 
pulsão de um motor central. 

Para os outros, a Sociedade é um conjunto de 
grupos vivos, luminosamente coordenados em vista 
de um fim geral, tendo cada um a sua função pró¬ 
pria e sua autonomia relativa. 

Olhemos, não para abstrações vasias de reali¬ 
dade dentro de nós, mas para as próprias coisas à 
nossa frente, tais como elas se desenvolvem no curso 
da história, e veremos que uma sociedade é um 




ENCICLOPÉDIA DO INTE G RALISMO 01 

imenso organismo corporativo, a partir dessa pri¬ 
meira corporação natural e necessária que é a famí¬ 
lia, até a grande corporação, o Estado, passando por 
essas corporações intermediárias, filhas da primeira, 
origem da última: as comunas, as províncias, sem 
esquecer as associações profissionais, que agrupam 
os homens votados às mesmas ocupações e tendo, 
por consequência, os mesmos interêsses”. 

Embora, como se sabe de sua doutrinação cor¬ 
porativa, a tenha bem presente ao espírito, no frag¬ 
mento citado, O. P. de Pascoal não acentua expres¬ 
samente esta nota essenciaiíssima, que, no entanto, 
deve mais do que tudo prender nossa atenção neste 
momento: é que, na esfera, propriamente, do traba¬ 
lho, da produção, da economia, foi que mais violen¬ 
tamente se manifestou, na liberal-democracia, a 
ruptura com a natureza profunda das coisas e com 
a velhíssima tradição histórica: foi, sobretudo, no 
terreno da profissão que se negou a concepção cor¬ 
porativa, que hoje readquire prestígio glorioso, em 
face da tumultuaria desagregação a que conduziram 
o mundo as concepções liberalistas. 

Eis como se justifica em plenitude o princípio 
corporativista incluído como uma das vigas mestras 
da Doutrina do Sigma. 

Os que combatem o Movimento, nem sabem 
direito o que quer dizer liberalismo: supõem que se 


62 


TASSO DA SILVEIRA 


trata de um cômodo modus vi vendi pessoal, de que 
fruem por ocuparem situações vantajosas, e que 
vêm ameaçado pelos doutrinadores de uma nova 
ordem econômica e social; nem suspeitam o que seja 
corporatismo: confundem-o com ditadura política, 
destinada a conferir preeminência a um partido 
constituído de vagos sonhadores ambiciosos. 

Estão longe de perceber que o liberalismo im¬ 
porta num conjunto de funestas normas, não ape¬ 
nas de vida política, mas, sobretudo, de produção e 
de trabalho que já não podem mais ser mantidas, 
porque depois de haverem dado origem a tremendas 
injustiças sociais e suscitado a onda de rebeldia que 
convulsiona a esta hora os povos, chegaram ao li¬ 
mite extremo de suas possibilidades experienciais, 
eliminando-se por si mesmas como no-lo faz notar 
J. Eeline em seu L’ordre réel. 

E estão longe de supor que a palavra corpora- 
tismo envolve todo um complexo de princípios de 
organização e ordenação econômica e social como 
seriam os primeiros a desejar se meditassem a sério 
sôfare os problemas humanes do presente, — prin¬ 
cípios êsses submetidos a milenária experiência 
histórica e em plena revivescência nos países que, 
mais fundamente atingidos pela onda de desagre¬ 
gação, tiveram de acordar mais cedo para as bené¬ 
ficas reações. 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


63 


V 

O ESTADO 

O Estado Integral, objetivado pelo Movimento 
do Sigma, se contrapõe a um só tempo, como em 
várias passagens dêste livro já deixei claramente 
entrever, ao Estado totalitário do Comunismo e do 
Nazismo, e ao Estado neutro, de estrutura puramen¬ 
te jurídica, da liberal-democracia. 

Estado totalitário é o que se propõe como rea¬ 
lidade suprema, em face da qual nenhuma outra 
preeminência se admite, o que resulta em virtual ou 
efetiva negação, náo só de qualquer sentido trans¬ 
cendente, mas de qualquer sxgnuicação de autono¬ 
mia, para a íamína e os demais grupos sociais e 
para a pessoa humana. 

Não é invenção dos nossos dias. Totalitário, foi 
c Estaao pagão antigo, que desconheceu a dignidade 
do espírito como no-ia íêz compreender o Cristianis¬ 
mo, isto é: do espírito com o seu destino de eterni¬ 
dade; que diminuiu a mulher, atribuindo-lhe uma 
natureza inferior; que, sob a pressão do seu autori¬ 
tarismo exclusivo, desprestigiou lentamente o con¬ 
ceito de família abrindo portas largas à dissolução 
total que, por fim, como não poderia deixar de acon¬ 
tecer, atingiu a sua própria estruturação interior, 
dêle, Estado, que teve de ceder, pela extrema fragili- 


Íf4 


TASSO DA SILVEIRA 


dade a que chegara, ao primeiro rude embate de vio¬ 
lentas íôrças externas. 

Na hora presente, precisamos acentuá-lo, só 
ficam rigorosamente dentro do quadro de um tota¬ 
litarismo estatal característico a Rússia de Estalin 
e a Germânia de Hitler. Mussoline pôs sempre em 
suas afirmações total! taristas uma tinta diversa, — 
coisa em que se não tem devidamente atentado —, 
e a realização do Estado novo na Itália mostra-nos 
bem que sob expressões um tanto equívocas dos 
grandes escritos e orações do Duce se oculta um 
fundamental respeito pelos direitos do homem de 
alma eterna. Quanto à Áustria e a Portugal, são 
patentemente anti-totalitaristas, em que pese a 
enorme confusão que sobre estas coisas se entre- 
tessem no Brasil. 

Na Rússia comunista, contudo, a espantosa in¬ 
versão de valores se processou do modo mais com¬ 
pleto. O Estado bolchevista se atribui um ideal de 
perfeita organização igualitária, a ser alcançada 
dentro de uma concepção da vida que lhe confere 
direitos absolutos sôbre o homem. O utopismo, 
quero dizer, o irrealizável de tal ideal lhe escapa em 
virtude mesmo dessa concepção. Negando Deus e 
o sentido transcendente da existência, o comunis¬ 
mo, derivado, embora contraditório, do marxismo, 
perdeu de vista, surpreendentemente, os nexos Ín¬ 
timos da realidade e o senso das hierarquias neces¬ 
sárias. Dai o seu igualitarismo teórico, de que êle 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 65 

próprio constitui, com a sua tentativa de realização 
na história, o mais profundo desmentido. Conven¬ 
cido, porém, de que ideologicamente não se engana, 
procura o comunismo refundir a natureza do ho¬ 
mem, para fazê-la expressão de sua filosofia. Falhou 
a avançada de Lenine e Trotzki. Deu-se o recuo 
estalínico, intencionalmente estratégico. Tais mo¬ 
vimentos, todavia, não levarão jamais à finalidade 
desejada, porque esta é, apenas, um tremendo ilo- 
gismo. E, enquanto se desenvolvem, até por si mes¬ 
mas se esgotarem ou virem a quebrar-se de encontro 
a resistências nascidas do fundo mesmo da natureza 
humana, vão êsses movimentos de avanço e de recúo 
sujeitando à mais dolorosa das escravidões a massa 
multitudinária. 

J. Beline já o havia dito: “O estatismo genera- 
lisado, o estatismo totalitário, de há muito se ob¬ 
servou, é absolutamente contrário, em seu princípio, 
a idéia comunista. No entanto, é fato que, onde o 
comunismo se instala começa pelo estatismo, e nêle 
fica. O próprio Marx concentrou sôbre esta pri¬ 
meira etapa todos os seus pontos de vista concretos, 
e. salvo em vagas declarações de princípios, jamais 
a ultrapassou”. “Uma vez erigido em classe domi¬ 
nante, declara êle, o proletariado destrói as outras 
classes e, por êsse caminho, a sua própria domina¬ 
ção como classe. Surge por esta forma uma associa¬ 
ção em que o livre desenvolvimento de cada um é 
a condição do livre desenvolvimento de todos”. 






TASSO DA SILVEIRA 


Quanto a dizer por que e de que modo, numa 
sociedade inteiramente proletária, o Estado, senhor 
único da economia, virá a assegurar a expansão do 
homem, enquanto indivíduo, é coisa a que Marx 
não se arrisca (6). 

Há a considerar, também, de maneira especial, 
o Estado racista de Hitler. Sem dúvida, põe-se em 
execução, na Alemanha, um plano de organização 
do trabalho que não deve ser levianamente criticado, 
pois que manifesta ainda o construtivo e discipli¬ 
nado gênio germânico. Mas o estabelecimento do 
primado da raça germânica sôbre tôdas as raças 
do mundo — paradoxal expressão, aliás, de um in¬ 
gênuo messianismo de fundo judáico, — já deu os 
seus primeiros frutos de dissolução com o colocar-se 
o espírito religioso a serviço dessa raça e, portanto, 
do Estado que a personifica. A Alemanha re-cria os 
seus deuses pagãos, que a levarão à morte, se ainda 
uma vez não a salvar o Cristianismo. O totalitaris¬ 
mo estatal não poderia manifestar-se de maneira 
mais violenta do que com essa tentativa de sujeição 
de populações cristãs a um paganismo perempto, — 
do que com essa tentativa de retorno às fontes bár¬ 
baras, impossível de realizar-se senão à custa de de¬ 
sagregações dolorosas e funestas. 

O Estado totalitário, portanto, de uma maneira 
ou de outra, se apresenta como senhor dos destinos 
dos povos, impondo-lhes autocràticamente os mol- 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRAL IS MO G 1 

des que confeccionou segundo ideologias que desco¬ 
nhecem, sempre, as faces mais reais da realidade. 
Significa, de fato, a negação total, não apenas da 
pessoa humana, ou dos grupos biológicos, econômi¬ 
cos, sociais, mas do próprio indivíduo, que o demo- 
liberalismo, — fonte, no entanto, da ideologia mar¬ 
xista, — aíucinantemente endeusara. 

Exatamente por haver endeusado o indivíduo, 
considerando-o isoladamente de todos os vínculos 
que o prendem à sua significação essencial, foi que 
o Estado liberalista, — que ia provocar o surgimen¬ 
to do Estado totalitário no presente, — se pôs, na 
sua estruturação puramente jurídica, à margem da 
vida deixando, em verdade, que o indivíduo fôsse 
esmagado pelo rôlo compressor das energias descon¬ 
troladas. O Estado liberalista se fêz, assim, por ex¬ 
celência, o Estado fraco, o que o levou a apelar para 
recursos de emergência para poder subsistir, mas 
com o que só conseguiu negar-se a si mesmo. 

Em face do Estado totalitário, o Estado Inte¬ 
gral, objetivado pela doutrina do Sigma, se define 
como um estimulador e realizador de virtualidades 
profundas da Nação, como um captador de energias 
dispersas, e, portanto, como um servidor humilde 
dos destinos coletivos, ao invés de como seu senhor 
absoluto. Em face, porém, do Estado liberalista, de- 
fine-se o Estado Integral, como o Estado forte, pois 
que, intimam ente solidarizado com aquelas próprias 




TASSO DA SILVEIRA 


60 

virtualidades profundas, que estuda, consulta, move 
e procura levar à realização, e de cuja substância 
de vida se nutre essencialmente, se acha em condi¬ 
ções de efetivamente criar e manter uma ordem 
nova. 

Dentro dêste critério é que, como diz Plínio Sal¬ 
gado, “O Estado passa a ser o Grande Revolucionᬠ
rio, falando em nome das inquietações, dos desejos, 
das aspirações superiores, dos sentimentos de jus¬ 
tiça da Nação. O Estado adquire, assim, uma auto¬ 
ridade nova, sobrepairando aos interêsses de grupos 
sociais, políticos ou econômicos. O Estado passa a 
ser o supervisionador, o mantenedor de equilíbrios, 
a concretização do ideal de justiça e de liberdade, o 
criador de ritmos sociais” {7). 

Tal efetivação, não a alcançou o Estado libera- 
lista, nem o Estado comunista, nem alcançará por¬ 
ventura o Estado racista, por motivo da unilatera- 
lidade de sua visão do homem. O homem cívico — 
que é, a um só tempo, o indivíduo “isolado” — do 
liberalismo não existe. O homem puramente eco¬ 
nômico do marxismo significa monstruosa aberra¬ 
ção, destinada a desaparecer vertiginosamente pela 
violência com que a si mesmo se destrói. O homem 
dos movimentos racistas ou cezaristas mais cedo ou 
mais tarde se desprende de suas raizes de eternida¬ 
de, tendendo ao deperecimento gradativo. 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


O Estado Integral considera o homem na sua 
totalidade, atendendo a tôdas as faces da realidade 
complexíssima que êle representa, e, por isto mesmo, 
incorporando-se nessa realidade, na realidade total 
da vida, ao invés de sobrepôr-se à mesma como 
energia vinda de outras esferas, ou de manter-se em 
postura de espectador indiferente. 

Desta visão nova do sentido do Estado, tira 
Plínio Salgado corolários fecundíssimos: “Uma vez 
que o Estado se identifica com a alma de uma Na¬ 
ção e haure desta o poder revolucionário, êle, o Es¬ 
tado, tem direito e a autoridade suficientes para in¬ 
terferir com energia no campo econômico e social, 
político e financeiro, recompondo equilíbrios, sem¬ 
pre que alguns elementos da sociedade se hipertro¬ 
fiem em detrimento de outros. 

É a atitude nova em face dos problemas. Revo¬ 
lução, em verdade, é mudança de atitude. 

Verificando que a democracia está desvirtuada 
por êrros do sistema; que o sufrágio universal é a 
maior das mentiras, a fonte de todo o caudilhismo 
político, o instrumento de opressão dos ricos contra 
os pobres; que a existência dos partidos decorre do 
sufrágio e que os partidos são hoje em número tão 
grande (150 inscritos no Superior Tribunal Eleito¬ 
ral) que só servem para anarquizar a Nação, enfra¬ 
quecê-la, dividí-la e alimentar a popularidade fácil 
de demagogos inconscientes; que a maior enfermi¬ 
dade do país é o regionalismo político, alimentado 





70 


TASSO DA SILVEIRA 


pelos partidos situacionistas e oposicionistas dos Es¬ 
tados, que não dão tempo aos brasileiros de pensa¬ 
rem um pouco nos problemas gerais da Nação; que 
os problemas econômicos são tratados pelo critério 
exclusivamente estadualista, em conseqüência da 
estreita mentalidade que os partidos provincianos 
estão criando; que o povo brasileiro está dividido e, 
por isto, enfraquecido, e, estando fraco, é explorado 
pelo capitalismo estrangeiro; que os parlamentos 
políticos constituem um entrave às medidas de or¬ 
dem económico-financeiras que só um governo for¬ 
te, ético, baseado em novos princípios de economia 
política, poderá tomar; o Estado integralista terá 
de substituir imediatamente, afim de salvar a ver¬ 
dadeira democracia das garras de oligarquias finan¬ 
ceiras, o arcaico aparelhamento dos partidos pela 
organização corporativa da Nação. Declarados os 
partidos fóra da lei, cada qual terá de se enquadrar 
dentro da sua profissão. A vontade nacional será 
traduzida com honestidade e realidade, no âmbito 
dos interesses de cada classe. Só os vagabundos 
ficarão de fóra, pois todo homem que trabalha terá 
de defender seus interesses dentro da sua corpora¬ 
ção. Estará acabada a demagogia tanto civil como 
militar, ambas perniciosas, ambas atentatórias dos 
legítimos interêsses de um povo, ambas opressoras, 
ambas fontes do caudilhismo, das oligarquias, da 
politicagem mais grosseira e pretenciosa (8). 

No Manifesto-Programa do Chefe Nacional, lan- 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


71 


çado em 1936, tais pontos de vista se concretizaram, 
no que diz respeito à organização política, nos se¬ 
guintes itens: 

“1 — Os Municípios serão organizados sôbre 
bases sindicais, cabendo a escolha do prefeito (Exe¬ 
cutivo Municipal) aos Conselhos Municipais forma¬ 
dos pelos representantes das profissões organiza¬ 
das, Êsse prefeito terá a assistência técnica do De¬ 
partamento Central Municipal de cada Província, 
criando-se um corpo de técnicos de carreira. 

2 — No âmbito provincial, os representantes 
das Federações de sindicatos e de associações eco¬ 
nômicas e culturais constituirão os Conselhos Pro¬ 
vinciais, cabendo-lhes a escolha dos governadores de 
Província, com a aprovação do Chefe do Executivo 
Nacional. 

3 — O Congresso Nacional, formado pela C⬠
mara Corporativa Econômica e pelo Senado (órgão 
êste constituído pelas corporações não econômicas) 
exercerá o Poder Legislativo. 

O Chefe da Nação será escolhido pelo Con¬ 
gresso; não poderá contrariar em linhas gerais o 
programa de administração estabelecido no início 
do primeiro governo, pelos órgãos técnicos expres¬ 
sivos da legítima vontade nacional. 

4 — Tôdas as funções eletivas são temporárias. 

5 — Será mantida a forma republicana, federa- 



72 


TASSO DA SILVEIRA 


tiva e democrática, apenas com as modificações de¬ 
correntes do sistema corporativo”. 

Resalta, dêstes simples itens, o profundo senti¬ 
do democrático do Estado Integralista que, de fato, 
mais não é do que a concretização do perpétuo 
anseio político do Brasil de todos os tempos. 

VI 

REVOLUÇÃO ESPIRITUAL 

O Integralismo não pretende, porém, realizar 
apenas essa transformação concreta do Estado, a 
que chama “revolução cultural”. Pretende ainda 
levar avante, por instrumento da organização dis¬ 
ciplinar de suas fileiras, a que uma luminosa místi¬ 
ca da Pátria anima, uma obra de educação formi¬ 
dável, que deverá prosseguir no seio das gerações 
vindouras. 

“Seria ridículo, escreveu Plínio Salgado, que 
nós nos apresentássemos à Nação dizendo: “sômos 
os únicos honestos, sômos os santos e os heróis, só 
a nós assiste o direito de governar o país”. (...). 
O Integralismo sabe que o Brasil não é um país 
de santos canonizados nem de anjos pulcros. A dou¬ 
trina do Integralismo, em relação a questão do Esta¬ 
do, não vai buscar sua inspiração no otimismo de 
Rousseau e de Locke. Pelo contrário, sômos pessimis¬ 
tas em relação à possibilidade de uma instantânea 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


73 


transformação dos homens, repousando tôda a nossa 
esperança imediata na transformação do regime, de 
modo a policiarmos as tendências más que uma edu¬ 
cação materialista agravou no país. Não vamos aos 
excessos pessimistas de Hobbes, imaginando o Le- 
viatan, o Estado absorvente, anulador de tôdas as 
liberdades. Conservamo-nos na linha realista, cren¬ 
tes de que uma obra sistemática de educação indi¬ 
vidual e das massas elevará a média das virtudes 
mora ! s e cívicas do povo brasileiro, cuja estrutura 
mais íntima nos revela traços de superioridade in¬ 
contestável . 

Essa obra de educação é que nós chamamos a 
“revolução espiritual”, e é em razão dela que nos 
distinguimos, tanto do fascismo como do hitlerismo, 
imprimindo um sentido profundo ao nosso movi¬ 
mento” (9). 

Essa revolução espiritual, que deverá projetar- 
-se, talvez, através dos séculos, se iniciou, contudo, 
com os primeiros passos do Integralismo, e já hoje, 
após cinco anos de campanha intensa, pode apre¬ 
sentar no milhão e meio de filiados ao Movimento, 
nos quais se operou surpreendente transmutação 
de critérios íntimos, um patrimônio moral ponde¬ 
rável . 

Em que sentido se desdobra, e deverá desdo¬ 
brar-se longamente, essa revolução subjetiva, indi- 
ca-no-lo Plínio Salgado nas linhas que se seguem; 



74 


TASSO DA SILVEIRA 


"Há no Evangelho uma palavra que serve para 
ilustrar o nosso pensamento. É a do fariseu e do 
publicano. Enquanto aquele vai se ajoelhar próximo 
ao altar, vangloriando-se das suas virtudes, da sua 
incorruptível maneira de cumprir a lei de Moisés, o 
pobre publicano ajoelha-se na porta do templo de 
Salomão, exclamando: “Não sou digno. Senhor, de 
me aproximar de vós”. O Divino Mestre afirma que 
o publicano está no caminho da perfeição, e é êsse 
o caminho que eu indico a todos os integralistas. 

O primeiro ato revolucionário do integralista é 
assumir essa atitude humilde diante da Pátria. Em 
vez de viver apontando os defeitos alheios, procurar 
descobrir os próprios defeitos e corrigi-los. Confiar 
mais no gênio da raça e na inspiração de Deus do 
que nos seus próprios méritos. Ferir de morte a vai¬ 
dade, aceitando muitas vêzes o comando de um com¬ 
panheiro que tem uma posição social inferior à sua. 
Vencer a si próprio, contrariando-se, ciliciando-se a 
todo instante em coração e espírito, convencido de 
que num país onde cada qual é intransigente no 
seu ponto de vista pessoal não existe possibilidade 
de harmonia de movimentos nem de grandeza cole¬ 
tiva da nacionalidade. Dominar o comodismo, a 
preguiça, o ceticismo, a desilusão, o cansaço, a im¬ 
petuosidade, o egoísmo, o apêgo às glórias falazes, 
convencido de que ninguém tem o direito de preten¬ 
der orientar uma Pátria quando não é capaz de 
prientar-se a si próprio. Esforçar-se, instante a ins- 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


75 


tante, na aprendizagem do domínio de si mesmo, 
pois é neste domínio que reside a essência da auto¬ 
ridade pessoal de cada um. Cultivar o amor ao seu 
povo e a generosidade para os que se manifestam 
incapazes de compreender êste movimento, porque a 
conquista de todos os brasileiros muito depende da 
perseverança, da paciência, da tenacidade e da sere¬ 
nidade dos nossos doutrinadores. Despertar em si 
próprio as fôrças do sentimento nacional porque a 
fusão de tôdas as centelhas de patriotismo de cada 
coração formarão a fogueira que incendiará o gran¬ 
de coração da Pátria total. Pedir a Deus coragem e 
paciência, fortaleza e inspiração, energia e bonda¬ 
de, severidade sem alarde, bravura sem ostentação, 
virtude sem orgulho puritanista, humildade sem 
indignidade e dignidade sem egolatria (10)”. 

VII 

O CHEFE 

Fôra mistér que ignorássemos o influxo dos fa¬ 
tores psicológicos, espirituais e místicos nos gran¬ 
des movimentos coletivos, para atribuirmos à pura 
limpidez da Doutrina Integralista e à sua capacida¬ 
de de penetração na consciência brasileira a surpre¬ 
endente expansão do Movimento do Sigma; mais de 
um milhão de inscritos em apenas cinco anos de 
existência, 



78 


TASSO DA SILVEIRA 


O fenômeno inesperado, único em nossa histó¬ 
ria, tem alguma de suas mais fundas raizes em nossa 
própria ansiedade interior por chegarmos à afirma¬ 
ção definitiva do que somos. Retardados, por mo¬ 
tivos multíplices, que procuro explicar e interpretar 
no meu livro Tragédia da alma brasileira, a sair 
breve, — retardados nessa radiosa afirmação, trans¬ 
formamos sem querer em angústia viva o desejo in¬ 
sofrido, e, ao sortilégio que venceu em nós o pessi¬ 
mismo e o desconsolo nascido das decepções passa¬ 
das, desencadeou-se em nosso mundo íntimo a infi¬ 
nita esperança. 

Êste sortilégio foi o acento diferente que Plínio 
Salgado poz na sua prédica patriótica. E tal acento 
lhe vem de uma predestinação irrecusável, — de 
uma perfeita adequação do seu todo de homem à 
formidável obra que empreendeu. No ensaio “Voz 
do Limbo”, incuido no volume, de autores vários, 
editado pela revista “Panorama”, sôbre a personali¬ 
dade de Plínio Salgado, esboço a psicologia do seu 
caso: não vou, agora, repetir o que longa, embora 
vacilantemente, me foi dado explanar no ensaio 
referido; quero, apenas, resumir meu pensamento 
nesta ilação definitiva: Plínio Salgado é, plenamen¬ 
te, um Chefe. 

Resta, no entanto, definir o que um Chefe seja. 
Aqui, cedo a palavra a outrem. Como faço de tôdas 
as vêzes em que, neste ou naquele assunto, já en- 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 77 

Contro lucidamente expresso o meu próprio pensa¬ 
mento . 

No seu livro Por Terras de Além Mar, publicado 
em Lisboa, em 1922, Faria de Vasconcelos inclui a 
magnífica página que transcrevo, e na qual aquela 
definição necessária se icontém, na verdade, em 
têrmos de lucidez insuperável: 

“Chefe! Eis a palavra e o ato necessário. Quem 
é capaz de dizer tüdo quanto encerra esta palavra 
e êste ato? Palavra gasta pelo uso da vida, carregada 
de anos, de pó, de tristezas e de crimes, até! Mas 
que vigôr e que alma não há nela, quando compre¬ 
endida como deve sê-lo e tomada no sentido profun¬ 
do da vida que encerra: a vida feita com homens, 
com aspirações e valores supremos de ideais. 

Um Chefe: mas onde os há dignos dêste nome 
no conceito humano da palavra? Ser Chefe não é 
estar ao serviço dos seus interêsses. Realizar uma 
obra pessoal não é ser Chefe. Também não é ser 
Chefe estar a serviço dos interêsses de um grupo, 
de um partido, de uma seita, de uma escola. Ser 
Chefe não é ser condutor de rebanhos, mas o coor¬ 
denador dos esforços de homens, que aceitam livre¬ 
mente o seu dever e o cumprem firmemente. 

Ser Chefe é mais alto e mais nobre; é estar ao 
serviço total, abnegado, exclusivo, permanente de 
uma obra, é ser o ideal que ela representa e para o 
qual tende, é dar-se sem perder-se, penetrar na alma 
dessa obra e viver nela cada instante da sua vida, é 


TASSO DA SILVEIEÀ 


76 

iluminar-se com ela e caminhar com ela dentro do 
seu ser. 

Um Chefe possui uma admirável penetração de 
espírito que lhe permite vêr de alto e ver de longe, 
antecipar o futuro, discernir o essencial do porme¬ 
nor, o permanente do transitório, abarcar o cami¬ 
nho andado e aquêle que está por vir. Essa visão 
rápida é um mirante espiritual sôbre tôda a jorna¬ 
da ideai donde se descortinam os caminhos que são 
bons e os que são errados. 

Mas vêr rápido não basta. É preciso decidirmo- 
-nos. Sem o espírito de decisão oportuna, a ocasião 
escapa, o momento necessário vôa, o esforço preciso 
perde a sua razão de ser, a aplicação indispensável 
deixa de fazer-se, a medida perde o seu alcance e a 
obra pode apoucar-se ou aniquilar-se. A decisão é 
uma flexa do espírito, que se incarna na ação. 

Mas ser Chefe não é somente um poder de com¬ 
preensão e de decisão, é um poder de amor, porque 
é dom constante de si mesmo. O Chefe não conta 
os esforços nem as dores. Não as mede no tempo, 
nem no espaço. Oferecer o seu corpo e a sua alma, 
eis a sua lei. 

A sua abnegação, o seu espírito de sacrifício, 
devem ser um apostolado vivo e constante de exem¬ 
plo e de ação. Ser Chefe é saber desprender-se de 
si mesmo, elevar-se acima de si mesmo, fazer calar 
em si tudo quanto levamos de pessoal. Não é vêr-se, 
nem escutar-se, nem sentir-se a si mesmo, mas vêr, 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 7& 

escutar e sentir a obra que servimos. O Chefe está 
em tôda parte, começa antes de todos e termina 
depois de todos. É uma lampada votiva constante¬ 
mente acêsa ao pé da obra que realiza. 

Ser Chefe é ter o sentimento vivo das suas res¬ 
ponsabilidades, a consciência em chama da sua 
missão. É sentir-se solidário com todos os esforços e 
cúmplice de todos os defeitos, é sentir o seu próprio 
destino no inflexivelmente unido e irmanado com o 
destino da obra, é ter sempre presente no espírito 
que não há gesto nem pormenor que não possa ador¬ 
nar ou desfigurar a obra em construção, é compre¬ 
ender profundamente que a sua alma e a sua hon¬ 
radez, a sua inteligência e a sua vontade estão inte¬ 
gralmente empenhadas na realização perfeita do 
fim proposto, é saber com valor e aceitar com virili¬ 
dade que o triunfo é filho do seu esforço. 

Ser Chefe é ter fé na obra a realizar, no seu 
destino: quando todos descrêm, o Chefe crê, quan¬ 
do todos desesperam, o Chefe não esmorece, quando 
todos fogem, êle fica, e se cai, cai de pé ao pé da 
obra. Não precisa da certeza da vitória para lutar, 
contenta-se com uma probabilidade de êxito. O ar 
dos combates é um tônico para êle. As derrotas não 
o abatem, erguem-no mais alto. Sabe esperar, não 
céde, e se aceita o inevitável é para vencê-lo mais 
tarde. O Chefe sabe recomeçar e reconstruir sôbre 
ruínas. Porque não ignora que não há cemitério 
onde não germine e floresça uma nova vida. 






ao 


TASSO DA SILVEIRA 


O Chefe sabe obedecer: obedecer ao ideal que 
representa a sua obra, obedecer aos interêsses desta 
e ao seu destino, disciplinar a sua vida em confor¬ 
midade com essas exigências, submeter-se a tôdas 
as imposições do dever, aceitar sem discutir, sem 
transigir, tudo quanto importa à vida dessa obra. 
O Chefe é o maior exemplo de obediência. E é por¬ 
que sabe obedecer que o Chefe sabe mandar. Por¬ 
que mandar é, na essência, ainda obedecer”. 

A ninguém, sem dúvida, ocorrerá criticar-me 
por haver até aqui alongado a citação esplêndida. 
Aliás, pela sua pulsação de beleza, pela sua subs¬ 
tancial opulência, na impressão do leitor ela passa¬ 
rá como brevíssima. E muitos lamentarão que ainda 
não seja mais longa. 

O que tal página me surpreendeu e, certamente, 
há de surpreender a todos, é a fidelidade com que, 
traçada tantos anos antes, ela espelha o perfil to¬ 
tal do criador e ordenador do Integralismo. 

Plínio Salgado é, de fato, êsse homem que, da 
funda compreensão de uma exigência incoercível 
do nosso destino de povo extraiu fôrça e audácia, 
decisão e heroísmo, ânimo de combate e de sacri¬ 
fício para impelir para a frente a formidável tarefa 
Ideada. 

Ê o homem que correu os sertões da Pátria 
enorme, para levar à gente humilde a palavra salva¬ 
dora, com mais facilidade do que no velho mundo os 

J 




ENCICLOPÉDIA DO INTEORAL1SMO BÍ 

condutores de multidões correm paízes que, para 
nós, seriara simples Províncias. 

É o homem que cada noite extrai, como na len- 
da conhecida, dir-se-ia que fragmentos de ouro do 
próprio cérebro, para com êles fundir a frase lapidar 
e profunda, estremeeente do “fiat” criador, com que 
na manhã seguinte alimenta o fervor e a decisão 
de horoicidade de quantos o acompanham na mara¬ 
vilhosa aventura de impor o Brasil ao mundo. 

É o homem que repousa de uma imensa fadiga, 
bebendo alento, a cada crise mais forte de exaustão, 
na ante-visão luminosa de um futuro sem par para 
a nossa terra, 

É o homem que arrancou a sabedoria política, e 
a clara verdade filosófica, e o sentimento lúcido de 
Deus, por assim dizer, das entranhas mesmas do 
seu inquieto, poderoso, turbilhonante desejo de abrir 
a um povo o caminho do triunfo. 

É o homem que, pelo seu temperamento, pela 
sua inteligência, pela sua alma, canaliza, da esfera 
das obscuras energias telúricas para a da plena 
consciência esclarecida, a totalidade das nossas 
ânsias de povo, de nossas virtualidades de realiza¬ 
ção, de nossos impulsos afirmativos, de nossos pla¬ 
nos-primeiros de construção de uma ordem que seja. 
no planeta, expressão a um só tempo, de nossa “di¬ 
ferença” essencial e de nossa comunhão íntima de 
espírito com os outros povos. 


#2 TASSG DA SILVEIRA 

É o homem que nos adivinha e nos exprime é 
nos força a completações e a efetivações, esclarecen¬ 
do-nos sobre nós mesmos, dinamizando-nos o ânimo 
de luta, multiplicando-se, pelo exemplo eficacíssimo, 
em chefes inumeráveis que sao os decuriões e os 
centuriões das massas integralistas de hoje. 

É o homem modesto e simples que não reconhe¬ 
cerá sua imagem no espelho que, pela mão dé Faria 
de Vasconcellos, lhe apresento, mas que nem por 
um minuto duvida de que nasceu para a missão ex¬ 
cepcional que nestes dias vai desempenhando. 


(Capítulos extraído do livro Estado Corporativo de 
Tasso de Silveira). 


(1) Plínio Salgado — O que é o Integralismo — 3** ed. 
— pãgs, 29 à 31. 

(3) Palavras nova dos tempos novos — pág. 9. 

(3) Max Lamberty — Le role social des idées — pg, 170-171, 

(4) Raymond Dévrient — La Corporation en Suisse — Ed. 
Victor Attinger, pág. 13, 

(5) Jean Brethe de la Gressaye — O SyndícalismoAa Or¬ 
ganização Profissional e o Estado t págs. 3 e 4, 

(6) J. Belime — na revista "Travail et Liberté”, maio-ju¬ 
nho tíe 1936, pág. 72 — Citado por Paulo Chanson, 
em Comunisme ou Corporaiisme , pág, 13. 

(7) Plínio Salgado — Bases ão Integralismo Brasileiro — 
estudo publicado em 1935, 

CS) Plínio Salgado — Base do Integralismo Brasileiro . 

(9) Plínio Salgado — Bases ão Integralismo . 

(10) Plínio Salgado — Bases do Integralismo . 




AUGUSTO DE LIMA JÚNIOR 

O ESPÍRITO INTEGRALISTA DA 
INCONFIDÊNCIA MINEIRA 







/ 


y 


Q UEM conhece a Ação Integralista Brasileira, 
observa que seus métodos de trabalho, sua 
organização e o efeito místico que exerce 
sôbre as almas dos que nela participam, recorda-se 
instintivamente da Inconfidência Mineira de 1789. 

Como o Integralismo, a Inconfidência foi uma 
conjuração de vontades no sentido de salvar o Bra¬ 
sil das espoliações do regimen colonial, dando-lhe 
independência e liberdade. 

Por êsses dois ideais, juntaram-se elementos de 
todas as classes sociais, irmanados por um senti¬ 
mento unânime de solidariedade e de sacrifício pelo 
bem comum. 

Enquanto o comunismo, preconizando a luta 
entre as classes, promove a subversão social, pelo 
sangue e pela destruição, semeando o ódio entre ir¬ 
mãos, para fundar a mais cruel das opressões, o In- 
tegralismo vem solidarizando os homens desde o 
humilde operário ao intelectual e ao homem de ne¬ 
gócios, exigindo de todos uma abdicação de interes¬ 
ses em proveito da fraternidade e do bem comum, 
somente admitindo a nobreza na virtude e hierar¬ 
quia no saber e na capacidade de realização. 

Assim foi a Inconfidência. 



80 


AUGUSTO DE LIMA JÚNIOR 


Ela congregou magistrados, advogados, nego¬ 
ciantes, operários agrícolas e urbanos, agricultores, 
militares, cientistas e rudes, brancos, mulatos e pre¬ 
tos, ricos e pobres, no mesmo anseio nobre de cons¬ 
trução de uma grande Pátria. 

Desde logo a primeira idéia é a libertação dos 
escravos. 

Não compreendiam uma Pátria constituída de 
senhores e escravos, aviltados uns e outros por um 
regímen que abate os caracteres e entorpece o pro¬ 
gresso humano. 

Restrições da liberdade seriam as necessárias, 
e para todos; mas isso denomina-se “disciplina” e 
foi desde logo um postulado da conjuração de 1789. 

O aproveitamento das riquezas naturais, a cria¬ 
ção das indústrias, para que o Brasil vivesse liberto 
da servidão ao estrangeiro, a fundação de uma Uni¬ 
versidade para que a cultura fôsse fartamente disse¬ 
minada, tudo quanto o Integralismo prega e vai rea¬ 
lizar no Brasil, está traçado nos programas da In¬ 
confidência . 

A hierarquia ditada pelo saber e pela capaci¬ 
dade, tão intrínseca à ação integralista, culminou 
na trama inconfidente. 

Joaquim José da Silva Xavier, O Tíradentes, 
humilde alferes de Dragões, chefia um levante do 
qual participam homens como Cláudio Manuel da 
Costa, Thomaz Antonio Gonzaga, Alvarenga Peixo¬ 
to, Alvares Maciel, Luiz Vieira e o próprio tenente 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


8 ? 


coronel comandante do regimento de cavalaria a 
que pertencia o obscuro alferes. 

Ê êsse Tiradentes que recebe as investiduras 
de mais perigo, pregando a redenção da Pátria, e, 
por fim, êle único sobe ao patíbulo, consagrado, por 
sentença, chefe da Inconfidência de Minas Gerais. 

Nessa Inconfidência, como no Integralismo, 
não havia lugar para os materialistas interesseiros, 
mercadores de tudo, homens-ventres insaciáveis. 

Joaquim Silverio dos Reis conspira também. 

Devedor em mais de cem contos de reis no fisco, 
pergunta um dia ao cônego Luiz Vieira, se, vence¬ 
dora a revolução, seriam perdoadas as dívidas do te¬ 
souro público. 

Ante a resposta negativa, vai denunciar os pla¬ 
nos ao Visconde de Barbacena, para obter perdão, 
prêmios e vantagens. 

Assim também procedem hoje os miseráveis, 
acusadores que pressentem que na vitória do Inte- 
gralismo não cabem os “arranha-céus” improvisa¬ 
dos, as fortunas instantâneas, nem os peculatários 
de alto ou baixo coturno. 

A Inconfidência Mineira é, pois, o mesmo anseio 
brasileiro, que interrompido em 1789 retomou seu 
surto regenerador com a Ação Integralista Brasi¬ 
leira. 

Coincidência notável! 

Voltam agora os degredados da África, consa¬ 
grados pela Pátria que sonharam fundar e que en- 


ea AUGUSTO DE lima júnior 

contram ainda necessitada de seu salvamento. 

Quem sabe se isso não é um claro desígnio de 
Deus, apontando ao Brasil qual o caminho a seguir 
nesta hora de vergonhas e ameaçadora de novas 
tragédias? 

Haverá um brasileiro que ignore a história da 
Inconfidência? 

Conhecendo-a e amando o Brasil, não sentirá 
que é um dever de consciência e um postulado de 
dignidade cívica vestir a camisa verde que significa 
a Inconfidência Integralista? 

Em 1789 o Brasil era uma colônia portuguêsa. 

Hoje é colônia do capitalismo do mundo inteiro. 

Em 1789 havia pretos escravos e senhores bran¬ 
cos. 

Hoje sômos todos brancos, pardos e pretos, es¬ 
cravos de meia dúzia de senhores mais bárbaros que 
os de outrora. 

Incofidência e Integralismo são uma e única 
coisa. 


(In A Ofensiva, 2-4-1937) 






FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 

A ECONOMIA E A ORGANIZAÇAO 
INTEGRAL 






J 




A tão complexo o problema econômico e tão 
lj conexos os seus dados com os de outros fenô- 
B 1 menos modificadores da existência do homem 
na terra, que se torna inconcebível isolá-los para 
induzir leis de Economia pura e muito mais para 
subordinar a elas outras e mais altas atividades do 
homem. 

Dar-lhe como solução final o resultado, por 
exemplo, da soma de duas parcelas de liberdade ou 
de duas parcelas de igualdade nos parece inteira¬ 
mente infantil, como infantil seria decretar que a 
economia é coisa do interêsse do indivíduo, da con¬ 
veniência exclusiva do consumo ou da produção, ou 
da comunidade com extinção da pessoalidade dos 
agentes econômicos. É claro que nestes termos o 
conhecimento econômico, que vê o problema por um 
lado só, possa parecer a muitos observadores ou 
lacunoso ou tendencioso, e suas aplicações viciadas 
e prenhes de graves conseqüências. Por isso opta¬ 
mos por uma solução integral para a qual contribua 
cada um dos dados com seu valor relativo. 

Essa solução não pode ser anti-política nem 
anti-moral, mas integral em si e integrada no po¬ 
lítico e no moral, com os quais anda conexo o eco¬ 
nômico por uma relação de subordinação. Desde 



02 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


já se vê que não somos nem liberal, nem comunista, 
e, como a economia obedece a leis próprias, dentro 
da sua subordinação, tão pouco somos totalitarista. 
Longe de nós a idéia de aniquilamento da pessoali- 
dade, quer êste provenha do Comunismo, quer do 
Totalitarismo, e a idéia de sua confusão com a indi¬ 
vidualidade. Se repelimos a liberdade-licença, ba¬ 
temo-nos pelas liberdades inherentes à pessoa hu¬ 
mana e inalienáveis. O que faz parte integrante da 
nossa natureza não pode ser varrido sem graves con¬ 
sequências para seus desdobramentos na vida de 
cada um e da sociedade. A pessoa humana é um 
bloco de que nada se perde ao contacto e no trato 
da comunidade; ao contrário um bloco que aumen¬ 
ta de volume e potência, ao passo que incorpora a 
si partículas de espiritualidade. Na sua convivên¬ 
cia em comunhão a pessoa humana só tem a ga¬ 
nhar; de forma que suas ações tendem ao aperfei¬ 
çoamento. Sôbre esta base, que corresponde à no¬ 
ção de valor e preço das riquezas, seria possível uma 
ordem econômica que se caracterizasse pelo equilí¬ 
brio de todos os interesses, e como vantagem cres¬ 
cente para o desenvolvimento da pessoa humana. 
Tal é a pedra de toque da ordem que pretenda durar 
com satisfação geral. Ora, se o Liberalismo, que pre¬ 
tendeu atingí-la sinceraniente, falhou, por ter hiper¬ 
trofiado a pessoa, dificultando a sua sociedade, não 
segue que a causa da personalidade nas relações 
humanas esteja perdida nem a ordem livre da eco- 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 93 

nomia e da política como pretendem os comunistas 
e os totalitaristas. Ela será soberana ou não haverá 
paz entre os homens; ela ditará a ordem política, 
moral e econômica, porque ela, e só ela, é portadora 
do espírito que tudo ilumina e esclarece. Não há 
despotismo que prevalesça contra a liberdade essen¬ 
cial do homem, porque o mesmo despotismo morre 
asfixiado pela podridão do homem — decomposto 
— e reduzido a um corpo sem alma. Ora, se todo 
govêrno, quer seja econômico ou político ou moral, 
não pode prescindir da pessoa, todo govêrno certo 
terá de ser democrático, no sentido restrito da pala¬ 
vra ou naquele em que a Democracia não implica 
nenhuma outra conexão que não seja com o Espi¬ 
ritualismo concebido como ideal, porque só êste 
ideal une e aperfeiçoa. Nós não cremos possível a 
desagregação desta realidade — Democracia-espiri¬ 
tual — mas estamos convencidos de que urge extir¬ 
par da idéia de Democracia a idéia de Liberalismo, 
cuja antítese tantas vêzes se patenteia na vida dos 
povos. Democracia-liberal é uma fórmula freqüen- 
temente contraditória. Democracia é o govêrno do 
povo pelo povo, mas de um povo cujas pessoas se 
governam a si mesmas segundo preceitos de inspira¬ 
ção espiritual; Democracia é um estado econômico 
ontològicamente posterior ao estado de autarquia 
pessoal, ao passo que Liberalismo é uma corrente 
de idéias para a anarquia e o anômico. Ainda mais: 
a Democracia se tem desenvolvido à luz da ideologia 


04 FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 

pura, estimulada pela liberdade sem limite de enun¬ 
ciar o pensamento e os frutos da imaginação; de tal 
modo que hoje não se concebe uma realidade sem a 
outra, nem se conhece uma Democracia que não es¬ 
teja roida por uma infinidade de ideais os mais di¬ 
versos e contraditórios. Os partidos políticos em que 
se concretizam êsses ideais são a prova mais palpᬠ
vel da vida precária das Democracias-liberais-ideoló¬ 
gicas. Ora, se realizássemos a Democracia expur¬ 
gada dêstes dois vícios capitais, se limitássemos sua 
fonte aos interêsses pessoais e profissionais, tería¬ 
mos circunscrito consideràvelmente os motivos de 
dissidência entre os políticos e de enfraquecimento 
do Estado. Não há dúvida, os interêsses separam 
os homens; mas por uma fôrça que atua necessaria¬ 
mente produzida pela dura realidade das necessida¬ 
des; ao passo que os ideais nem sempre têm a sus¬ 
tentá-los uma determinação concreta e necessária. 
Cada homem por ser imaginoso pode ter seu ideal; 
de forma que o conjunto dos ideais de um povo in¬ 
teiro, se não der um resultado impolítico, pelo me¬ 
nos poderá ser apolítico. São as abstrações e os 
ideais que perdem a Democracia e lhe tiram o ver¬ 
dadeiro sentido espiritualista. Por uma Democracia 
dêste tipo, em qúe se acham representadas as reali¬ 
dades econômicas dos indivíduos e das profissões, 
por uma Democracia corporativa cristã, integrada 
por todos os dados concretos da existência, propug¬ 
namos nós, com a certeza não só de ser cientifica- 




ENCICLOPÉDIA DO INTEORALISMO tfS 

mente justificada como de ser a única entidade po¬ 
lítica informada por uma realidade concreta. Afir¬ 
mar que o Corporativismo é negação da Democracia 
é afirmar um êrro, porque significa desconhecer o 
Corporativismo, ao mesmo tempo que dar à Demo¬ 
cracia o sentido que não tem somente quando con¬ 
jugada com o liberalismo e a ideologia. Entre votar 
por quem se propõe curar dos nossos interêsses 
dentro das conjunturas, e votar por quem se propõe 
defender os nossos ideais, muitas vêzes à custa dos 
nossos interêsses, há uma diferença que ressalta na 
apreciação da utilidade mesma da representação 
popular no seio do govêrno. Que lucra a nação de¬ 
batendo-se entre ideais, quando sua economia re¬ 
clama coordenação, superintendência, hierarquia, 
abundância, justo-preço e ordem? Para conhecer o 
fenômeno corporativo e afastar de si a aversão que 
lhe tributam os povos democráticos, desorientados 
pelo regimem corporativo obrigatório dos Estados, 
convém distinguir o fato político totalitário, do psí¬ 
quico, Democracia, de Liberalismo, e ideologia de 
ideal realista; pois que o ideológico não é a essência 
do regimem democrático. Para o Liberalismo os 
ideais se confundem com as diversas formas de go¬ 
vêrno, as quais, por sua vez, se confundem com as 
aspirações cúpidas dos poderosos e dos aproveitado¬ 
res da coisa pública; para o Corporativismo, os 
ideais se confundem com as aspirações de boa pro¬ 
dução das riquezas, de equidade distributiva, de 






M> FELIX CONTREIRÁS RODRIGUES 

justiça repartitiva, tudo ordenado ao mais abun¬ 
dante e fácil consumo possível; de modo que em sín¬ 
tese a ordem corporativa gira em tôrno dos inte- 
rêsses do consumo, que são os interesses de todos e 
os de cada um dos membros da comunidade. Esta 
conclusão, sem dúvida, fere a convicção geral de que 
a corporação é sobre tudo reclamada pelos interês- 
ses da produção, concretiza uma ordem determinada 
pela produção; mas êste pensamento não compre¬ 
ende os interesses totais da sociedade, que se resu¬ 
mem no consumo, como fim de todas as atividades 
econômicas. O corporativismo visa proporcionar ao 
homem a felicidade pelo consumo subordinando a 
êste as ordens da produção, distribuição, repartição 
das riquezas. Talvez esta afirmação, que, por assim 
dizer, corôa as nossas conclusões, encerre a única 
novidade da nossa laboriosa obra; já que se firmou 
a convicção entre os economistas de que, sendo so- 
cializante o corporativismo, a economia correspon¬ 
dente à uma economia nacional e da produção. 

Uma organização integral, no Brasil, teria 
de refletir os dados oferecidos peia sua his¬ 
tória; poderia ser corporativo, mas essen¬ 
cialmente democrática, de inspiração cristã. 

I 

Vimos repetindo inicialmente que a única or¬ 
ganização social compatível com a verdadeira noção 
de valor é a que tem por pilar a ordem corporativa. 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


91 


Nenhuma outra encerra condições racionais capa¬ 
zes de permitirem o desenvolvimento completo da 
economia de um povo. As ordens totalitárias-cole¬ 
tivista, comunista e sociologística — poderão defen¬ 
der os valores, mas falharão na defesa dos preços; 
as duas primeiras, porque, desconhecendo a proprie¬ 
dade privada, negam o lucro e matam todo estímu¬ 
lo pessoal criador e animador. Elas instituem o re¬ 
gi mem da produção coercitiva, cujos resultados vi¬ 
riam satisfazer somente os consumidores. E a ter¬ 
ceira, porque descura principalmente dos interêsses 
do consumidor. Seu espírito de justiça está voltado 
para o produtor, ao qual incumbe desenvolver a eco¬ 
nomia nacional dirigida contra as outras economias 
nacionais, estabelecendo a concorrência econômica 
entre nações, inspirando a necessidade do império, 
provocando a guerra, como já provocaram as duas 
nações dêste tipo econômico — Itália e Alemanha. 
A luta econômica passa da liça individual e priva¬ 
da para o campo internacional e oficializada. A 
morte da pessoa, neste regimem, impede, como nos 
reglmens anteriores, as intervenções livres do es¬ 
pírito para a discussão e orientação da coisa públi¬ 
ca. A mole nacional toma forma, e os indivíduos, 
sem pessoalidade, são impelidos de roldão na vora¬ 
gem histórica, sem justiça econômica para si nem 
para os outros povos; são determinados sem remis¬ 
são. 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


98 


A ordem liberal não pôde defender nem os va¬ 
lores nem o justo-preço; primeiro, porque o valor é 
criação; segundo, por que se estriba no preço mer¬ 
cantil, independente das alçadas da justiça, ora com 
prejuizo do produtor, ora do consumidor. 

Fazia-se mister, pois, pelo menos um parágrafo 
em que fique esboçado o regimem com plasticidade 
capaz de corporificar a integralidade composta por 
todos os dados do complicado problema econômico, 
de forma que ao todo, que é o Estado, presidido pela 
liberdade da pessoa humana, não faltem nem pode¬ 
res nem direitos nem deveres para cuidar do equi¬ 
líbrio dos interesses pessoais, sociais, internacionais. 
Os homens não se satisfazem com a obediência ao 
poder estatuído só pela fôrça; mas anhelam visce¬ 
ralmente a fôrça calcada na razão das coisas. Sem 
sistema racional não há contentamento possível 
para a consciência humana, que, então, se submete 
a contragosto, murmurando. Pode tolerar algum 
tempo a experimentação de fatos empiricamente 
praticados; mas, por fim, exige a sua sistematiza¬ 
ção, a sua redução a teoremas lógicos, a sua teoria 
esclarecedora. 

Mihail Manoilesco, o doutrinador máximo do 
Corporativismo, assim o entende, quando escreve: 
“O Fascismo, primeiro, o Nacional-Socialismo, em 
seguida, traçam sulcos novos, sem jamais saberem 
para onde vão, nem se preocuparem bastante da re¬ 
gularidade geométrica de suas linhas". (...) “Se 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


£'S 


as correntes próprias ao sec. XX já estão em mar¬ 
cha, se as legiões do futuro já partiram, sem que 
tivessem recebido, como em 1789, o itinerário pre¬ 
ciso e a ordem de marcha de novos Enciclopedistas, 
não é menos verdade que as hostes em movimento 
reclamam, para prosseguirem, os refletores podero¬ 
sos do pensamento teórico. Êste pensamento teóri¬ 
co, generalizando de modo oportuno o que pode ser 
verdadeiramente geral, realiza para todos os povos 
imensa economia de esforços e de penas”. (...) 
‘‘Permite evitar experiências absurdas e caiporas” 
(Le Siècle du Corporaíivisme, 1936, págs. 8-9). 

O que faltou a Manollesco foi acentuar que a 
posição dos doutrinadores do sec. XX é mais favo¬ 
rável que a dos do sec. XVIII, trabalhando, como 
estão hoje, sobre dados de uma revolução objetiva, 
segundo a felicíssima classificação procedida por 
Plínio Salgado, a qual se operou por fôrça das cir¬ 
cunstâncias antecedentes, movida mais pelo senso 
comum dos homens do que por uma consciência es¬ 
clarecida de antemão, como em 1789. Estão expli¬ 
cando fatos consumados e não criando subjetiva¬ 
mente uma revolução. O Corporativismo já existe, 
aqui, ali; mas se nos figura ainda desordenado ou 
demasiadamente ordenado, sem um princípio indis¬ 
cutível, como aquêle que animou os instrumentos 
da grande revolução anterior — laisser faire, laisscr 
passer, — do qual decorreu, não só uma ordem como 
uma filosofia. Da sua posição vantajosa, Manollesco 


100 FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 

classifica, analisa, sintetiza, generaliza; mas, explo¬ 
rando o como se processam e se ordenam os novos 
fenômenos, esqueceu-se, qual os outros teoristas, do 
“porque”. No Estado liberal o poder público não 
intervem na vida econômica, porque lhe falta razão 
para isso, porque o indivíduo é livre. E no Estado 
corporativo, porque intervirá? 

Segundo os dados da Sociologia individualista, 
aquilo é lógico; mas êsses mesmos dados não podem 
justificar a conduta contrária. É mister aceitar a 
reforma da própria Sociologia, encarada pelo prisma 
de outro sentido da vida. Aceitamos quase total¬ 
mente a doutrina contida no Le Siécle du Corpora- 
tivisme, acentuando, porém, que lhe falta funda¬ 
mento . 

Porque se propõe hoje a Corporação para arca¬ 
bouço da economia e para órgão político? Não no 
disseram ainda os mestres do assunto, que estão 
burilando o monumento sem pedestal. Razão his¬ 
tórica? Não basta, porque, até 1789, os fatos histó¬ 
ricos se sucederam empiricamente, objetivamente, 
como estão sucedendo em nossos dias, sem que a 
Sociologia tivesse os instrumentos com que desco¬ 
brir as camadas subterrâneas sôbre que vêm repou¬ 
sando natural e logicamente. Mas hoje, que estão 
conhecidos os assentos da sociedade, não mais se 
justifica o elidir a questão. Ela é um fato natural; 
necessário, decorrente dai natureza dos homens, que 
não só se multiplicam como tendem para o aperfei- 



ENCICLOPÉDIA DO 1N TEORALISMO 


101 


çoamento pela ajuda mútua. Ela é mais do que um 
corpo formado de indivíduos, pois que tem vida in¬ 
suflada pelas pessoas, e, como tal, um consenso ca¬ 
paz de produzir fatos peculiares. A sociedade cria 
fenômenos que, sem ela ficariam em estado de po¬ 
tência dentro das faculdades pessoais. Entre êsses 
fenômenos está o do valor econômico que é criação 
social e está na órbita daqueles que são também 
regidos por ela, como a justiça. Ora, se assiste razão 
para que o Estado se institua para a justiça, a mes¬ 
ma razão preside à formação de um Estado para a 
defesa dos valores ou para a superintendência da 
economia. Aceito êste princípio, o direito de inter¬ 
vir é um direito natural do Estado, oriundo da sua 
própria natureza. Como bem demonstrou Manoiles- 
co, a corporação é tão intimamente ligada à idéia 
de Estado, que êste, por si mesmo, em certo aspecto, 
é uma corporação — Estado-corporação, incumbido 
de funções próprias, como a da justiça, da defesa, 
etc.; e se torna super-corporação, quando incumbi¬ 
do de coordenar a vida das corporações econômicas 
e não econômicas. Nós acrescentamos — defender 
os valores econômicos, numa fórmula que repu¬ 
tamos mais exata e científica. Cremos não ter dei¬ 
xado dúvidas sôbre o fundamento, sôbre o porque 
da intervenção do Estado na guarda dos valores e 
na determinação do justo-preço, que é o princípio 
da distribuição das riquezas e da repartição de seus 
proventos equitativamente. 


102 


PELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


Mas o problema encerra outro aspecto já defi¬ 
nitivamente resolvido pelos tratadistas — o corno 
se organizará o Estado para cumprir sua complexa 
missão. Com unissonâncía todos respondem — cor¬ 
porativamente. A corporação é uma forma neces¬ 
sária do Estado, posto que imposta pela natureza 
das coisas e pelas finalidades do mesmo Estado. 
Onde os teoristas se separam é no modo de incorpo¬ 
rar ao organismo do Estado os órgãos corporativos. 
Na Itália, o pensamento dominante reflete a mar¬ 
cha dos fatos, isto é, consagra a formação de cima 
para baixo, a organização imposta pelo poder pú¬ 
blico, na tendência a abafar o espírito de iniciativa 
e censura privadas. O regime corporativo se torna 
esquemático, depois de ter sido lançado de um jato, 
outorgado ditatorialmente. “Corporativismo subor¬ 
dinado" lhe chama o autor do Siécle du Corporati- 
vísme, em contraste com o Corporativismo puro. 
Aquêle pretende fazer das corporações órgãos auxi¬ 
liares do Estado político, subordinados a êle; êste 
constitue a única base possível do poder público e do 
Estado, que não poderia ser construído senão sôbre 
as corporações (pág. 92). Para desfazer o precon¬ 
ceito de que o regime corporativo é o predomínio do 
econômico sôbre os outros fatores da vida nacional, 
Manoilesco designa a organização nacional, calçada 
no corporativismo puro, como regime de corporati¬ 
vismo integral, que compreende as corporações eco- 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


193 


nômicas e as não econômicas, como Estado corpora¬ 
ção, a Igreja, as corporações culturais, a especial de 
saúde pública, do Exército, etc. 

A maneira de constituir o Estado sôbre esta 
base de integridade, é incontestável mente a demo¬ 
crática, contrária à constituição ditatorial e tota¬ 
litária do Estado, segundo o critério do corporativis¬ 
mo subordinado. 

“Haja uma ou duas câmaras corporativas, os 
membros do parlamento não poderiam ser senão re¬ 
presentantes das corporações” (pág. 334). 

É claro que a sua eleição, procedente de corpos 
organizados, foge do critério do sufrágio universal 
peculiar à Democracia liberal. E é evidente que a 
fórmula ou as fórmulas eletivas no Corporativismo, 
que se caracteriza pela complexidade, não podem ser 
tão simples como a do sufrágio.- assentado por um 
juizo unilateral. Ao contrário, neste terreno é onde 
o Corporativismo encontra a sua dificuldade mais 
séria. Em todo caso, um princípio deve ficar assen¬ 
tado, antes de tudo: — o verdadeiro Estado corpora¬ 
tivo é organizado democraticamente, não só sob o 
ponto de vista teórico, que seria o de todos os povos, 
como sob o ponto de vista brasileiro, em particular, 
em face da formação democrática do nosso povo. 

E onde reside essa dificuldade a que nos referi¬ 
mos? — Na conjugação dos diversos critérios eleti¬ 
vos ou na representação de elementos reais da vida 
nacional. Em primeiro lugar, o critério do número, 


104 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


que é inevitável e que é o único ponto de partida da 
Democracia-liberal; pois os indivíduos existem e 
exigem representação. Em segundo iugar, o critério 
da função-social (profissão); em terceiro lugar, o 
critério da classe (sindicatos); em quarto lugar, o 
critério da região (município, província). Todos 
êstes elementos devem estar presentes no Estado, 
para que se possa dizer que o Estado é informado 
corporativa e democraticamente, ao mesmo tempo 
que integralmente. 

A escola austríaca, chefiada por Spann propõe 
a representação integral pelas regiões arregimenta¬ 
das; isto é, designação de representantes de todas 
as corporações dessa região. Manoilesco, porém, 
dá preponderância ao critério funcional, sem negar 
que em certos casos se torna inevitável o respeito ao 
número de representantes de cada corporação, as¬ 
sim como ao número de votantes. É o que se de¬ 
preende da sua frase: “Com efeito, apesar da ten¬ 
dência do Corporativismo a reduzir o número dos 
casos que devem ser decididos pela maioria, e em 
que, por conseguinte, o número de mandatos de 
cada corporação adquire certa importância, há 
casos-limite em que o voto se torna um mal inevi¬ 
tável”. 

Por outro lado, a representação profissional, 
pelo critério funcional, abre a questão de represen¬ 
tar ou não as categorias corporativas que entram 
numa corporação. Por exemplo, a corporação da 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


105 


indústria concederia ou não aos seus grupos com¬ 
ponentes (metalurgia e construção) certo número 
de representantes? Mas as dificuldades não param 
aqui. Há outro critério representativo que o sistema 
impõe à consideração dos políticos — o critério da 
massa de interêsse manejados por certa corporação. 
Sendo da índole da representação corporativa — o 
interêsse profissional, essa representação é Hdima- 
mente de interêsses. Ora, há interesses maiores e 
menores, melhores e piores numa nação; portanto 
seria equitativo que os primeiros obtivessem maior 
número de delegados à ordem política. A corpora¬ 
ção da agricultura, por exemplo, no Brasil que 
compreende a volumosa soma dos interêsses do café, 
teria maior número de deputados do que a corpora¬ 
ção das artes e ofícios, além de certa margem pro¬ 
porcional prefixada. 

Dêste dédalo de dificuldades pode sair mais fa¬ 
cilmente um Estado federado, como o Brasil, que 
se formou democràticamente praticando as liberda¬ 
des consentidas pelo Município. “O espírito muni¬ 
cipal é a mais antiga, a mais profunda e a mais for¬ 
te realidade poltica brasileira”, reafirma Plínio Sal¬ 
gado na Psicologia da Revolução depois de ter assen¬ 
tado que a “índole do nosso povo é uma índole ao 
mesmo tempo profundamente democrática, e abso¬ 
lutamente dócil aos governos centrais. A autoridade 
longínqua do rei tinha um prestígio que se impunha 
comumente a todos os seus súditos. Diluídos em 


106 


PELIX CONTR EIRAS RODRIGUES 


nossos vastíssimos sertões, êsses núcleos ganglio¬ 
nares porém sempre conceberam a autoridade ime¬ 
diata, tangível, sensível. Essa autoridade municipal, 
entretanto, não era um elemento de desagregação 
nacional, pois não se adensava em expressões com¬ 
pactas de regiões atentando contra a unidade do 
país". 

Sobre esta base de realidade é fácil apreender 
um quadro representativo tão esquemático quanto 
vem sendo o desenrolar da História brasileira — 
desde o Município, que foi o primeiro núcleo de or¬ 
ganização nacional, até a União, passando pela 
Província (hoje Estado). Com arranque no critério 
regional, como aconselha a escola de Spann, a orga¬ 
nização brasileira teria no Município a sua primeira 
expressão corporativa integral, dentro do Corpora¬ 
tivismo puro. 

Tòdas as formações profissionais embrionárias, 
que em nossa opinião se restringiriam aos sindicatos 
autônomos de cada profissão, para fugir ao sindi¬ 
cato único de cada classe, porque êste desperta o es¬ 
pírito de luta de classes, delegariam seus mandatᬠ
rios para constituição do Conselho municipal, por 
maioria de votos de cada sindicato; e teríamos, na 
base da constituição do Estado, a Democracia por 
eleição direta dos cidadãos, a qual se irá desdobran¬ 
do sucessiva e indiretamente na constituição da Pro¬ 
víncia e na constituição da União; mas também di¬ 
retamente, se ponderarmos que as fontes dos respec- 






ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


101 


tivos governos são corpos já organizados, — os sin¬ 
dicatos para o Município, as federações de sindicatos 
para a Província, e as confederações ou corporações 
para a União. Da realidade democrática do caso 
brasileiro não se afasta o nosso doutrinador nacional 
que, sôbre as indicações gerais do livro citado, houve 
por bem deixar expresso até os pormenores de seu 
pensamento organizado, no Manifesto Programa da 
A. B. I., de 1936. “O Integralismo é um movimento 
que objetiva a felicidade do povo brasileiro, dentro 
da justiça social, dos princípios verdadeiramente de¬ 
mocráticos, garantida a intangibilidade dos grupos 
naturais”. (...) (1) “Os Municípios serão organi¬ 
zados sôbre bases sindicais”. (...) (2) “No âmbito 
provincial os representantes das federações de sin¬ 
dicatos e associações, econômicas e culturais, cons¬ 
tituirão os Conselhos Provinciais”. (...) (3) “O 
Congresso Nacional, formado pela Câmara Corpora¬ 
tiva Econômica e pelo Senado (órgão êste consti- 
tuido pelas corporações não econômicas) exercerá 
o Poder Legislativo”. 

Os Chefes do Executivo saem dos Conselhos e 
do Congresso, isto é, os intendentes, os Governado¬ 
res e o Presidente de República ou Chefe de Estado, 
assistidos por conselheiros que, à margem do poder 
legislativo e do executivo, designados também pelos 
sindicatos diretamente, pelas federações e pelas con¬ 
federações ou corporações, se incumbiriam de pre¬ 
parar as leis e de velar por sua fiel execução. Êstes 


108 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


corpos de Conselheiros, independentes dos secretᬠ
rios e dos ministros, estabeleceriam a ligação entre 
corporações econômicas e não econômicas e os ór¬ 
gãos governamentais, sobretudo na Província e na 
União, esclarecendo os legisladores sôbre a convi- 
niência de suas leis e os governantes sôbre a manei¬ 
ra de executá-las, ao mesmo tempo que atuariam 
como poder consultivo, informante das necessidades 
nacionais, com atribuições para apresentarem pro¬ 
jetos de leis, Êste poder tem tôdas as características 
de um poder, porque, sem seu beneplácito, não pre¬ 
valecerão nem as leis do legislativo nem as imposi¬ 
ções do executivo. Tôda medida de ordem pública 
não poderá ter execução, sem que os conselhos as 
examinem, para acordarem que não atentam contra 
a existência de uma corporação ou das corporações. 
Como promulgar, por exemplo, uma lei sôbre llvre- 
-câmbio ou uma lei protecionista contra interesses 
vultosos em jôgo? Isso, que é possível num regimem 
liberal, de política pura, não o será no regimem cor¬ 
porativo integral. Uma política econômica tendente 
a super apreçar o café, com menosprêso do justo-prê- 
ço para o consumidor, do mesmo modo não prevale¬ 
cerá contra os interesses das corporações, por ser 
um artigo de grande consumo ou de grande valor 
nacional. 

Enfim, no poder consultivo é que se estriba o 
Estado, como super-corporação, para superintender 
e coordenar a economia nacional. Estudados os pro- 






ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


10S 


blemas dentro das corporações, e autorizadas as suas 
soluções pelo Conselho consultivo, então o poder 
executivo poderá tomar as medidas do caso. Tal a 
organização corporativa democrática informante de 
um Estado incumbido de defender os valores sociais 
e o justo-prêço das riquezas portadores desses valo¬ 
res. Não pretendemos que seja perfeita; mas enten¬ 
demos que possa servir como sugestão, quando o 
povo brasileiro cogite dêste regimem constitucional, 
se um dia êle se impuser à consciência da nação por 
uma revolução objetiva ou por uma revolução subje¬ 
tiva. Partindo dos sindicatos de classe livremente 
formados para a corporação, ou para a organização 
de corpos profissionais, com funções políticas, os 
governos se vão integrando gradativa e democrati¬ 
camente, segundo os diversos critérios eletivos: — 
da região (Município e Província); da classe (ope¬ 
rários, patrões, técnicos, na função privada de célu¬ 
las de corpo de função pública e não na função po¬ 
lítica de luta de classe); da profissão (categorias de 
sindicatos, reunidos por profissões como colégios 
eleitorais no Município, como federações na Provín¬ 
cia, como confederação na União); do número 
(maioria de votos em cada sindicato municipal, em 
cada federação, em cada confederação, até comple¬ 
tar o número de representantes declarado pela 
Constituição nacional); dos interesses (número su¬ 
plementar de representantes de determinadas pro¬ 
fissões que manejam riquezas muito mais importan- 


no 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


tes do que outras), Se em certo Município há minas 
de ouro ou jazidas de ferro em que trabalham mas¬ 
sas operárias, alentadas por abundante capital, é 
justo que seus sindicatos de operários, de patrões, de 
técnicos, tenham maior número de representantes 
junto ao Conselho municipal que os sindicatos dos 
barbeiros, por exemplo, ou dos sindicatos não eco¬ 
nômicos, Assim junto à câmara saida dos Conse¬ 
lhos, ao Congresso saido das Câmaras; e junto às 
federações e confederações, como junto aos Conse¬ 
lhos provinciais e nacionais. No Rio Grande do Sul 
não se concebe um governo integral, sem que seus 
órgãos políticos contenham maior número de re¬ 
presentantes da pecuária, já que a federação de seus 
sindicatos reflete interêsses milionários. Assim na 
Província de São Paulo quanto ao café; e na União 
quanto à agricultura, cuja confederação ou corpora¬ 
ção, compreendendo os interêsses do mesmo café, 
sustentáculo das nossas trocas internacionais, repre¬ 
senta um capital imenso, vital não só para a Nação 
como para a multidão de inteligências e de braços 
empregados na agricultura. Pelos interêsses que 
encerra, a agricultura, em país como o nosso, pro¬ 
dutor de matérias primas, tem necessidade de uma 
representação que, pelo menos, impeça a promulga¬ 
ção de medidas contrárias a eles. Pela mesma razão, 
na Inglaterra, a maior representação coorporativa 
pertenceria à indústria máquinofatureira. 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


111 


Nisso consiste uma ordem incumbida da defesa 
dos valores criados pela sociedade que ela estrutura. 
É uma ordem complexa, sem dúvida, mas muito 
mais aprumada pela compensação da pluralidade de 
forças do que a ordem liberal freqüentemente dese¬ 
quilibrada pela ação de uma força única, — o inte¬ 
resse individual — comprimindo a política, a econo¬ 
mia, a cultura. No regimem liberal a maioria de 
votos e um Parlamento decreta a orientação de uma 
cultura, por exemplo, que equivale ao suicídio da 
pessoa do homem, como é a cultura leiga, cujo ter¬ 
mo é a conformidade com a sua condição de sim¬ 
ples indivíduo, instrumento social, cada vez mais 
espoliado de seus direitos, reduzido a comunia om- 
nium. 

Mas era regimem de corporativismo integral, 
isto não será possível, por isso se escuda precisamen¬ 
te na pessoa humana, quando inspirado pela dou¬ 
trina cristã. A corporação do ensino, sôbre o funda¬ 
mento de que seus membros são sujeitos de direitos 
inalteráveis sobretudo da liberdade do contacto com 
o Criador, de onde procede a suprema proteção de 
todas as outras liberdades, essa corporação se oporá 
a qualquer medida tendente a dificultar a expansão 
natural da pessoa humana. Temos fundadas razões 
para afirmar que o Corporativismo ou será calcado 
sôbre a doutrina de Cristo, para ser integral e pro- 


112 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


duzir bons frutos, ou será leigo e sem Deus, tão per¬ 
nicioso como o cego Comunismo. Nada lhe faltará 
para dar os mesmos resultados dêstes, ainda que o 
seu sindicalismo seja plural e conflúa na corporação, 
era vez de ser único e confluir diretamente no Esta¬ 
do; ainda que descongestione o Estado, pela descen¬ 
tralização, em vez de congestioná-lo pela centraliza¬ 
ção de todos cs poderes. No corporativismo integral 
ou cristão a corporação do ensino é a chave de todos 
os segredos da felicidade nacional, e do porque sua 
essência é democrática. Um Estado composto de 
homens livres não pode deixar de sofrer a influência 
dos homens livres, é coisa pública, republicano ou 
manárquico; e melhor será monárquico que repu¬ 
blicano, pela continuidade do chefe nacional, que 
reflete a continuidade da vida e do seu Criador. 
Quanto à Monarquia, embora Leão XIII tivesse fu¬ 
gido a aconselhá-la, é da simpatia da Igreja, desde 
S. Tomaz dc Aquino: “Donde se conclui que, se pa¬ 
rece ser a realeza, a qual é melhor govêrno, muitís¬ 
simo de evitar por causa da tirania; e, se a tirania 
soe dar-se não menos, porém mais, no govêrno de 
muitos que no de um só, resta simplesmente que é 
mais conviniente viver sob um só rei, do que sob o 
regimento de muitos". (Do Govêrno dos Príncipes, 
traduzido por Arlindo Veiga dos Santos, (pág. 39). 
E quanto à Democracia, decorre dos caracteres da 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


113 


soberania, resumidos por Emilio Chénon, no seu 
trabalho — Le Role Social de TÉglise, pág. 109 e se¬ 
guinte: Omnis potestas a Deo per populum. A sobe¬ 
rania, que reside no povo, é limitada por Deus e pelo 
bem-comum, que é a razão de ser do Estado (pág, 
115); é inalienável in habitu e alienável só in actu, 
isto é, só em exercício e não em propriedade (pág. 
127). É êste caráter que permite o sistema repre¬ 
sentativo, adianta Chénon. É imprescritível, in ha¬ 
bitu e in actu, para a nação, e só prescritível in actu 
quanto à soberania do príncipe, (pág. 131), pois que 
a nação tem sempre o direito de usar da sua sobera¬ 
nia nos casos extremos de tirania, por exemplo. É 
a consagração não só do direito do govêrno pelo 
povo, como de revolução. A soberania, por fim, é in¬ 
divisível in habitu, e eminentemente divisível ern 
exercício, conforme compreendem e praticam todos 
os povos, depois de Montesquieu (pág. 134), que 
demonstrou a conveniência dos três poderes em 
mãos diferentes e os três representantes da sobera¬ 
nia nacional. Como se vê, sem impôr o sub-regimem 
republicano ou manárquico, a Igreja se mantem 
firme em sua teoria democrática, quer se trate de 
um sistema liberal, quer de um sistema corporativo; 
porque é aquele que salvaguarda os direitos inamis- 
síveis do homem, o mais adequado a curar de todos 
os seus interesses na vida comum. 


114 


FELIX CONTREIRAS RODRIOUES 


(Capítulo extraído da tese sôbre Conceitos de Valor e 
Prêços , de F. Contreiras Rodrigues, apresentada no con¬ 
curso para a cadeira de Economia Política da Faculdade 
de Direito da Universidade de Porto Alegre, págs. 744-763) 




II 

FORMAS DE ESTADO. REGIMES DE 
GOVÊRNO. SISTEMAS CONSTITUCIONAIS 





N A linguagem dos sociólogos encontramos fre- 
qüentemente palavras que não têm significa¬ 
ção definida, como — forma, regime e sistema 
— com relação a Estado e governo. A todo passo 
lemos indistintamente ora forma de Estado, ora for¬ 
ma de governo, ora regime de Estado, regime de go- 
vêrno, ora sistema de Estado, sistema de governo. 
Entretanto, admitindo-se neste terreno, como se po¬ 
dem admitir, noções gerais, noções especiais e no¬ 
ções particulares, é cabível a cada uma delas uma 
expressão conveniente ou adequada que torne a ciên¬ 
cia mais explícita. 

I — Quanto à forma, parece-nos já a imagem 
de uma realidade que cai imediatamente sob os sen¬ 
tidos, visível, lacta, ampla, como um continente que 
abrange todo um conteúdo; e se refere como perfeita 
adequação ao Estado. O Estado é algo estável que 
tem sua figura, sua feição, sua forma, como um 
ser que tem exterioridade concreta. Assim podemos 
dizer com segurança que um Estado é unitário, que 
outro é dual, que outro é federado. Basta enunciar 
esta idéia para que se conceba logo não o conteúdo 
político, mas o continente formal de um Estado, 
dentro do qual se compreenda o regime do seu go- 




118 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


vêrno e o seu sistema constitucional. Assim, a forma 
pode ser reservada para significar o aspecto exterior 
de um Estado, respondendo à pergunta — Como é 
formado? 

II — Quanto ao regime, respondendo à pergun¬ 
ta — quem rege êsse Estado — fornece a idéia de 
um princípio dinâmico, referente mais ao fato — 
govêrno — do que ao fato estático — Estado. 

Diante desta nova especulação para saber-se 
quem rege o Estado, várias respostas podem ser da¬ 
das, tipificando em cada uma delas um regime di¬ 
ferente: 

1 — Se é a divindade quem o rege por intermé¬ 
dio dos seus sacerdotes, o tipo de govêrno é o da 
Teocracia ou do regime teocrático. 

2 — Se é um homem quem rege, qualquer for¬ 
ma de Estado, quer unitário, quer dual, quer federa¬ 
do, por meio da força com que conquistou o poder, o 
tipo de govêrno é o do Despotismo ou da Tirania, 
quando o déspota é máu. 

3 — Se é uma família que exerce a função de 
govêrno, passando êste exercício de pais a filhos, 
tem-se o tipo da Monarquia, com os subtipos de Mo¬ 
narquia absolqta, de direito divino, quando o mo¬ 
narca governa por meio de ministros e de cortes, e 
de Monarquia-constitucional, quando governa por 
meio de parlamentos formados por preceitos consti¬ 
tucionais . 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


119 


4 — se o monarca é escolhido pelo povo para 
reinar vitaliciamente, constitui-se a Monocracia, 
ou tipo do regime monocrático. 

5 — Se o mesmo povo elege o seu governante, 
mas por tempo prefixado constitucionalmente, o 
regime assim constituido é o da Democracia repu¬ 
blicana, que, como a Monarquia, apresenta vários 
subregimes; 

a) — o da Democracia liberal, quando o espírito 
constituinte é o de dar primazia às liberdades e aos 
direitos dos cidadãos; 

b) — o da Democracia social, quando o espírito 
constituinte é o de dar primazia à igualdade dos ci¬ 
dadãos; 

c) — o da Democracia integral, quando o espí¬ 
rito constituinte é o de integrar ou conciliar a li¬ 
berdade com a igualdade, os direitos com os deveres, 
para sustentar a primazia do homem. 

6 — Se o govêrno, qualquer que seja a sua ori¬ 
gem, se exerce com o fim de sustentar a primazia 
do Estado sobre o homem, o regime assim criado é 
o totalitário. 

7 — por fim, se o poder se forma de uma classe, 
com o fim de dominar as outras categorias de cida¬ 
dãos em que se divide a nação, pondo nas mãos do 
govêrno todos os recursos para a produção das ri¬ 
quezas e os bens de consumo, temos o regime sovié¬ 
tico, que, por seu fim de anular os direitos do cida- 




120 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


cl ao e o próprio homem, tambím se cataloga entre 
os regimes totalitários. 

III — Quanto ao sistema, que é a estrutura 
dentro da qual o soberano rege, isto é, exerce o go¬ 
verno, curioso é ver que cada regime e subregime 
exige neeessàriamente o seu sistema próprio ou a 
sua própria estrutura, dando esta a fisionomia da¬ 
quele, ao qual está intimamente ligado, com relação 
semelhante à que existe entre as funções endôcrinas 
dos organismos vivos e o tipo de cada um. 

1 — Assim, podemos ter certeza de que o regi¬ 
me teocrático tem que ser movido pelo sistema da 
moral revelada por Deus. 

2 — De que o regime do despotismo ou da ti¬ 
rania tem por fôrça propulsiva a constituição tem¬ 
peramental do tirano ou déspota manifestada pelo 
arbítrio do mesmo. O sistema dêsse regime consiste 
na vontade livre do governante. 

3 — Tendo-se em vista a Monarquia absoluta 
de direito divino, por isso que é de direito divino, re¬ 
gência por delegação transcendental, o sistema se 
estrutura numa trama que tem tanto de natureza 
espiritual, como na Teocracia, quanto de natureza 
temporal, como em todos os regimes dêste mundo. 
Por isso, desde quando se reconstituiu o Império do 
Ocidente, sob Carlos Magno, e em todo o tempo do 
Império do Oriente sob seus Basileus, os soberanos 
se faziam assistir por ministros e côrtes que os au- 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


121 


xilíassem no govêrno, que os ajudassem a servir 
bem servido o povo. É o Sistema da Demofilia. 

4 — Tendo-se em vista a Monarquia-constitu¬ 
cional, o sistema participa da natureza do sistema 
parlamentar, segundo o qual a vontade do povo se 
conjuga com a vontade do monarca nos atos da go¬ 
vernação. 

5 — Tendo-se em vista o regime monocrático, 
tipo intermédio entre Monarquia-absoluta e Monar¬ 
quia-constitucional, o seu sistema não se caracteri¬ 
zou fortemente; e, por ser incolor, como era na Po¬ 
lônia, em séculos passados, foi o que menos condi¬ 
ções teve para sustentar êsse tipo de regime. O mes¬ 
mo aconteceu em Roma, cujo Império, manejado 
por um sistema de cooptação e de vitaliciedade, des¬ 
moronou ao fim de quatro séculos. 

6 — Tendo-se em vista o regime democrático- 
republicano, como prescinde de soberano hereditᬠ
rio ou vitalício, o sistema de govêrno dêste regime 
não pode deixar de ser totalmente representativo da 
vontade popular, e se exerce por meio de câmaras e 
de ministérios. 

7 — Mas a Democracia-republicana, isto é, 
aquela que se caracteriza pela temporariedade das 
funções políticas, comporta três tipos períeitamente 
diferenciados, aos quais correspondem três sistemas 
também respectivamente adequados a cada um dês- 
ses subregimes. 




122 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


a) — Ao subregime da Democracia-liberal cor¬ 
responde o sistema da representação popular por su¬ 
frágio universal, incumbida de decretar e defender 
os direitos dos cidadãos, e de dotar de fôrça legal 
todos os serviços públicos. Nada se faz sem autori¬ 
zação legal. É o sistema legal, o sistema jurídico 
por excelência. 

No liberalismo, que justifica a Democracia-libe¬ 
ral, há um sentido de vida individualista, segundo o 
qual o indivíduo supera a sociedade, colocando seus 
interêsses particulares acima dos interêsses gerais; 
o que se torna possível politicamente em virtude dos 
sistemas que entrosam esta variedade de Demo¬ 
cracia: 

1. 0 — o Parlamentarismo — que se apresenta 
como o sistema mais dútil. 

2. ° — o Presidencialismo — que é o mais rígido. 

3. ° — o Colegiado — meio têrmo entre um e 
outro, porque o colégio de administradores quebra a 
rigidez da administração a prazo fixo, e é eleito pelo 
sufrágio universal direto. Pela eleição indireta do 
Colégio ou Conselho participa do modo parlamenta¬ 
rista; pelo prazo fixo decretado aos órgãos governa¬ 
mentais participa do modo presidencialista. Com 
qualquer dêstes três sistemas se tem em vista preci- 
puamente a garantia das liberdades e dos direitos 
constitucionais reconhecidos aos cidadãos, o que é 
da essência do regime democrático-liberal; 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


123 


b) — Ao subregime da Democracia-social cor¬ 
responde o sistema do sufrágio parcial, incumbido 
de formar um govêrno que decrete o poder e os di¬ 
reitos da coletividade sobre a pessoalidade até redu¬ 
zi-la à mínima expressão política. O cidadão perde 
o direito de iniciativa privada, depois de perder os 
meios de produção das riquezas. Dêsse modo a pro¬ 
dução fica sendo privilégio da coletividade. A êste 
sistema se costuma chamar de Coletivismo; 

e) — Ao subregime da Democracia-integral, que 
alguns sociólogos denominam de orgânica, corres¬ 
ponde um sistema entrosado por eleições gradativas 
e cada vez mais apuradas nos grupos corporativos 
que os cidadãos compõem espontaneamente, as 
quais participam do sufrágio universal em que todos 
os cidadãos são chamados a votar, e não somente 
uma classe ou parte dêles. Os cidadãos se consti¬ 
tuem nos seus estados e êstes no seu regime corpo¬ 
rativo, que é o regime de tôdas as classes sociais e 
de todos os interesses nacionais. É um sistema que 
não se adapta à Democracia-liberal, porque o seu 
princípio de liberdade não é absoluto, mas relativo 
às conveniências sociais. O cidadão desprende-se de 
parte dela, em benefício do grupo que êle mesmo 
forma espontaneamente e no próprio interêsse. E 
não se adapta à Democracia social, porque defende 
os cidadãos contra a sua absorção peio Estado. Nes¬ 
te particular o sistema corporativo é a antítese do 
sistema coletivo. Há, é verdade, em um e outro um 



124 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


princípio socialízante; mas que no Coletivismo se 
cumpre à fôrça e em benefício do Estado, ao passo 
que no Corporativismo se realiza espontaneamente 
e em benefício do cidadão, por meio da associação, 
da solidariedade, que ampara o homem. Daí tam¬ 
bém chamar-se o Corporativismo e o Cooperativismo 
de sistemas solidaristas, tão longe do Socialismo co¬ 
letivista como estão a espontaneidade e a coação, a 
expansão da pessoa humana para o Estado e a sua 
escravidão pelo Estado, um Estado meio de ordem 
pública e um Estado fim de todas as atividades do 
homem. 

A êste sistema de governar oprimindo os cida¬ 
dãos, sem responsabilidade de nenhum governante, 
porque tudo se faz em virtude de lei, à feição demo¬ 
crática, como é no Socialismo coletivista e no Co¬ 
munismo, quando levado ao cúmulo da opressão, 
dá-se-lhe o nome de Totalitarismo. Assim foi na 
Alemanha, sob o Nacional-Socialismo; assim na 
Rússia comunista; assim na Itália fascista. 

Passados em revista os regimes governamentais 
e os sistemas constitucionais, fica evidente que a 
cada regime corresponde necessariamente um sis¬ 
tema ou mais de um, contanto que sejam logicamen¬ 
te adequados, como no caso da Democracia-liberal, 
que pode funcionar sob a entrosagem parlamentar, 
presidencial e colegiada; ou também a mais de um 
regime caber o mesmo sistema, como no caso do So¬ 
cialismo e do Comunismo aos quais serve o Coleti- 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALIBMO 


125 


vismo, porque o Comunismo é um conseqüente des¬ 
dobramento do Socialismo. Depois de socializar os 
meios de produção, fácil é socializar os bens de con¬ 
sumo; depois de reduzido o povo à condição de mas¬ 
sa, se podem apagar da sua vida os grupos econô¬ 
micos, os cívicos e o familiar. Nesse formigueiro, 
nessa colmeia, o imperativo é trabalhar para o Es¬ 
tado, com prescindência de qualquer valor pessoal. 

Fora dessas correspondências, que estão na ordem 
natural das coisas, porque são lógicas, outras adap¬ 
tações se tornam impossíveis ou absurdas ou perigo¬ 
sas, como qualquer dos sistemas próprios da Demo¬ 
cracia-liberal aplicados aos regimes socializantes. 
Quanto mais pura fôr a inspiração liberal dentro de 
um regime socializante, tanto mais ligeiro degene¬ 
rará ela em Socialismo e logo depois em Comunismo. 
O sufrágio universal que concedeu o govêrno ao par¬ 
tido trabalhista, em breve será abolido por fôrça da 
lógica coletivista, que não pode tolerar a formação 
de maioria eleitoral oposta à realização do plano 
socialista ou do govêrno por uma classe para uma 
classe. Vai fatalmente para o Totalitarismo. 

Raciocinando assim, e com o propósito de acer¬ 
tar, os integralistas resolveram apoiar o ideal par¬ 
lamentarista, já que um grupo forte e seleto da nos¬ 
sa Cmara Federal prefere êste sistema ao presiden¬ 
cialista que estrutura atualmente o nosso regime 
democrático. A verdade é que o nosso ideal demo¬ 
crático não coincide com a Democracia-liberal; mas 



126 


PELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


daí não decorre que nos caiba impedir por quatro 
votos ou mesmo dificultar o melhor jôgo do regime 
hoje imperante no Brasil. Além disto, estamos 
convencidos de que, sendo já da categoria do 
Socialismo-de-Estado o regime pelo qual somos 
norteados neste momento histórico convem de¬ 
tê-lo no ponto em que está, se não fôr possível 
recuar sôbre o rastro das liberdades perdidas 
pelos cidadãos. Talvez o Parlamentarismo abrisse 
uma esperança a êste rumo. Os liberais que se ave¬ 
nham quanto a adoção dêste ou daquele sistema 
constitucional; posto que os integralistas se conser¬ 
varão atentos aos altos interêsses da Nação, votando 
sempre a favor das medidas legislativas e executivas, 
que melhor correspondam a êles. Êste é o mais sério 
dos nossos compromissos políticos. Não pode haver, 
pois, complicação da resolução que tomamos com o 
nosso ideal de Solidarismo, muito menos de quebra 
dêste ideal, que é, no nosso entender, não só a salva¬ 
ção, a paz política e social do Brasil, mas de todos os 
povos da Terra. Quem sabe até se através do Parla- 
mentarimo, por sua dutílidade mesma, não se possa 
encaminhar a opinião pública e depois desta a pró¬ 
pria política na direção em que enxergamos a salva¬ 
ção nacional? O que não podemos é encarar com in¬ 
diferença os altos problemas de Estado, nem propor 
um sistema corporativo a um regime em parte libe¬ 
ral e em parte socialista. Isto seria desconhecermos 
as possibilidades teóricas e as práticas do momento, 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


127 


e afastamos as nossas próprias possibilidade, pre¬ 
tendendo colher fruto de uma terra que ainda não 
está preparada. Que readquira o seu Parlamenta¬ 
rismo a Democracia-liberal. Melhor para ela. Nós 
reservaremos o Corporativismo para a Democracia- 
Integral . Mas até lá nos contentaremos com as re¬ 
formas mais promissoras. 


(In A Marcha, 27-2-1953) 











111 

O PROBLEMA DO LATIFÚNDIO 




















C OM a freqüência das imitações fáceis ouvem- 
-se e lêem-se repetidos doestos assacados a 
latifúndios em nosso país. É moda. Etimolò- 
gicamente esta palavra significa — grande, alarga¬ 
da, lata (lati) propriedade rural, derivado do Latim: 
— latifundium (latus-fundos). Tal é a coisa em si, 
em estado (in habitu) ou propriedade rural . Mas, 
semanticamente, não é esta a significação dêste 
fato econômico e jurídico: e, sim, grande-proprieda¬ 
de improdutiva, isto é, inútil à coletividade ou des¬ 
tinada a fruições particulares, como, por exemplo, 
aos prazeres da caça, e, o que é mais grave, a inér¬ 
cia ou ao desleixo do abandono. 

Tal é a coisa em exercício (in actu) que tem 
acarretado através da História tantos desgôstos, 
tantas revoluções e tamanho descrédito à coisa em 
si, isto é, a grande propriedade in habitu. Contra 
aquela é que mais de uma vez se tem avolumado a 
grita dos povos do velho Mundo, porque é a coisa 
sujeita à ação do homem; e nunca contra esta que 
não passa de uma instituição imposta pelas circuns¬ 
tâncias. O latifúndio, pois, tem provocado revoltas, 
não contra êle mesmo, mas contra o uso que se faz 
dêle, 






m 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


Entretanto, no Brasil, por arremedo do que se 
tem feito na Europa, ataca-se o latifúndio em si, 
como se essa causa fôsse a causadora de algum mal 
social; e ataca-se o proprietário ou latifundiário, 
não porque faça mau uso da sua propriedade, mas 
pelo simples fato de ser grande proprietário. Nesta 
campanha está disfarçado o ódio contra a proprie¬ 
dade e contra o seu proprietário, há nela muito de 
socialismo e muito mais de comunismo, posto que 
no nosso país, nunca se fêz até hoje mau exercício 
da propriedade, quer seja ela destinada à borracha, 
quer à cana, quer ao gado. Nos latifúndios do Brasil 
sempre o homem se portou decentemente, desti¬ 
nando suas terras ao cultivo de alguma riqueza; de 
modo que a instituição da grande propriedade nun¬ 
ca foi empecilho ao progresso nacional, nem causa 
de calamidades sociais. Ao contrário, o latifúndio 
tem sido, e ainda é, o único método adequado à ex¬ 
ploração econômica e ao bem-estar humano de 
países despovoados. Assim foi na Antigüidade, em 
que os patrícios encabeçavam e fomentavam as in¬ 
dústrias agrícolas. Assim na Idade-Média com os 
Barões, os Condes, os Marqueses, os Duques, os Prín¬ 
cipes e os Reis, que, em suas baronias, em seus con¬ 
dados, marquesados, ducados, principados e reina¬ 
dos, aglutinavam os braços capazes para o trabalho 
produtivo dentro de cada um desses antigos apanᬠ
gios, que nada mais eram do que imensas proprie¬ 
dades exploradas cada uma por seu titular. Assim 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


133 


no Brasil das Capitanias, cujos capitães-mores pro¬ 
moviam o povoamento e o progresso, arregimentan¬ 
do e ordenando a produção de riqueza da terra de 
Vera Cruz. Assim no Brasil das Sesmarias, que assi¬ 
nalam, como no das Capitanias, um período de ar¬ 
rojo e desprendimento dos dianteiros conquistadores 
do patrimônio nacional. Assim no Brasil das Fa¬ 
zendas — de algodão, de cana, de café, de gado; no 
Brasil dos fazendeiros grandes proprietários, que 
tomam possível, com seu tino, sua inteligência e 
seu capital o acréscimo da riqueza pública. Sempre 
emergem, nos países a povoar e aproveitar, o lati¬ 
fúndio e o latifundiário, como fenômenos históricos 
necessariamente determinados e acomodados às di¬ 
ferentes circunstâncias. A existência do senhor de 
terras em atividade na sua terra foi e é um desen- 
cargo para o governo da nação, do Estado, pois que, 
com seus atributos heris, não só promove o pro¬ 
gresso da emprêsa como mantém a ordem dos ope¬ 
rários. Diverso é o fato da pequena propriedade, em 
que o pequeno proprietário, isolado, só com sua fa¬ 
mília, sem o ajutório dos vizinhos, labuta quase 
sempre desesperançado, ou esperando que o Estado 
lhe estenda a mão salvadora. Admitimos que se 
passe do pastoreio para a agricultura, passando 
ex-abrupto, por efeito de uma lei agrária, da grande 
propriedade para a pequena; e que esta produza 
maior riqueza do que aquela na mesma extensão. 
Admitimos, porque é evidente. Entretanto, o acrés- 



134 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


cimo proporcionado pela agricultura em pequena 
propriedade tem uma significação inteiramente di¬ 
versa da menor produção pela pecuária. Por aquela 
se melhora de condição pela quantidade, por esta 
pela qualidade. A mesma extensão de terra explora¬ 
da agrícolamente dá maior quantidade do que pela 
criação. Mas é preciso investigar, antes de avaliar 
as duas condições humanas, que intensidade de tra¬ 
balho e que quantidade de braços se acumulam na 
terra da agricultura para a sua maior produção; e 
ver se êsse aumento corresponde a maior felicidade 
dos produtores. O que se vê é a sua escravização à 
charrua, à enxada, à foice; o que se vê é uma inten¬ 
sidade de trabalho bem mais forte do que na pecuᬠ
ria, um nível de felicidade bem mais baixo do que a 
do campeiro. Para convencimento dêste fato, basta 
fixar os olhos num e noutro produtor. O agricultor 
anda encurvado, é soturno e resignado; o campeiro 
é bizarro e sôfrego; aquele vive olhando a terra para 
a qual tende initerruptamente; êste bota o chapéu 
na nuca para contemplar ao longe a vastidão do es¬ 
paço . Há no peito do campeiro um ruidoso palpitar 
de satisfação, enquanto na alma do agricultor a pa¬ 
ciência de quem espera um ano para ver o resultado 
do seu trabalho. Esta verificação basta para con¬ 
vencer de que o sistema pastorício, na grande pro¬ 
priedade, é mais integralmente econômico do que 
o agrícola na pequena, porque corresponde mais 
exatamente a lei hedonística — do resultado ótimo 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


135 


com esforço ótimo; isto é, a do resultado satisfatório 
com o mínimo esfôrço, o que constitui a realização 
de um ideal humano, conjugado com uma realidade 
material. Além disto na criação, em grandes pro¬ 
priedades, a ameaça da lei do rendimento não pro¬ 
porcional — (em que a cada maior esfôrço corres¬ 
ponde menor índice de resultado) — é longínqua 
ou não existente, porque a natureza, pouco sugada, 
se recompõe por si mesma; ao passo que, na agri¬ 
cultura, sobretudo na pequena propriedade, a terra 
se exaure e exige restauração, determinando por isto 
a ação da supra dita lei. Não se condene, portanto, 
o latifúndio, sobretudo quando entregue à pecuária, 
sem exame acurado do problema; nem se sustente 
que o Estado tem por precípua finalidade fomentar 
a quantidade com expressão do bem-comum, da fe¬ 
licidade geral; porque a sua precípua finalidade é 
essa felicidade infundida segundo os processos me¬ 
nos penosos da economia. Que importa a quantida¬ 
de para um povo desventurado? Sobretudo, o que 
acabamos de alegar em favor do latifúndio no Bra¬ 
sil acresce a consideração de que ninguém o pode 
definir, sendo uma realidade tão esfumada como a 
da luz e da sombra, no bruxolear de um crepúsculo; 
tão relativa e instável como a relação fugidia entre o 
território e a população. Um latifundiário do Rio 
Grande do Sul o será porventura no Mato Grosso 
ou no Amazonas? Conversando, certa vez com o pro¬ 
fessor Carlos Gide, convidou-me para ir ao Sul da 





136 


FELIX CONTREIRAS RODRIGUES 


França visitar o seu — grand domaine. — E que 
área tem o seu grand domaine? perguntei-lhe. 
Tem 100 hects., respondeu-me. Ora, é a área de 
um piquete para tropilha de serviço numa estância 
modesta, a qual, na França, aparece como gran¬ 
de propriedade. E não disse o ilustre professor que 
possuía um latifúndio, e sim um domínio, porque a 
sua enorme propriedade estava cultivada, como es¬ 
tão as fazendas de todo o Brasil, povoadas de gada- 
ria, de riqueza. E, se um trator é suficiente para 
efetuar numa propriedade maior obra produtiva do 
que cinqüenta lavradores, essa propriedade seria 
ainda e também um latifúndio? E neste caso, para 
negá-lo, se negará importância à quantidade da ri¬ 
queza, que é o pretexto para a campanha movida 
contra a grande propriedade? Na questão dêste pro¬ 
blema o lado principal não é do aspecto material; 
mas, sim» o do aspecto humano, visto através da re¬ 
partição dos proventos da riqueza e do grau de bem 
estar geral promovido por ela. 




IV 

A PROPRIEDADE E O ENSINAMENTO 
INTEGRALISTA 













D IZÍAMOS, no capítulo anterior, que os lati¬ 
fúndios do Brasil não são responsáveis pelos 
desacertos econômicos e sociais do momento, 
sobretudo encarados sob o ponto de vista da produ¬ 
ção comparada com a dos parvifúndios; porque a 
chave da questão social é a repartição dos proventos 
que deixa a produção e não a produção mesma. De¬ 
sorientados na barafunda dialética, os socialistas e 
comunistas acusam a produção e, por um efeito ló¬ 
gico, passam às próprias fontes de produção, que 
são as propriedades particulares, abalando assim a 
ordem social até os seus mais sólidos fundamentos 
— a propriedade, a família e a crença em Deus — 
intimamente conjugados os dois últimos com a ins¬ 
tituição da propriedade. A estabilidade da proprie¬ 
dade assegura ao homem a continuidade da produ¬ 
ção e a perpetuidade religiosa, como acontece tanto 
na família patriarcal como na particularista. Por 
esta razão, e para que tôdas as famílias possam ter, 
na medida do possível, uma propriedade imóvel, é 
que os integralistas, sem serem socialistas, consa¬ 
gram o partilhismo e a participação dos operários 
nos lucros da emprêsa. 

1 — Quanto ao partilhismo, vem certo, se refe¬ 
re à repartição de bens imóveis ou de fontes de pro- 


140 


FELIX CONTE EIRAS RODRIGUES 


dução, não porém, com a intenção de acréscimo de 
produtos, mas com a intenção de estabilidade da 
família, de perpetuidade religiosa; não visando 
quantidade, mas qualidade; não abundância pela 
abundância, mas o bem-estar pelo bem-eomum. 

E não se afirme que o Integralismo, para che¬ 
gar até lá, força situações atrabiliàriamente, sem o 
trabalho prévio de ensinar a Nação, sem convencê- 
-la, pela doutrinação, de que os seus ideais são os 
mais convenientes à Pátria. 

Cada família deverá possuir o seu homestead, 
sem que isto implique um sacudimento, uma rup¬ 
tura na continuidade que deve haver entre o passa¬ 
do e o presente. As mais sólidas revoluções são as 
que se apoiam nos alicerces da nacionalidade, já re¬ 
calcados pelos séculos no subsolo da Pátria. Para 
nós é uma questão de modos faciendi, sem ódio 
e sem pressa, o dotar as famílias brasileiras de pro¬ 
priedade imóvel para seu assento e estabilidade. 
Estamos certos de que, amadurecida a doutrina¬ 
ção, os frutos cairão no seio da nacionalidade sem 
que seja necessário sacudir seus galhos. Quão diver¬ 
sos são os processos socialistas, movidos pela pressa 
de que teme que se escape o momento oportuno e 
fugaz! Como há ódio entre os seus corifeus, lançam- 
-se contra os odiados latifundiários para arrebatar- 
-ihes suas propriedades, desrespeitando um direito, 
desprezando uma tradição, obscurecendo uma evo¬ 
lução natural, lógica e conveniente qual é a repar- 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


141 


tição (partilha) das propriedades entre os sucesso* 
res da geração seguinte. 

2 — Quanto à participação nos lucros, também, 
é um dos alevantados ideais integralistas — da in¬ 
corporação do proletariado à ordem moderna Nada 
mais justo do que interessar, pela partilha dos bene¬ 
fícios das indústrias, todos aqueles que colaboraram 
para a prosperidade delas. Como, porém, o proble¬ 
ma é ccmplexíssimo, o Integralismo não entra em 
pormenores, batendo-se pelo esclarecimento do 
assunto, pelo armistício da guerra de classes mo¬ 
vida pelos socialistas, e pela boa vontade dos ca¬ 
pitães da indústria, ainda enrijecida pelos processos 
egoistas até hoje vigorantes. 

Ao mesmo tempo cumpre uefinir o que seja 
cientifieameníe o lucro, cuja noção ainda é incerta 
nos tratados d’Eeonomia Política. Tudo, pois, nos 
induz a que não nos precipitemos na realização de 
nossos elevados ideais. Prosperar não consiste só 
em fazer o bem, mas também em não fazer o mal, 
embora provocado pela boa vontade, que venha 
anular todo o bem contido na melhor das inten¬ 
ções. 

Enfim, para chegarmos ao partilhismo e à par¬ 
ticipação nos lucros, uma conquista prévia é indis¬ 
pensável: — a da associação dos homens em tômo 
dos interesses materiais e imateriais, como meio de 
conhecê-los em seus pormenores e como conseqüên- 
cia do armistício da guerra de classes. 


pELIX CONTR EIRAS RODRIGUES 


142 


Depois dêsse armistício, se assentaria a paz so* 
ciai na associação das classes que hoje lutam entre 
si por ordem de Marx e de Moscou: depois da sabo¬ 
tagem e da boicotagem, com máscara de traição às 
operações de que brota o pão de cada operário, se 
implantaria a grande época da colaboração de todos 
para o mesmo fim, da cooperação para o bem-co¬ 
mum, onde repousa o bem-estar e a felicidade geral. 
Por trás do ruço do ódio está radiante o sol da bo¬ 
nança em um céu claro que permite ver a existên¬ 
cia mais risonha. Essa não será a pax-americana ou 
capitalística, nem a pax-russa ou comunista, mas, 
simplesmente, a pax-humana, em que os homens se 
associarão para a reconquista do Eden perdido. 

O Integralismo é o único movimento que apon¬ 
ta o caminho da paz. 





ROCHA VAZ 


ESTADO INTEGRAL E BIO-PSICOLOGIA 
INDIVIDUAL 




A organização político-científica integralista 
tem no seu programa: “dar ao homem ele¬ 
mentos para que êle realize as suas justas 
aspirações materiais, intelectuais e morais”. 

Vinculadas estão as aspirações materiais às 
duas outras, qualquer que seja a função do homem 
no Estado Integral, onde êle não é o que quer ser, 
mas o que pode ser, pois, só assim se tornará útil à 
coletividade e a si mesmo. 

Na execução desta parte do programa o Estado 
será o seu guia, o seu orientador e para isto é indis¬ 
pensável conhecer a quem vai guiar e orientar. 

Na construção dêste grandioso edifício social é 
condição imperativa o conhecimento do material, 
empregado, isto é, do homem nos diversos períodos 
da evolução biológica. 

A ciência da biologia da individualidade huma¬ 
na, com fundamento rigorosamente científico, for¬ 
necerá os dados para que hem se possam julgar os 
valores das capacidades individuais somático-psí¬ 
quicas . 

Perante Deus e as leis todos são iguais, mas, em 
face da biologia e da psicologia humana individual 
não há igualdade e sim “indivíduos dissemelhantes 
e desiguais, isto é, indivíduos ou grupos de indiví- 



ROCHA VAÜ 


146 

duos que diferem uns dos outros pela capacidade fí¬ 
sica, pela soma de valores musculares, intelectuais 
e morais, calculáveis, comerciais, utilisáveis na rea¬ 
lidade social, isto é, no mercado de valores huma¬ 
nos”, 

No Estado Integral êste mercado não pode ser 
invadido pelos que querem somente satisfazer am¬ 
bições, vaidades mal contidas. 

Cada indivíduo deve ocupar o seu justo posto 
de acôrdo com a sua capacidade somático-psíquica, 
e não como se faz na liberal-democracia, em que as 
aptidões são coladas aos indivíduos com a mesma 
facilidade com que se colam os números nos postes 
de iluminação e nas paredes dos edifícios. 

O Estado Integral analisa e seleciona os indiví¬ 
duos segundo as suas qualidades pessoais e consti¬ 
tucionais de temperamento e de tipo mental, de 
acôrdo com a bio-psicologia humana e social. 

O comunismo soviético, neste particular, lan¬ 
çou as suas idéias no Congresso internacional de 
Moscou, pela boca de Gartev: ‘‘qualquer trabalha¬ 
dor deve adaptar-se a qualquer genero de trabalho”. 

Não pode haver maior comunismo biológico, e 
por ser anti-natural já tem lavrada a sua sentença 
de morte. 

Dêste modo orientado, o comunismo soviético 
procura despertar em cada indivíduo energias la¬ 
tentes, utilisando a técnica de “estímulos especiais: 
salários e prêmios, de acôrdo com a habilidade de 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRÁLISMO 


Í47 


cada um, prêmio para os bons e castigos para os 
trabalhadores cativos”. 

A liberal-democracia seleciona, não os indiví¬ 
duos mas as forças que por êles se interessam: par¬ 
tidos políticos, amizades pessoais, servilismo, e, ex¬ 
cepcionalmente, aceita a fôrça da competência, 

A mentalidade dos dirigentes da nossa liberal- 
democracia não compreende a importância da reso¬ 
lução dêste problema na organização do Estado, e 
dos três ministros da Nova República só um — Gus¬ 
tavo Capanema — viu, imediatamente, o valor so¬ 
cial do estudo da individualidade humana, não ten¬ 
do poupado esforços para a sua realização. 

A cada passo vemos os malefícios da negligência 
dos governos e das organizações privadas no estudo 
da capacidade somático-psíquica nas organizações 
desportivas e escolares, na orientação do trabalho, 
na escolha dos militares, etc. 

A educação física, que tem por fim a harmonia 
do corpo e do espírito, não tem orientação científica. 
Somente a Escola de Educação Física Militar segue 
rumo certeiro; os demais centros não obedecem a 
indicações especiais para cada indivíduo ou grupo 
de indivíduos. i 

A determinação psíco-física de cada indivíduo é 
indispensável para que haja eficiência em sua edu¬ 
cação física. A escola italiana de Viola e de Pende, 
a mais rigorosamente científica, salienta que o nosso 


148 


ROCHA VA2 


motor muscular está em íntima relação com o motor 
intelectual e com o motor sentimental. 

A educação física não compreende somente os 
músculos, mas também a vontade, o sentimento e a 
inteligência; a educação é física-psíquico e o edu¬ 
cador deve conhecer a personalidade somático-física 
de cada um. 

Nas organizações escolares não se cuida da ex¬ 
ploração e do conhecimento da personalidade bioló¬ 
gica e psicológica da criança com o fim de dar-lhe 
uma educação racional e individual. Na capital da 
República a organização do ensino primário é ainda 
primitiva, muito embora se aplauda a orientação 
dada por um dos adeptos do credo de Moscou. 

Nas escolas, só se ocupam com a cultura da in¬ 
teligência e com a cultura do corpo e, isto mesmo, 
com grandes falhas e êrros; a cultura do caráter é 
posta à margem, porque os educadores desconhecem 
as qualidades do caráter que devem ser apreciadas 
e orientadas para boa utilização da inteligência. 

“Caráter e inteligência”, salienta Nicola Pende, 
“eis os dois motores da nossa vida quotidiana e os 
verdadeiros fatores do nosso Destino". 

Para Ribot, o caráter é o verdadeiro motor, a 
inteligência é a luz que ilumina o caminho que 
aquêle deve percorrer. 

É a escola que dará ao Estado Integral cida¬ 
dãos robustos, de vontade forte, com o espírito de 
ordem, de disciplina e, por assim ser, ela deve orien- 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


I4S 


tar-se em conhecimentos seguros de biologia e de 
psicologia individual. 

Criamos um Ministério do Trabalho para a 
propaganda do comunismo soviético e para incen¬ 
tivar a luta entre trabalhadores e empregadores. 
Ali se desconhece a organização científica do traba¬ 
lho, traçada luminosamente por Vidoni na proteção 
integral dos trabalhadores. 

A organização científica do trabalho não se li¬ 
mita mais, hoje, ao aperfeiçoamento da tecnologia, 
à racionalização da indústria e do comércio, à utili¬ 
zação do tempo e à compensação do trabalho. Eia 
é hoje mais complexa e se baseia nas pesquisas bio¬ 
lógicas, tecnológicas e sociológicas. 

A indústria moderna, diz Stande, não é mais a 
arte de fabricar; é uma atividade nova que não se 
orienta somente pela Física, pela Química, pela Tec¬ 
nologia, mas também pelas ciências, pela Pedagogia 
e pela Físio-Patologia. 

A orientação científica do trabalho não se sa¬ 
tisfaz mais com o Taylorismo, com Fayolismo e com 
o Scotismo. Antes de mais nada, o primeiro cuidado 
é o de proteger os trabalhadores: a) exigindo-se uma 
organização higiênica segundo as normas mais mo¬ 
dernas do ambiente do trabalho; b) conhecendo-se 
as atitudes físico-psíquicas e a capacidade ou defi¬ 
ciência produtiva individual para colocar os traba¬ 
lhadores em seu justo lugar; c) determinando-se as 
predisposições de fraqueza constitucional, que fa- 


150 


ROCHA VAZ 


vorecem os acidentes e os deveres do trabalho, com 
o fim de prevenir em tempo com os recursos da me¬ 
dicina e da terapêutica preventiva uns e outros; d) 
adquirindo-se possibilidades de resolver de modo 
mais equitativo e racional as questões médico-legais 
inherentes às doenças e aos acidentes do trabalho, 
baseando-se no conceito que, para uns e para outros, 
o médico perito pode hoje possuir preventivamente, 
mediante o exame constitucional, e o critério para 
avaliar, igualmente, o peso recíproco para os fins de 
indenização ou de prêmio das duas grandes catego¬ 
rias de acidentes ou de doenças, pelo seguro dos fa¬ 
tores externos ou acidentais e dos fatores internos 
ou constitucionais. 

A organização científica do trabalho sem o co¬ 
nhecimento do material humano será sempre uma 
obra mutilada e de escassa eficiência. 

O Estado Integral tem necessidade imprescin¬ 
dível de conhecer o fator — Homem — para que êste 
seja útil a si próprio e à coletividade. 


(In A Ofensiva, 19-6-1937) 



JOÃO CARLOS FAIRBANKS 

PORQUE INGRESSEI NO INTEGRALISMO 







1) — Auspiciei, quiçá de maneira inconsciente 

e penumbrosa, pela essência cio Integra- 
lismo, ignorando-lhe embora o nome e a 
forma pela qual êle viria a surgir no Bra¬ 
sil, como o jovem israelita, nascido em 
família dotada de Fé, teria, desde o berço, 
anhelado pela Terra Prometida, 

2) — O vácuo que senti, na infância, na ado¬ 

lescência, no início da maturidade, por 
princípio norteador de atividade moral 
— social — político, explica-se pelas con¬ 
dições de meio familiar, de meio econô¬ 
mico, de meio social, de meio político em 
que nasci, fui criado, vivi, até aos qua¬ 
renta anos, 

3) — Nascido em São Simão, no Bispado de Ri¬ 

beirão Preto, no Estado de São Paulo, m 
região servida pela Companhia Mogiana 
de Estradas de Ferro e Navegação, aos 
16 de agosto de 1891, portanto dois anos 
apenas após a proclamação da Repúbli¬ 
ca, e três em seguida à extinção da es¬ 
cravidão, aos meus olhos, desde o berço, 





154 


JOAO CARLOS FAIRBANK3 


foi proporcionado o êxtase ante à con¬ 
templação do surgimento dos famosos 
cafezais da região de Ribeirão Preto, cujo 
fastígio, em 1908, Enrico Ferri viria a 
proclamar como da transluzência do 
maior FENÔMENO ECONÔMICO do sé¬ 
culo XIX, fenômeno êsse mais expressi¬ 
vo, ainda segundo o precitado Ferri, que 
o dos Altos Fornos de Fittsburgh, cujo 
papel no desenvolvimento da siderurgia 
dos Estados Unidos ninguém ignora. 

4) — Se tal foi o esplendor do cenário econô¬ 
mico, que demorou a encantar-me a visão 
infantil e juvenil, outro não menos sun¬ 
tuoso, em sua beleza, viria a empolgar-me 
a alma: se a época do meu nascimento 
coincidiu com a da instauração consti¬ 
tucional do laicismo ateu, permitiu-me 
Deus a graça, excepcional para então, 
que me fôsse fácil haurir, no berço, a 
formação religiosa que nos negava a es¬ 
cola, pois foi-me dado nascer de pais ca¬ 
tólicos, êle, médico, por algum tempo 
agricultor e esporàdicamente político em 
São Simão, ela, professora, ambos — e 
graças a Deus que assim aconteceu — 
mui mais ricos de sentimentos morais e 
atenções a motivos culturais, que proví- 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


155 


dos ou preocupados com fundos bancᬠ
rios . Cedo, mui cedo, essa graça especial 
do Espírito Santo desceu a ferir meu co¬ 
nhecimento e intimamente fazia-me fe¬ 
liz, ao comparar-me a outros da mesma 
idade, riquíssimos maximé em relação à 
mediania econômica de nosso lar, nem 
por isso dotados, por outro lado, de maio¬ 
res atenções pelas elocubrações do espí¬ 
rito. 

5) — Bem menino passei a frequentar as Au¬ 

las de Catecismo dos Revmos. Padres 
Agostinianos de Ribeirão Preto, que para 
aquele florescentíssimo Município se ha¬ 
viam dirigido, refugiados das Filipinas, e 
finda a chamada guerra de Cuba, entre 
os Estados Unidos e a Espanha, em que 
esta, vencida, houve de ditas Filipinas 
entregar ao vencedor, assim e então sur¬ 
gido aquêle como potência militar. 

6) — O ambiente social era o da tranqüilidade 

que êste Estado de S. Paulo, madrugando 
para a Imigração, atraindo-a ainda mes¬ 
mo anteriormente à Abolição da Escra¬ 
vatura, parecia haver herdado do Impé¬ 
rio. Havia apenas duas classes sociais 
quantitativamente predominantes: a dos 

\ 



158 


JOAO CARLOS FAIRBANK3 


fazendeiros, sujeitos a certos revezes, ad¬ 
vindos das crises cíclicas do café que às 
vêzes os reduziam à condição de “colono” 
e a dos “colonos”, em geral italianos, que 
a ascencional social mobility, provocada 
pelo ciclo oposto da prosperity cafeeira, 
naturalmente promovia a fazendeiro, na 
subdivisão natural das terras, determi¬ 
nada pelo avanço sertão a dentro pelas 
locomotivas. Então, Bebedouro e Barre¬ 
tos eram “Sertões”. As atuais regiões da 
Alta Paulista, da Alta Sorocabana, da 
Noroeste e da Araraquarense eram, en¬ 
tão, designadas, nos mapas, entre êles no 
do magnífico levantamento do Rio Pa- 
ranapanema pelo capacíssimo Engenhei¬ 
ro Teodoro Sampaio, como desconheci¬ 
das e povoadas pelos selvícolas. 

7) — Se o ambiente social transluzia calmaria, 
equivalente a pasmaceira, o político, ao 
reverso, já sofria da sofreguidão e da in- 
tranqtiilidade, identificável a desequilí¬ 
brio, característico necessário de todo o 
regime republicano, embora menos acen¬ 
tuado no sistema presidencial que no 
parlamentar, por isso que a ausência do 
Chefe permanente do Estado, da Corôa 
enfim, impondo a ordem dos interesses 



ENCICLOPÉDIA DO INTEQRALISMO 


15 ? 


permanentes da Nação sobreposta ao 
mutável e efêmero interesse de camadas 
populacionais, posto que crismado de 
progresso, conduz tôda a eleição a ser o 
risco do “salto no escuro” para a Revolu¬ 
ção. .. 

— No entanto, a verdadeira Revolução fer¬ 
via latente na subjacêneia do ambiente 
social-econômico. Enquanto, politica¬ 
mente, a Revolução trazida pelo voto não 
passava da mudança do “coronel” A pelo 
"coronel” B nos cargos do Executivo e 
Legislativo Municipais, cada “coronel” 
com sua banda de música, seu jornaleco, 
seus apaniguados porfiando com a banda 
de música, o jornaleco, os apaniguados 
do grupo adverso — ambos os grupos fi¬ 
liados ao Partido Único — o velho PRP 
— à superfície e nas profundezas da ter¬ 
ra iam-se desgastando o humus e os sais 
minerais ferrosos, provindos da decom¬ 
posição da rocha diabásica e que colo¬ 
riam de roxo o chão, enquanto, simulta¬ 
neamente, as enxurradas não contidas 
por ainda inusitados sulcos de “curvas- 
de nível” iam erodindo a terra, modifi¬ 
cando-lhe anual e crescentemente o ín¬ 
dice de P. h., a terra cada vez menos 




Í5tí 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 

“doce” e mais “ácida”, as colheitas de 
café naturalmente descendo de 200 para 
100, para 80, para 50 arrobas por mil 
pés, e até para 20, quando sôbre o fidal¬ 
go arbusto ainda infletia a desventura 
da “geada-brava”. Não provinha, no 
entanto, e apenas da Natureza física a 
causa do empobrecimento. Vigiam, en¬ 
tão, como leis civis, as das Ordenações, 
modificadas e pervertidas pelo ânimo 
destrutivo do espírito revolucionário-re¬ 
publicano, aluidor do Altar, destruidor 
de Pátrias e Famílias e ânimo êsse exor¬ 
bitante do Código de Napoleão para to¬ 
dos os povos, imitadores de outros povos, 
como o brasileiro, somente não contami¬ 
nando aqueles, como os saxônicos e ger¬ 
mânicos, capazes de se dirigirem pela 
opinio necessitatis de suas tradições con¬ 
solidadas pelo estudo por suas próprias 
cabeças e não pelo do fruto de cabeças 
extranhas. De acordo com essa Legisla¬ 
ção, que intacta passou para o Código 
Civil de 1916, cada sucessão “causa-mor- 
tis”, através a obrigatória partilha, cons- 
titue verdadeira Revolução, de sorte que 
não há, nem poderá haver, Economia fa¬ 
miliar, que resista a dois ou três processos 
de Inventário. A Natureza doou “terra- 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRÁLISMO 


Í59 


roxa” riquíssima, não obstante inapta a 
resistir aos impactos duma Legislação 
contrária ao Direito Natural. E assim 
como a Morte susurra ao Pecado que o 
seguirá sempre que êle se faça guia, no 
verso incomparável de Milton “I shall 
not lag behind, nor err the way, thou 
lcading”, o colapso da riqueza territorial 
na região em que nasci, seguiu-se natu¬ 
ralmente ao Pecado da vigência duma 
Legislação anti-natural. Entretanto, co¬ 
mo na lei física da quéda dos corpos, a 
atração para o abismo não é apenas pro¬ 
porcional ao tempo, mas ao QUADRADO 
do tempo, — Vt gt2 — assim também 
um abismo clama por outro, e ao abismo 
do empobrecimento das melhores zonas 
cafeeiras de São Paulo seguiu-se o do 
pela fuga de capitais, nascidos do pé-de- 
café, mas desviados para a criação de in¬ 
dústrias artificiais, portanto também 
anti-naturais, no completo olvido ao en¬ 
sino de Joaquim Murtinho sôbre somen¬ 
te devermos fabricar aquilo que não pu¬ 
déssemos comprar barato. Preferíamos, 
até recentemente, fazer o contrário: fa¬ 
bricar caro, constrangendo-se o consu¬ 
midor, nas algemas de altas tarifas al- 




JOAO CARLOS FAIRBANKS 


fandegárias, a deixai" de comprar bara¬ 
to. .. 

À tranqüila cegueira político-eleitoral, 
que se omitia ante fenomenologias des¬ 
trutivas que tais, aplicar-se-ia, sem dú¬ 
vida, a indagação do guerreiro troiano, 
invectivando os companheiros que, de 
braços abertos, se apresentavam a re¬ 
ceber, do inimigo grego, o cavalo do en¬ 
godo: “quae tanta msania, eives”? Po¬ 
lítica suicida, que contempla, inerte, o 
empobrecimento gradativo da terra, a 
destruição gradativa da propriedade me¬ 
diante partilhas periódicas, a fuga gra¬ 
dativa de braços e capitais da finalidade 
natural, que seria a da recuperação do 
sólo, para a industrialização extempor⬠
nea de quinquilharias protegidas pela 
pauta aduaneira, não ofereceria encan¬ 
tos a espíritos realistas, como o que sem¬ 
pre procurei desenvolver em mim pró¬ 
prio. 

Nada, até ao surgimento, por Plínio 
Salgado, da S.E.P., em 1931, conseguiu 
entusiasmar-me. Na obra de Ruy Bar¬ 
bosa admirei Haya, o extraordinário Re¬ 
latório do Ministério da Fazenda em 1891, 
o insuperável discurso como candidato à 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


161 


Curul presidencial, pronunciado em 
Campinas em 1910, pelo qual me conven¬ 
ci que Ruy é injustamente atacado pre¬ 
cisamente na fase em que foi verdadeira¬ 
mente genial, isto é, na sua compreen¬ 
são tanto econômica (visando a criação 
de riquezas) como financeira (visando o 
fortalecimento da moeda, alicerçada era 
sadia economia). Até aí aplaudi o gigan¬ 
tesco Ruy, profeta das previsões exatas, 
que o futuro jamais deixou de confir¬ 
mar. Nunca, porém, pude compreender 
como, à inteligência tão aguda em per¬ 
ceber fenômenos de realidade objetiva, 
fôsse possível perder-se em subjetivismo 
de paixão, cólera e ambições incontidas 
— e isso dava certa razão a seu ilustre 
Tio, o Conselheiro Albino Barbosa de Oli¬ 
veira, quando o chamava ao bom senso: 
“Sr. Ruy, talento não é juizo”. Suas iras 
de apaixonado personalismo pecualiza- 
riam antes psicologia feminina, embora 
de deusa, que masculina, pois foi a se¬ 
melhantes iras personalíssimas de Venus 
que Enéas dirigiu a Critica do “tantanae 
animis coclestibus irae”. Incompreensí¬ 
vel que cérebro, pela elevação, havido 
como quase celeste, como queriam seus 
endeusadores, qual o do líder liberal da 




162 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


Primeira República se desmandasse na 
mesquinharia de campanhas anti-cava- 
lheirosas quais as que moveu não so¬ 
mente contra o Presidente, Marechal 
Hermes da Fonseca, mas até contra sua 
esposa e o pai desta, sogro do Presidente, 
o Almirante Barão de Teffé — autêntico 
herói do Paraguai e cientista de valor. 

11 ) — Ora, da Biblioteca paterna costumava eu, 
dentre outros clássicos, consultar Bacon 
(Essays) e nêle e no ensaio sôbre a am¬ 
bição, encontrei a satisfatória explicação 
sôbre o contraste que em Ruy observava 
— imensa elevação cerebral e moral, esta, 
porém, tisnada por incoercível incapaci¬ 
dade de ser generoso para com o adver¬ 
sário, contra o qual investia como se 
fôra inimigo. Eis a explicação de Bacon 
para o fenômeno, sem dúvida de usual 
reiteração: 

“So ambitious men, if they find 
the way open for their rising, and 
still get forward, they are rather 
busy than dangerous; but if they 
be checked in their desires, they 
become secretly discontent, and 
look upon men and matters with 
an evil eye, and are best pleased 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRAIJSMO 


163 


when things go backward”, e seu 
“evil eye”, pela ambição contra¬ 
riada, foi ao ponto de, sendo ainda neu¬ 
tro o Brasil, em 1916, na Conflagração 
Européia finda em 1918, êle, Ruy, Em¬ 
baixador do País em Missão Diplomáti¬ 
ca em Buenos Aires, pedir a declaração 
de guerra à Alemanha e à Áustria, fina¬ 
lidade que acabou conseguindo, apesar 
de, constitucionalista sapientíssimo, não 
poder ignorar que, pela Constituição 
por êle mesmo redigida em 1891, somen¬ 
te admitir-se-ia a declaração de guerra 
se esgotados os meios pacíficos, embora 
em caso de opressão que aliás não havia 
ocorrido. 

— Reconheça-se, a crédito de Ruy, que tal 
emotividade subjetivista não foi seu pri¬ 
vilégio político negativo, nem do seu 
chamado Civilismo. Foi — e em menor 
gráu, felizmente — continua sendo a 
constante da “política” brasileira, o que 
parece naturalmente lógico, pois se “po¬ 
lítica” foi considerada como a arte de 
comer, e dar de comer aos amigos — 
comidas ótimas e máximas em decurso 
mínimo de prazo — evidentemente o ad¬ 
versário deverá vir a ser recebido a coi- 






164 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


ces, como, nas báias das cocheiras, cos¬ 
tuma ser acolhida a alimária tardigra- 
da... Somente pela estupidez animales¬ 
ca se compreenderia as Revoluções ar¬ 
madas no Brasil — uma delas em 1904 
visando, confessamente, abolir a Vaci¬ 
na... e entronizar a Varíola... Apenas 
porque “Deus dirige os destinos do Mun¬ 
do” foi que calamidades que tais não 
ocorreram, E foi o dedo de Deus quem 
manteve, fóra do Poder, aquêles que, 
chamados de gênios administrativos 
porque nada jamais administraram, se 
porventura algo tivessem dirigido, bem 
mereceriam a ironia por Tácito dirigida 
a Galba: “omnium conscnsu, capax im- 
perii, nisi imperassçt”... Ruy Barbosa 
está excluído da crítica, porque profi¬ 
cientemente dirigiu a Pasta da Fazenda 
e se não encontrou continuadores, culpa 
não lhe cabe. 

13) — O farisaismo consistente em cada um 
enxergar virtudes apenas em si próprio 
e nos de seu grupo e somente vícios no 
próximo, a ninguém seduz. E daí a arte 
de criar subterfúgios e passar rasteiras 
gerada dêsse farisaismo, e acudindo ao 
nome de POLÍTICA não haver atraído 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALIS MO 


165 


aos de minha geração, senão aos hoje 
chamados de “carreiristas”, e êstes não 
eram os mais bem dotados, uma vez que 
José Bonifácio estava cheio de razões 
quando, admirando embora as mano¬ 
bras do Marquês de Barbacena, não dei¬ 
xava de invectivar-lh’as: “Se V. Excia. 
tivesse meus talentos, não teria suas 
manhas”. Ora, os moços de minha ge¬ 
ração, mui mais que os da velhice de 
José Bonifácio, vivendo no esplendor da 
Eletricidade e dos milagres da Química, 
especialmente da Química do Carbono, 
a chamada Química Orgânica, especia¬ 
líssimamente nós católicos, portanto 
crentes no Providencialismo e na sujei¬ 
ção de tôdas as criaturas ao Criador, 
embora não duvidássemos da parte ma¬ 
temática das leis de Malthus, tínhamos 
confiança na intervenção corretora pela 
Santíssima Trindade na parte em que 
sobreditas leis prenunciam catástrofes 
irremediáveis. Mandando, porém, a pru¬ 
dência não abusar do Poder Providen¬ 
cial — seria zombar d’Êle — a Política 
pela qual auspiciávamos era aquela, 
possibilitando o surgimento duma Eco¬ 
nomia Política cuja finalidade terrena 
fôsse a prevista por Adam Smith na mo- 



166 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


numental obra: “to enrich bcth the yco¬ 
pie and the Sovereign” — equivalendo 
isso a dizer que somente nos interessa¬ 
ria a Política que permitisse o cresci¬ 
mento da RENDIBILIDADE como DI¬ 
VIDENDO a ser repartido entre o Povo 
e a Soberania, esta associada ao Povo 
enriquecido pelo auferimento da justa 
e razoável imposição tributária. Já ha¬ 
víamos também lido, embevecidos, a Re- 
rum Novarum e todos estávamos con¬ 
victos, nas primeiras décadas do século 
XX, que o DISTRIBUTIVISMO, mar¬ 
chando ao compasso da JUSTIÇA DIS¬ 
TRIBUTIVA — isto é, da sociedade vi¬ 
sando o indivíduo totius ad partem, 
como pretende a luminosa Encíclica e 
como previu Santo Tomaz —, viria a 
ressoar, ao meio e ao final do século, 
como o Tratado de Paz Social. 

14) — Aquilo que, como Política, então se nos 
apresentava à contemplação, não pas¬ 
sando de simples esporte eleitoral, nem 
fazia acrescer o DIVIDENDO DA REN- 
BILIDADE, nem incentivava menos im¬ 
perfeito DISTRIBUTIVISMO dos redi¬ 
tos auferidos pelos fatores da Produção. 
Já acentuamos que o povo empobrecia 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


167 


e que a Nação não prosperava; economi¬ 
camente, as terras se esgotavam preco¬ 
cemente, e financeiramente, a unidade 
monetária, o mil réis, que pouco se de¬ 
preciara durante a própria guerra con¬ 
tra o Paraguai e que, ao ocaso do Impé¬ 
rio, valia 28 pence, portanto acima da 
paridade legal (27 pences por mil réis), 
o esterlino valendo 8S888 descera à taxa 
dos seis, com o esterlino a valer quaTen- 
ta mil réis, taxa que foi a da Caixa de 
Estabilização de Washington Luiz, res¬ 
surreição da Caixa de Conversão nau¬ 
fragada no vendaval da primeira guerra, 
e cuja paridade era a da libra esterlina a 
cotar-se a quinze mil réis. Quanto ao 
DISTRIBUTIVISMO, que porventura vi¬ 
sasse criar mais elevado NÍVEL DE 
VIDA, o eleitoralismo político com êle 
em nada se preocupava. Possuíamos, na 
verdade, filantropos que de suas fortu¬ 
nas particulares espargiam o benefício; 
e assim tivemos um Francisco Schmidt, 
um Jorge Street na indústria, um Conde 
José Vicente de Azevedo, repartindo en¬ 
tre obras assistenciais e culturais, boa 
percentagem de suas áreas no Ipiranga, 
os Zucchi, do Hotel d’Oeste, criando o 
Bispado de Lins, D. Veridiana Prado 


168 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


erigindo a Santa Casa, seguida do Co¬ 
mendador Bricola, o Conde Álvares Pen¬ 
teado doando importantes somas à pri¬ 
meira Escola de Comércio de São Paulo, 
que passou a usar de seus apelidos. Ca¬ 
sos isolados, andorinhas únicas que não 
fariam verão, mas refletiam, como cau¬ 
sas, os benéficos efeitos a que conduzi¬ 
riam, seus efeitos, se generalizados. 

15) —• Não obstante essas e outras vozes isola¬ 
das que tais, a crise de autoridade en- 
tumescia. A humildade cristã, aquela mo¬ 
déstia que São Paulo preconizava na 
Carta aos Gaiatas, era desautorada pelo 
orgulho dos néos-nietzichianos da polí¬ 
tica eleitoral. Borges de Medeiros, repe¬ 
tindo Augusto Comte, quando êste in¬ 
conscientemente refletia cristianismo, 
em vão pregava lá do Sul: “a submissão 
é a base do aperfeiçoamento”, ninguém 
querendo compreender insubsistir me¬ 
lhor emprêgo do livre arbítrio que na vo¬ 
luntária submissão a Autoridade para 
que esta fôsse possível impor a ordem 
como “recta ratio rerurn ad finem” as¬ 
sim vindo a descortinar a finalidade de 
sólido progresso. Os que, embora mili¬ 
tares, quando negavam a Autoridade, 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


169 


como aconteceu pela boca dos canhões 
de Copacabana, exsurgiam impunes e 
alvos daquela diabólica e insensata ad¬ 
miração que o Dr. Fausto não escondera 
sentir por Satanaz, travestido de Mefis- 
tófeles, quando se lhe anunciou como 
ESPÍRITO DE NEGAÇÃO: “ich bin der 
Geist der stets verneist” — “eu sou o es¬ 
pírito que sempre NEGA” — o que nega 
a soberania absoluta de Deus e a rela¬ 
tiva de Cesar, e portanto estultamente 
pensa atingir ao Progresso semeando a 
Desordem. 

— Manifestação evidente da Desordem ge¬ 
neralizada em numerosos espíritos foi 
a acolhida que começou a receber, aí por 
1925 e 1926 (maximé entre os glorifica- 
dores dos “heróis” do Forte) a idéia da 
concessão do sufrágio universal, secreto 
e obrigatório a um povo, como o nosso, 
onde os adultos analfabetos atingiam 
então 80% da população e somente não 
atingiriam 99,9% porquanto indevida¬ 
mente se computavam como “letrados” 
aqueles que, aptos a subscrever, tam¬ 
bém “liam”... mas “liam” o que, senão 
notícias de esportes, revistas picarescas, 
etc. ? O sufrágio indireto, mesmo exten- 




JOÃO CARLOS FA1RBANKS 


dendo-se aos analfabetos o voto em pri¬ 
meiro gráu, isto é, para a escolha dos 
eleitores em segundo gráu, seria um co¬ 
meço de Ordem: como sempre, a Desor¬ 
dem foi preferida e o regime eleitoral 
passou a ser o que comtemplamos... e 
que somente os cégos de espírito não 
previriam. 

Amigos dos mais nobres e afeiçoados — 
Veiga Miranda, em cujas lições fui ini¬ 
ciado em Matemática, Ataliba Leonel, 
que tanto porfiou para que eu viesse a 
aceitar a Prefeitura de Santo Anastácio 
— especialmente o último, considera¬ 
vam-me, pelo conservantismo, verdadei¬ 
ro apóstolo do velho P.R.P., Mas acei¬ 
tando embora a amizade dêsses e dou¬ 
tros insignes “perrepistas”, entre os 
quais como mais próximos, o esclareci¬ 
do Senador Alfredo Ellis, os dois Ver¬ 
gueiros — o saudosíssimo Cesar Ver¬ 
gueiro de Lorena e mais distanciada- 
mente, os dois Prestes — Fernando e 
Júlio Prestes — sempre julguei insatis¬ 
fatória a programação do antigo Partido 
Republicano Paulista, embora creditan¬ 
do-lhe o reconhecimento de que, presi¬ 
dencialista, ainda assim sendo êle arrimo 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGKALISMO 


171 


não despiciendo contra o resvalamento 
para a total Desordem, de que o Parla¬ 
mentarismo é causa eficiente. 

18) — Percebendo que a éra política a alvores- 

cer seria a da Democracia Orgânica, a 
edificar-se sôbre os escombros da Demo¬ 
cracia Liberal, convicção minha era a 
de que somente duas correntes de orien¬ 
tação políticas enxergariam a luz do fi¬ 
nal do século: a do Comunismo com sua 
capacidade mefistofélica para NEGAR e 
outra que diametralmente viesse a opor- 
-se-lhe na AFIRMAÇAO de princípios de 
Direito Natural e até sôbre-Natural: os 
princípios de Deus, da Família (gerando 
Municípios, gerando Pátrias) do Traba¬ 
lho — o Capital, a Propriedade e a Em- 
prêza, etc.. 

19) — Lembro-me certa feita que, indo levar 

o Veiga Miranda, em começos de 1931, 
artigo sôbre a restauração dum Senado 
vitalício, para ser publicado na sua re¬ 
vista “O Comentário” e conversando 
com o querido Mestre sôbre as opostas 
diretrizes da AFIRMAÇÃO e da NEGA- 
ÇAO dêsses princípios, haver-lhe eu de¬ 
monstrado, no execelente livro de J. B. 




172 


JOAO CARLOS FAUtBANKS 


Dumas, Leçons de Philosophie Chimique, 
os dois contrastes espirituais — o de 
afirmação e o de negação — vivendo em 
duas mentalidades geniais — a de La- 
voisier e a de Priestley, ambos tendo de 
comum o terem sido, coincidentemente, 
os primeiros isoladores do Oxigênio. 
Priestley — tão esquerdista que chegou 
a festejar, em Londres, em 1791, a Revo¬ 
lução Francesa, e por isso teve a casa 
incendiada pela ira popular, e Lavoisier 
tão “direitista” que mereceu a honra de 
ser guilhotinado porque a Democracia 
(isto é, a “deles”, a liberal), não precisa¬ 
va de sábios. Priestley foi o autor de 
maiores descobertas, mas Lavoisier re¬ 
trucava-lhe: “somente descobris valiosos 
detalhes, mas eu desvendei a Química 
INTEGRAL, portanto TÔDA a Química, 
quando demonstrei que nada se cria, 
nada se perde, tudo se transforma”. De 
fato, tudo quanto possa desde então vir 
a ser descoberto, é pormenor, é corolᬠ
rio, da descoberta genialíssima e genera- 
líssima de Lavoisier e daí ser êle consi¬ 
derado, como o adverte J. B. Dumas 
"... o homem mais completo, o maior 
homem, que a França produziu no setor 
científico”. O “integralista” também é 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


173 


o que vê antes o conjunto, antes a mᬠ
quina que o parafuso, antes, o homem 
ou a planta que a célula microscópica. 

— Êsse princípio geral, INTEGRAL, nortea- 
dor da formação de nacionalidades, a 
nós, abridores dos sertões da Alta Soro- 
cabana e da Alta Paulista, atores e es¬ 
pectadores do surgimento de Presidente 
Prudente, de Santo Anastácio, de Ma- 
rília, etc. já se nos havia manifestado 
patente nas páginas de O Estrangeiro, de 
Plínio Salgado, em 1926. Meu cunhado, 
Alexandre Belfort de Matos, então En¬ 
genheiro da 9. 8 Residência da Soroca- 
bana (Séde em Presidente Prudente) 
trouxe de viagem de inspeção com a Di¬ 
retoria da ferrovia, o primeiro exemplar, 
adquirido talvez em Botucatú ou Avaré 
— e de um trago foi êle lido pelo nosso 
grupo: o Revmo. Padre Dr. J. M. Mar- 
tinez Sarrion, a cuja memória de bene¬ 
mérito Presidente Prudente já levantou 
monumento, por meu cunhado, por mi¬ 
nha irmã Olga, esposa daquele, e por 
mim. Essa leitura foi a fonte da pré-his¬ 
tória do Integralismo em Presidente 
Prudente e na Alta Sorocabana, onde o 
Juvencio nasceu em 1926 e todos nós, 






174 


JOÃO CARLOS FAIRBANKS 


com o entusiástico aplauso de Monse¬ 
nhor Sarrion, renascemos de “camisa 
verde” em 1932. 

21) — A monumental concepção política de 

Plínio Salgado, pela certeza matemática 
de seus princípios tão bem apercebida 
foi pelo povo que, logo na primeira elei¬ 
ção municipal, em seguida às revoluções 
de 1930 e 1932, o Prefeito eleito de Presi¬ 
dente Prudente assumia o posto reves¬ 
tido de “camisa-verde” na pessoa do 
honrado e digno compenheiro Bento 
Fontão Lippel, chefe da estação local da 
E. F. Sorocabana. 

22) — Pelo descrito, vê-se que movimentos po¬ 

líticos, simplesmente eleitoreiros, como 
os até então, jamais poderiam atrair-me 
e, embora e em homenagem à Ordem e 
ao princípio da Autonomia dos Estados 
houvesse prestado, quando estudante, al¬ 
guma e apagada colaboração ao antigo 
Partido Republicano Paulista, por oca¬ 
sião das ameaças da intervenção federal 
em São Paulo (quatriênio Hermes da 
Fonseca), não ingressei nas respectivas 
fileiras, contra as quais meu bondoso e 
saudoso Pai mantinha severas restrições, 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


175 


advindas das tropelias por aquêle Parti¬ 
do praticadas contra o Partido Munici- 
palista de São Paulo, chefiado nesta Ca¬ 
pital pelo venerando Dr. Domingos Ja- 
guaribe e ao qual a Câmara Municipal 
de São Simão, presidida por meu citado 
Pai, aderiu em pêso e chegou mesmo à, 
em obediência ao respectivo programa, 
oficialmente convocar, a 22 de maio de 
1896, o l.° Congresso do Município de 
São Paulo. 

— Por um lado, se social e administrativa¬ 
mente falando, o cenário da vida pública 
do Brasil, se mostrou brilhantíssimo na 
primeira década dêste século — entre 
1901 e 1906 Santos Dumont equacionou 
e resolveu o problema do dirigível mais 
pesado que o ar, entre 1904 e 1907, Os- 
waldo Cruz eliminou a febre amarela, 
Passos e Frontin reformaram o Rio de 
Janeiro, Antonio Prado, seguido de Pires 
do Rio esboçou a linha do magnífico pro¬ 
gresso da cidade de S. Paulo, Carlos Bo¬ 
telho imprimiu sentido científico às pes¬ 
quisas da Secretaria da Agricultura de S. 
Paulo, Alfredo Maia e Joaquim Huet 
Bacelar fizeram a Sorocabana avançar 
por zonas até então ignotas, por onde 




170 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


hoje se planteiam cidades magníficas, 
como a de Presidente Prudente, Jorge 
Tibiriça sugeriu o Convênio Cafeeiro de 
Taubaté, cuja certeza no delinhamento 
arrancou a entusiástica admiração de 
economistas europeus, como Charles 
Gide, Ruy Barbosa e Rio Branco impu¬ 
seram ao Mundo a opinião jurídica do 
Brasil na Conferência de Haia, Pádua 
Sales e Rodolfo Miranda criaram o Mi¬ 
nistério da Agricultura, subordinado ao 
qual foi possível ao General Rondon des¬ 
cobrir o Território da Rondônia, — por 
outro lado, as denúncias que se lhe se¬ 
guiram foram as da chatice dos pânta¬ 
nos da baixa politicagem, das paixões 
exarcebadas ccmo a que levou Pinheiro 
Machado ao túmulo, de revoluções sem 
programa e sem sentido, como a do 
Forte de Copacabana, o ingresso e a 
quase expulsão da Liga das Nações 
em 1926, a intervenção em guerras euro¬ 
péias, das quais o Brasil só retirou vitó¬ 
rias de Pirro, pois da primeira delas 
trouxe a gripe espanhola e da segunda 
auxiliou Stalin a expraiar o Comunismo 
pela Europa, tudo isso, além de panta¬ 
noso, constituiu como alguém bem fri¬ 
zou, verdadeiro “deserto de homens e de 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


17? 


idéias”. Enojado do pântano, não aderi 
ao deserto e apenas aguardei pelo oásis 
e pelas suas águas cristalinas. 

24) — Uma e outra — o oásis e as águas cris¬ 

talinas — vim a encontrá-los afinal, em 
1931, na caravana conduzida por Plínio 
Salgado, donde surgira, sucessivamente, 
a S.E.P. (Sociedade de Estudos Políti¬ 
cos) e a Ação Integralista Brasileira, 
ambas filiando a ação política dos ho¬ 
mens e dos povos ao providencialismo 
de Deus e a pesquisa científica dos ho¬ 
mens, pois a ciência é também um~3õih 
do Espírito Santo... 

25) — Eis o depoimento de um dos homens da 

geração anterior a 1932. Daí para cá, os 
acontecimentos já cairam na percepção 
dos jovens. Para bem interpretá-los e 
corrigí-los nos respectivos efeitos sociais 
e políticos, a fértil imaginação de Plínio 
Salgado criou os “Águias Brancas”. Ao 
velho cabe apenas incitar os jovens: 
quem não quiser figurar como Urubú e 
assim naturalmente almejando o cadᬠ
ver da Nação, procure ser “Aguia Bran¬ 
ca”, procurando conduzí-la aos páramos 


178 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


da estratosfera e da ionosfera, por sôbre 
os quais a tranqüila e sedativa luz dos 
raios cósmicos possa advertí-los: sic itur 
ad Astra. 

São Paulo, 19 de Novembro de 1957 
— (Dia da Bandeira) — João Carlos 
Fairbanks. 


II 

QUE É INTEGRALISMO ? 











M matemática, define-se a INTEGRAL, como 
a soma de um número infinitamente grande 
^ de parcelas, sendo cada parcela infinitamen¬ 
te pequena. Por ANALOGIA, dir-se-ia que o ele¬ 
fante ou a figueira brava seria, cada um, a inte¬ 
gral de células animais ou vegetais. Cada célula é 
pequeníssima; somadas as células em avultadissimo 
número, dão o colosso do elefante ou da figueira. 
O oceano seria a integral de moléculas de água; o 
deserto do Saára, a integral de grãos de areia. 

Pois bem, o Estado deve ser o oceano, o elefante 
ou a figueira do exemplo; deve ser a soma de tôdas 
as células operosas do organismo social. Sem ne¬ 
nhuma esquecer. O Estado é a integral dessas cé¬ 
lulas. Cada pequeno lavrador é uma célula, e seu 
conjunto constitui o galho da federação agrícola 
integral do Estado. Cada operário, cada industrial, 
cada artífice idem, idem. Dai a formação dos sin¬ 
dicatos, que são integrais parciais de classe para a 
integralização social comum. 

* 

• • 

Se integral significa soma. total, PARTIDO 
significa parcela, parte, fragmento. Assim, no or- 



182 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


ganismo do elefante, se êste, o organismo, é total, 
as células, os membros, são partes, são parciais. 
Daí, já se deduz a impossibilidade do Estado-par- 
cela, do Estado-partido, que faliu no mundo inteiro. 
O Estado há de ser TOTAL, integral, cada célula 
produzindo para a totalidade social, e a totalidade 
social vigiando o bem-estar de cada célula, como a 
parábola bíblica do Bom Pastor: estão abrigadas as 
99 ovelhas? Pois vamos cuidar de abrigar a centé¬ 
sima tresmalhada. 

E é coerente com o que se observa na Natureza. 
Meu corpo — a integral de infinitas células — goza 
de saúde; de repente, pequenas células de um dente 
enfermam, a ramificação do nervo respectivo fica 
descoberta. A dôr transmite-se ao cérebro. Todo o 
imenso rebanho corporal de células sofreu, porque 
algumas sofreram. Vou ao dentista, isto é, vou pro¬ 
curar atender às necessidades das poucas ovelhas 
tresmalhadas das células dentárias. Curo-me, todo 
o rebanho celular corporal sente-se bem. Porque 
nosso organismo não segue a política do Estado 
partidário, o conjunto celular do corpo não dirá às 
células doentes: nós estamos bem, vocês se arru¬ 
mem. .. 

O mal dos partidos é êste: cada um olha para 
o seu interêsse, para a organização de sua disciplina 
interna. Como vivem em luta entre si, são fôrças 
que se subtraem e, portanto, não podem constituir 
o Estado, como soma das aspirações gerais. 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


183 


Essa impressão eu a trago da adolescência: em 
1907, ao concluir preparatórios, assisti em São Paulo 
às conferências do sr. Paulo Doumer, depois Pre¬ 
sidente da França, que causaram grande sensação 
naquela época. Meu bom pai, com o carinho que 
sempre dispensou a sã leitura dos filhos, pôs-nos 
nas mãos a obra daquele estadista, Le livre de mes 
fils, (O livro de meus filhos), no qual insigne pa¬ 
triota — aliás chefe de partido — solicitava dos 
descendentes cuidarem mais das necessidades na¬ 
cionais que das partidárias, profligando a generali¬ 
dade ocorrente no sentido oposto. 

Meus olhos de quinze anos aprenderam, então, 
sob pasmo, que, contràriamente ao que estudáva¬ 
mos em educação cívica, os homens políticos cuida¬ 
vam sempre muito mais dos seus partidos do que do 
interesse comum. Porque, acima de tudo, eram 
PARCIAIS, viam parcialmente as necessidades pú¬ 
blicas, sob o ângulo particular do mesquinho inte¬ 
resse de partido. 

* 

* * 


Não é assim na Natureza: nosso aparelho di¬ 
gestivo é o único a comer; mas, pela TOTALIDADE, 
pelo INTEGRALIDADE de nosso organismo, espa¬ 
lha o benefício do alimento pelos vasos quilíferos. 

Se o aparelho digestivo não fôsse INTEGRA¬ 
LISTA, se seguisse a política PARCIAL ou PARTI- 



184 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


DARIA, diria aos vasos quilíferos: "vocês não fun¬ 
cionem; nós já comemos, o resto que se amole”. 

E aconteceria o que aconteceu aos Estados for¬ 
mados de partidos; cada um comería esquecido do 
total. O total pereceria e com êle as partidos egoís¬ 
tas. Ora, se o aparelho digestivo egoisticamente não 
permitisse que o cérebro, o coração, os membros, 
recebessem o benefício do alimento, o corpo todo 
— a integral geral — morrería e com êle o órgão 
assim tornado egoísta. O acessório segue sempre o 
principal... 

Também os rins filtram os líquidos, separando 
impurezas que intoxicariam todo o organismo. Se 
os rins íôssem políticos partidários, fariam essa 
purificação no interêsse próprio. Resultado: todo 
o corpo se envenenaria e, no seu perecimento mor¬ 
reriam também os rins, 

O mesmo raciocínio se aplicaria aos vegetais: 
se as raizes, depois de alimentadas, seguissem o par¬ 
tidarismo, impediriam a seiva elaborada de subir 
pelo tronco. Pois se o interêsse parcial delas estava 
satisfeito, que lhes importaria o interêsse integral 
da árvore? 

Donde se deduz que a natureza segue o INTE- 
GRALISMO, não o PARTIDARISMO. E que o Es¬ 
tado integral é conforme a Natureza, e o Estado 
partidário a ela se opõe pela simples razão que o 
Integralismo dentro da REALIDADE NATURAL 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


185 


considera a PARTE NO TODO, e NAO O TODO NA 
PARTE, no que afinal consiste o absurdo da con¬ 
cepção partidária. 


II 

Salientáramos que Integralismo se opõe a par¬ 
tidarismo, como a idéia de soma se antagoniza à de 
parcela. 

Partidarismo é sistema de govêmo em que o 
interesse parcial de um grupo se antepõe ao inte¬ 
resse geral da Nação. 

Integralismo é o sistema oposto: nenhum in- 
terêsse, NADA acima do interêsse da Nação. 

Esta Nação é integralmente concebida como a 
federação dos municípios; os municípios como a 
federação das corporações profissionais ou culturais 
e, portanto, representado a totalidade das famílias 
municipais, por isso os respectivos pais e mães, in¬ 
cumbidos de sustentá-las, já se acham representa¬ 
dos nos sindicatos de seus ofícios ou classes labo¬ 
riosas. 

Se uma Câmara Municipal vier abranger ama¬ 
nhã representantes de tôdas as atividades locais — 
lavoura, comércio, indústria, patrões, empregados, 
classes intelectuais — tal Câmara representará tô¬ 
das as famílias do município, porque será consti¬ 
tuída pelos elementos ativos que dão de comer, de 
vestir e educação a tôdas as famílias e a tôdas as 









180 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


pessoas de cada família. Será uma Câmara inte¬ 
gralista. 

Se, pelo contrário, a Câmara vier a ser com¬ 
posta de elementos mèramente partidários, nada 
representará de real, de concreto, de objetivo. Ape¬ 
nas votará impostos para custear propagandas 
partidárias, como o ensina a velha experiência. 

E tôdas as famílias e cada uma de suas pessoas 
serão sacrificadas em taxações, para continuar sem 
escolas, sem água, sem esgotos, sem sargetas. etc. 

Nesse sentido é que deve fixar-se a revolução 
social. Não há mais lugar nem para revoluções po¬ 
líticas, nem para prevalecimento de partidos, nem 
para o Estado liberal-individualista. 

Ruy Barbosa, retornando ao Senado em 1921, 
previu a época dessa transformação e do conse- 
qüente desaparecimento dos partidos se não se dis¬ 
ciplinassem no sentido do bem público. 

Eis suas palavras; 

“Por enquanto, sr. Presidente, as revoluções 
eram políticas, tinham praias que as circundavam 
e lhes punham raias visíveis. Depois que se fizeram 
sociais, e sociais são hoje tôdas, tôdas beiram nesse 
mar tenebroso, cujo torvo mistério assombra de 
ameaças as plagas do mundo contemporâneo”. 

Ruy Barbosa, o maior gigante do Estado libe¬ 
ral, e dos seus partidos componentes, rezou, assim, o 
de profundis da era político-partidária. 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


187 


A éra que surge da revolução social-mundial, 
contém as ameaças do comunismo — o Estado sem 
Deus, sem Pátria, sem Família. Mas, trás, também, 
o Integralismo: O Estado em nome de Deus, para 
a Pátria, pela Família, as necessidades materiais 
desta atendidas nas reivindicações profissionais de 
seus respectivos chefes. 










* 






í. 















III 

A ESTATÍSTICA E O INTEGRALISMO 






C OMPLETANDO a definição do ilustre Prof. 
Luiz Mendonça Junior, nosso antecessor na 
19. a Cadeira da Escola Politécnica de São 
Paulo, definimos a estatística como sendo “o proces¬ 
so do método indutivo aplicado aos fenômenos ATͬ 
PICOS e COLETIVOS e suas respectivas correlações 
numéricas”. Pelo jornal a RAZÃO que o esclarecido 
Deputado Loureiro Junior geria em S. Paulo, em ar¬ 
tigo “É a História uma Ciência”? fizemos ver que a 
História, apenas, registra fenômenos atípicos e cole¬ 
tivos mas não os aprecia na sua frequência, nem na 
intensidade de sua atuação, nem nas respectivas 
correlações numéricas. A História registra que nos 
anos de 1902, 1918, 1921, 1942 e 1953 ocorreram da¬ 
nosas geadas nos cafezais do Sul do Brasil. O fato 
histórico exaure-se aqui. Mas, a História silencia 
sôbre a “freqüência” do fenômeno geada, como so¬ 
bre a intensidade, ou sôbre as relações numéricas, 
isto é, não dirá qual a geada mais intensa, nem que 
correlação terá havido entre a intensidade das gea¬ 
das e a alta conseqüente do preço do café nos mer¬ 
cados mundiais. Acresce que, duas delas — a de 
1918 e 1942 — foram contemporâneas das maiores 
guerras, e portanto quando o café já excasseava nos 
centros consumidores. A História não sumariza as 



192 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


correlações entre êsses fatos, ao menos na intensi¬ 
dade numérica dos gráus do fenômeno, 

A História é simples auxiliar da Estatística. 
Ora, se a Estatística não chega a ser ciência, por 
falta de objeto próprio, menos ainda a História, 
simples máquina registradora de fatos, embora uti¬ 
líssimos, a ponto de Cícero havê-la qualificado de 
“mestra vitae”, “lux veritatis” etc. Poincaré. na 
Science et Hypothése faz ver que sem a considera¬ 
ção da “freqüência estatística”, o registro histórico 
torna-se inútil. É inútil saber que operação fêz ou 
deixou de fazer um comandante — Poincaré no¬ 
meia João Sem Terra. É preciso indagar, estatisti¬ 
camente se aquelas operações, repetidas “freqüen- 
temente”, em “grande número”, que vantagens ou 
desvantagens trariam e sua correlação com outras 
circunstâncias. Ora, chama-se INTEGRALISMO 
aquela teoria segundo a qual os problemas adminis¬ 
trativos e políticos são apreciados em conjunto e 
na respectiva correlação de suas intensidades e fre¬ 
qüência. O grande sábio A’^xis Carrel (L’Homme, 
cet Fnconnu) aplica êss r princípio ao organismo 
humano. É excusado, d.z êle, confiar o doente a um 
sapientíssimo especialista em moléstia do coração, 
pois que se tal especialista não souber de medicina 
em geral (ou integral) o doente, não obstante com 
o coração curadíssimo, morrerá do fígado, ou dos 
rins, ou da bexiga. Isso quer dizer que, antes de 
apelar para o “especial” (especialista) devemos 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


193 


atender ao geral, pois ensinavam os lógicos que a 
parte (o coração) está no todo, mas o todo (o orga¬ 
nismo inteiro) não está na parte. 

O Estado Anti-Integralista ou parcial ensina 
o contrário: “governar é abrir rodovias”. O Inte¬ 
gralista examinará em tal sentença as correlações 
estatísticas: quantas rodovias? provocando a impor¬ 
tação de quantos automóveis? êstes gastando quan¬ 
tos milhões de divisas? e quantas toneladas de gaso¬ 
lina? estas custando quanto em dólares? o conjunto 
rodovia — automóvel — gasolina quanto custará 
orçamentàriamente? será êsse conjunto apto a fi¬ 
xar populações, formando cidades, como costuma¬ 
vam fazer as ferrovias? que prejuízo a concorrência 
da nascente rodovia poderá acarretar ao capital 
fixo das velhas ferrovias? Nada dêsse aspecto de 
interações estatísticas indaga o anti-integralista; 
se for médico, irá generalisando casos particulares, 
como se o geral se contivesse no particular, e irá 
aconselhando: “só se alimente de leite” — até que 
alguns pacientes cheguem a fabricar queijo no es¬ 
tômago; “viva só de coalhada”. “Arranque todos 
os dentes, se não quiser ter úlceras no estomago”. 
“Extraiam todas as amígdalas”. — Como se a na¬ 
tureza houvesse criado órgãos inúteis. Tudo isso 
para, tempos depois, as revistas médicas, onde tais 
conselhos haviam surgido desacompanhados de 
correlações estatísticas, darem marcha-à-ré e come¬ 
çarem a desaconselhar: “o leite nem a todos faz 




194 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


bem”. “Muitos organismos não suportam a coalha¬ 
da”. “Se as amígdalas fossem inúteis, a natureza 
não as teria criado”. “Em vez de extrair seus den¬ 
tes, conserve-os com cuidado, etc”. 

Que resposta dará o já desdentado, o já desa- 
migdalado a tais tardios conselhos? O de mandar 
o médico estudar Estatística, isto é, examinar o fe¬ 
nômeno das moléstias como ATÍPICOS e de difícil 
generalização coletiva e portanto exigindo, para a 
generalização, observações em grandíssimo número. 
No método indutivo, a pressa em generalizar con¬ 
duz a êrro. 

No plano político, administrativo, econômico, 
social, não faltam “médicos” das moléstias dos res¬ 
pectivos setores que generalizem: “a época é da 
indústria, a da lavoura está superada”. E lá vai 
São Paulo se transformando em maior centro in¬ 
dustrial à custa do exodo rural, pois outro apressa¬ 
do generalizador já havia concluído que “impatrió- 
tica é tôda a imigração externa” sem notar que a 
correlação seria, como está sendo, o despovoamento 
do Nordeste. Montando-se, porém, milhares de in¬ 
dústrias, sem qualquer atenção ao conseqüente des¬ 
povoamento das roças, nem ao fato de que, cada ro¬ 
ceiro que vem para a fábrica citadina são dois bra¬ 
ços a menos para plantar e boca a mais para con¬ 
sumir alimentos, um dia todos se espantam com os 
problemas — que previram — da alta do custo do 
feijão e do arroz na cidade, da falta de habitação, de 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 195 

bondes, de ônibus, pois a cidade de São Paulo, com 
o aumento de mais de um milhão de habitantes 
entre 1940 e 1950, evidentemente teria de encontrar 
déficit em tudo isso e — o que é mais doloroso — o 
deifcit em energia elétrica, sem cuja correção as 
indústrias deverão paralizar-se. 

Ora, o “pai” da Estatística, aplicada aos fenô¬ 
menos sociais, lá pelo começo do século 18, foi o 
Professor Achenwall, que resumia a Estatística den¬ 
tro de perfeita conceituaçâo da atual teoria do In- 
tegralismo, pois que dizia êle ser a Estatística a dis¬ 
ciplina que considerava as “vires unites agunt”, ou 
seja, “como agem as forças unidas”, e portanto, in¬ 
tegradas umas às outras, não dispersas. Integradas 
ou integralizadas quer dizer: quem propõe rodo¬ 
vias, deve ter estudado sua correlação a gastos com 
automóveis, gasolina, etc. Quem propaga que a era 
da lavoura passou, e agora tudo é indústria, deve 
correlativa e inicialmente indicar como e onde a 
pari-passu se construiriam as centrais elétricas pro¬ 
duzindo os milhões de quilovates necessários ao in¬ 
cremento industrial reclamado. 

Poeta inglês, que muito apreciamos na juven¬ 
tude, ensinava, porém: “where ignorance is bliss, it 
is folly to be wise”: “onde a ignorância é alegria, é 
asneira ser-se sábio” (no sentido de prudente, avi¬ 
sado) . Parece que é verdade: apanhamos, como tou¬ 
ro em tourada, porque em 1939, escrevendo a tese 
para concurso, Geopolítica Povoadora, sem negar 



196 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


que à Indústria coubesse o papel de elevar o padrão 
de vida, e que à lavoura caberia a criação da riqueza- 
base, e daí a divisa: “ex-rure, Pátria”. Fomos decla¬ 
rados inimigos da indústria, quando, pela definição 
de Achenwall, se considerarmos as forças “unidas” 
dentro do mercado interno da nação, somente uma 
lavoura próspera terá poder aquisitivo para criar 
uma indústria também próspera. 

Ninguém aprende, porém, com Achenwall, e 
daí ninguém perceber que, pretender governar sem 
Estatística ou sob “integração de fôrças” é o mesmo 
que querer governar sem bússola... 

Em São Paulo, êsse absurdo é a regra. Pro¬ 
longam-se as ferrovias para o interior e ao final 
fundam-se cidades da noite para o dia. Para essas 
cidades afluem jovens casais entre 25 e 30 anos de 
idade anualmente, procriando em 80% dos casos. 
Ao fim de sete anos, enorme é a população infantil 
e só daí em diante é que os administradores anti- 
integralistas, portanto alheios à Estatística, levam a 
mão à cabeça e exclamam: “precisamos escolas... 
governar é abrir escolas (não é mais abrir rodovias, 
apenas é escolas)... cada escola que se abre é ca¬ 
deia que se fecha..No entanto urgiria somente, 
desde o dia da fundação da cidade, ir somando os 
nascimentos registrados em cartório, dar-lhe des¬ 
conto razoável pelas prematuras mortes ou mudan¬ 
ças para, no sexto ano de fundação, ficar concluída 
a escola, com número de classes em relação ao pro- 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


197 


vável de alunos, e assim o de professores, de acomo¬ 
dação para hospedagem dos professores, tanto 
quanto o número correlato de bancas, carteiras, 
quadro-negro, pátios de recreio, etc. 

É assim que se compreende a administração no 
Estado-Integralista, que significa não o Estado-to- 
talitário, mas o Estado atendido na integral idade 
das suas necessidades, compreendidas como a ne¬ 
cessidade geral do Estado. Essa compreensão do 
Estado há de ser teista e monoteista, pois à maneira 
da Escola de Pitagoras, compreende Deus como uni¬ 
dade, criando o homem à sua semelhança, uno em 
essência, mas vário nos seus acidentes. A sociedade 
humana gera na sua organização jurídica, o Estado 
semelhante ao homem — uno na essência soberana 
e variado na autonomia das várias formas aciden¬ 
tais. 

Daí, no organismo estatal, nada haver de iso¬ 
lado, tal qual como no organismo humano, onde 
tôdas as sensações “integram-se” no cérebro, uno 
para todo o sistema nervoso. 





IV 

A IMPOSSIBILIDADE MATEMÁTICA DO 
SUFRÁGIO UNIVERSAL DIRETO 

















P INGÁVAMOS o ponto final no último artigo, 
a ESTATÍSTICA E O INTEGRALISMO, fa¬ 
zendo ver que assim como não se navega 
sem bússola, no cômputo da ação das forças unidas 
(“vires unitae agunt”) assim também não se com¬ 
batem efeitos isolados, mas a conexão das causas 
aos efeitos, quando deparamos pelo “Correio Paulis¬ 
tano” de 16-10-53, entrevista do sr. Almirante 
Penna Botto, advertindo contra várias causas efi¬ 
cientes do comunismo, verdadeiros “caldos-de-cultu- 
ra”, eliminados os quais o comunismo não medra¬ 
ria: “Sublata causa. .Ora, a nosso obscuro sentir 
uma dessas causas provém da confusão e a confu¬ 
são, no setor político, advinda do SUFRÁGIO UNI¬ 
VERSAL DIRETO, consoante se encontra em nossa 
Constituição Federal, artigo 134. 

Vejamos como e porque. 

Os que propugnam pelo sufrágio universal DI¬ 
RETO — os simplesmente alfabetizados podem e 
devem votar e podem para todos os cargos ser vo¬ 
tados — entendem que não faz mal eleger inúmeros 
ignorantes em Direito, desde que um jurisconsulto 
como Ruy Barbosa POSSA vir a ser eleito, ou que, 
como o notável Engenheiro da Sorocabana ou da 
Central PODE vir a ser eleito, não faz mal que inú- 





202 


JOÃO CARLOS FAIRBANKS 


meros graxeiros da Soroeabana ou da Central pos¬ 
sam vir, nas Câmaras, se assentarem a seu lado. 

Êsse pensamento encerra DOIS êrros: I) um 
êrro psicológico, pois pelo princípio da atração dos 
semelhantes, as massas preferirão eleger indivíduos 
do seu nível, não excepcionais. II) outro êrro já 
do domínio da Estatística Matemática, que vamos 
tentar expôr, uma vez que os de "boa fé”, que de¬ 
fendem o sistema do sufrágio universal DIRETO 
acreditam possam ser extraídas “medidas" entre os 
extremos: entre Ruy Barbosa e seus oficiais de Jus¬ 
tiça ou entre engenheiros e graxeiros ou entre mé¬ 
dicos e varredores dos hospitais. Ou entre profes¬ 
sores e bedeis da Universidade. 

Ora, é princípio de Estatística Matemática que 
é IMPOSSÍVEL encontrar nexo nas “médias” dos 
extremos, pois que elas não teriam sentido ou se¬ 
riam ilusórias. Entre os extremos haverá posições 
medianas, nunca "médias” dignas de crédito. 

Com efeito: três são as principais médias em¬ 
pregados pela Estatística: I) a aritmética: II) a 
geométrica: III) a harmônica. Suponhamos dois 
valores extremos "a” e "b” — digamos a fortuna 
do bilionário Conde Matarazzo e do mendigo cujo 
valor é ZERO. As três médias teriam por fórmulas: 

I) “média aritmética”: a + b — 2 . Entre o bi¬ 
lhão de Matarazzo e o “zero” do mendigo, a "média” 
exprimindo-se em 500.000.000, conduziria à con¬ 
clusão de que todos nós os que não somos nem 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


203 


Matarazzo nem mendigos, simplesmente porque 
“intermédios” aos dois, seríamos todos scmi-bilio- 
nários, pois a média exprimiria a inverdade de que 
possuiríamos todos quinhentos milhões de cruzeiros. 
Ora, imagine-se Ruy Barbosa — bi-milionário de 
saber — sentado na Câmara ao lado de semi-anal¬ 
fabetos de saber igual a zero: ficariam êles semi- 
biolionários intelectuais simplesmente porque sen¬ 
tados ao lado de Ruy? Está claro que não. Como o 
mendigo não se fêz milionário, só por haver-se en¬ 
costado ao palacete de Matarazzo. 

II) A “média geométrica” exprimir-se-ia pela 
íórmula: raiz quadrada de “a” vêzes “b”. Como b 
é igual a zero, a raiz quadrada do produto seria 
igual a zero, e assim exprimiria que analfabetos se¬ 
riam todos os que não fôssem Ruy Barbosa ou men¬ 
digos quantos não fôssem Matarazzo. Seria a se¬ 
gunda inverdade. 

III) A “média harmônica” obedece a fórmula 
2 ab — a + b. Como “b”, fortuna do mendigo ou 
saber do graxeiro é pràticamente zero, o numerador 
se igualaria a zero e a média assim tomada exprimi¬ 
ria, pela terceira vez, uma inverdade, pois estaria 
repetindo, como no caso supra, que todos nós que 
não somos bilionários em luzes como Ruy ou bilio- 
nários em cruzeiros, como Matarazzo, seríamos 
analfabetos no primeiro caso ou mendigos, no se¬ 
gundo , 


204 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


O sufrágio universal direto baseia-se na falsi¬ 
dade matemática de possuírem expressão digna de 
crédito as médias extraídas entre os extremos com 
sentido lógico. Os apologistas do sufrágio DIRETO 
pelos alfabetizados afirmam ser êsse o processo de¬ 
mocrático. Entretanto, êsses mesmos indivíduos, 
costumando defenir a Democracia como govêrno da 
maioria, olvidam-se de que contendo o Brasil mais 
de 60% de analfabetos, limitar o direito de votar 
aos alfabetizados é agir anti democraticamente; 
porquanto somente a minoria alfabetizada pode 
votar. 

Caindo na asneira de acreditar, que quantos 
bradam “município, município” sejam na realidade 
“municipalistas” e não simples farsantes do “muni- 
cipalismo” ao 3.° Congresso Estadual de Municípios 
realizado em Catanduva em 1951, propusemos que 
as eleições se fizessem em dois turnos, cujo processo, 
ora melhorado, hoje, assim apresenta-nos: I) voto 
obrigatório direto do eleitor, ainda que analfabeto, 
para escolher o “votam e” ou eleitor do segundo 
gráu, na razão de cem eleitores do primeiro gráu 
elegendo um “votante” ou eleitor do segundo gráu. 
Êsse eleitor do segundo gráu ou votante represen¬ 
taria a “nata” de cada Município como Feijó em 
relação a Itu e os Andradas a Santos. Assim, Plínio 
Salgado “votante” em São Bento do Sapucaí, Con- 
treiras Rodrigues em Pelotas, Metzler em Nova 
Hamburgo, René Pena Chaves em Campinas, Jorge 






ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


20Ê 


Lacerda em Florianópolis, Damiano Guio em Bebe¬ 
douro, Mario Cabral Junior em Baurú, etc. etc. re- 
cipròcamente brilhariam pelos Municípios e os ía- 
riam brilhar pelas suas personalidades. E assim, os 
Municípios ficariam mais prestigiados pela quali¬ 
dade dos “votantes” que pela quantidade dos elei¬ 
tores. Pela lei da semelhança, tais “votantes” não 
iriam votar em aventureiros... 

Para que alguém fôsse eleito para qualquer 
cargo, urgiria aquela condição, exigida para Minis¬ 
tro do Supremo Tribunal, ou seja, “reputação ili¬ 
bada e saber notável”, (Constituição Federal e Ar¬ 
tigo 99), entretanto a notabilidade do saber seria 
apreciável em relação ao meio. 

Essa divisão em “dois gráus” está perfeitamen¬ 
te de acordo com o que se ensina em Psicologia so¬ 
bre o conhecimento — no caso, “conhecimento polí¬ 
tico” das questões do Município, Província e País. 

Ensina-se em Psicologia que o conhecimento 
que podemos ter das causas subordina-se a dois 
gráus, I) quoad omnes (a altura de todos), II) 
quoad sapientes tantum — apenas à altura dos téc¬ 
nicos ou peritos ou sábios. Exemplos: todos nós, in¬ 
clusive analfabetos, podemos ser testemunhas du¬ 
ma morte provocada ou não. Portanto, a morte em 
si é fenômeno do conhecimento a altura de todos, 
“quoad omnes”. No entanto, somente o perito mé¬ 
dico dirá qual a “causa -mortis”, porque saber a cau¬ 
sa da morte exige conhecimentos “quoad sapientes 


206 


JOÃO CARLOS FAIRBANKS 


jtantum”, somente à altura dos dotados de técnica. 
Todos os analfabetos sabem que a terra agrária 
deve ser adubada: com que elementos e em que do¬ 
sagem cada um, só os dotados de técnica podem 
dizer com visos de credibilidade. 

Da mesma maneira, sabemos todos — os anal¬ 
fabetos mais broncos e os doutores mais conspícuos 
— que é melhor ser o Município, ou a Província ou 
o País bem governado, que mal dirigido. Êsse co¬ 
nhecimento é do primeiro gráu, é “quoad omnes”. 
Como bem governar, só certos iluminados o saberão 
e êstes são os tais “quoad sapientes tantum”, os 
peritos em política e administração. 

O primeiro dêsses conhecimentos deve ser o dos 
candidatos que devam merecer os votos. O analfa¬ 
beto não sabe ler e o apenas alfabetizado não dis¬ 
cerne sôbre quais os homens que devam enviar a 
um Congresso Nacional, Congresso êsse incumbido 
de fixar o pêso, o tipo, o padrão da moeda, de de¬ 
clarar a guerra ou fazer a paz. O apenas alfabe¬ 
tizado vai perguntar ao “só vigário”, o “sô dotô” ou 
o “sô coroné” em quem deverá votar. Já não so¬ 
mente seu voto deixa assim de ser “secreto”, como 
deixa de ser “direto”, pois vai dado mediante a in¬ 
fluência “indireta” dum conselheiro, o vigário, o 
doutor, o coronel... 

Ora, Município há, como o de Presidente Pru¬ 
dente, com 30.000 eleitores onde “conselheiros” que 
tais são menos de 300. Logo, fixando o número de 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


207 


eleitores cio segundo gráu na razão de um para 
eem, a apuração, a contagem de votos fica simpli¬ 
ficada. E as Câmaras eleitas por elites relativas, 
exprimirão certa uniformidade, sendo então possí¬ 
vel (como na Câmara dos Comuns) tirar-se a “mé¬ 
dia” prevalecente. 

Por outro lado, o rude eleitor também conhe¬ 
cerá e enumerará os homens mais honrados, mais 
capazes, mais idôneos de seu Distrito ou Município, 
porque êsse conhecimento ainda é “quoad omnes” . 
Mas, não pode conhecer os homens mais sábios, 
mais idôneos do País, porque êsse conhecimento já 
é pericial, para os peritos em acompanhar os mo¬ 
vimentos políticos e administrativos do País. 

A eleição das Câmaras e do Executivo por elei¬ 
torado de censo alto eliminaria a confusão ora rei¬ 
nante e permitiria Plenários mas sábios e idôneos. 
Em resumo, ordenaria os trabalhos legislativos e 
eliminaria fontes de confusão, tão do saber comu¬ 
nista. E seria mais democrática, porque o analfa¬ 
beto — às vêzes sensato e naturalmente esclarecido, 
como foi Carlos Magno — não seria posto à mar¬ 
gem do alistamento, como o é pelo artigo 132 da 
Constituição, êle analfabeto, que às vêzes tantos 
tributos paga, de bom grado, à Nação... E até tri¬ 
buto de sangue, nas guerras... 







V 

O CHEFE LOCAL 







ADA mais grato, ao homem comum, que cons¬ 



tatar sua maneira de pensar coincidente à 


d- ^ dos grandes vultos. Lembro-me que, lendo, 
na adolescência, o De Amicitia de Cícero e no Ham- 
let o conselho do fino psicologo que era Polonia a 
seu filho Laerte, sobre dever-se prender à alma, com 
aros de aço, os amigos cuja adoção se haja feito, 
fiquei satisfeitíssimo em constatar a identidade de 
meu sentir com o de tão altos pensadores. 

Muito antes de ter tido o prazer do conheci¬ 
mento de Plínio Salgado, portanto a-priori de seu 
conhecimento, nós já coincidíamos no ponto de vista 
infra, que transcrevo do seu magnífico artigo“Como 
aprendi a ser brasileiro” (A MARCHA, número 12, 
página 13), inver-verbis: 

“Foi o critério, o bom senso, a ciarividade dos 
chefes locais, chamados “coronéis” e alcunhados 
“caciques” pelos jejunos em sociologia, que tornou 
possível a seleção dos valores que honraram as As¬ 
sembléias Regionais e o Parlamento Nacional”. 

Em 1931, Plínio Salgado desenvolveu êsse 
mesmo tema, brilhantemente, pela “A Razão”. E 
eu, obscuramente, pela “Folha da Manhã”, jornais 
ambos de São Paulo, criticando o Código Eleitoral 
surgido em 1932, nêle notei o vício redibitório da 






212 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


postergação do “prestígio” e da “autoridade” de 
fato do “chefe local”. Pueril foi o desiderato 
dos redatores daquele Código. Presumiam êles 
que enfraquecendo o chefe-local-municipal, esta¬ 
riam fortalecendo o chefe estadual ou o federal. Vi¬ 
são tão errônea como seria a da supressão dos vigᬠ
rios nas Paróquias para fortalecer o prestígio dos 
Papas. O prestígio dos modestos vigários de paro¬ 
quia, dos Párocos, é a própria raiz da arvore gigan¬ 
tesca do papado. Decepadas as raizes, a árvore vem 
abaixo, como razão natural. E como a do papado 
não pode vir a cair, pela assistência do Espírito 
Santo, segue-se que a causa segunda de sua perma¬ 
nência perene sombreando por todo o globo está nas 
longínquas e humildes radicelas ou vigários locais. 

Todo o êrro do processo da eleição direta (em 
que o caboclo isolado no sertão, apenas alfabetizado, 
deve votar em Presidente, Governador, Senador, 
Deputados), no já por si absurdíssimo sufrágio uni¬ 
versal reside nisso: obriga o eleitorado a votar em 
longínquos e ignorados “papas”, à revelia da inter¬ 
mediação dos seus conhecidíssimos “vigários” lo¬ 
cais, os “eoronelões" antigos. Resultado: o dinheiro 
há de vencer por fôrça. O eleitor da roça, nos seus 
limitados horizontes rurícolas, quando no “cubí¬ 
culo” indevassável, não sabendo, em consciência, a 
quem preferir para Governador ou Senador — se a 
A ou B — fica tão atônito como o burro de Buridan 
entre o feixe de capim e o balde dágua. Como rom- 






ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


21 ? 


per a indecisão entre as para êle abstratas e indife¬ 
rentes divindades de Mercúrio ou Júpiter, senão 
por um valor, que mais alto se alevante, como dizia 
o Camões, e que no caso é representado por uma 
pelega de uns cem cruzeiros? Com a eleição indire¬ 
ta, o eleitor do primeiro gráu, ao invés de votar em 
ignatos deuses do olimpo das capitais, votaria no 
doutor Quinzinho, no Chico da Farmácia, no Mane- 
co do Cartório, amigos do “coronel” Janjão — o 
“chefe” que aos nomeados inclui na lista, para elei¬ 
tores de segundo gráu. Essa relativa elite local dos 
Quinzinhos, Chicos, Manecos, homens de relativo sa¬ 
ber, sempre reciprocamente assessorando e sendo 
assessorados pelo “coronel”, como eleitores do segun¬ 
do gráu, escolheria os Deputados, Senadores, Go¬ 
vernadores, Presidentes, etc... 

Sistema naturalíssimo — porque ninguém 
pode decidir acima daquilo que conhece. Sistema 
mais democrático, porquanto como eleitores do pri¬ 
meiro gráu, até os analfabetos — aliás, homens 
como os outros — não ficariam inibidos de votar. 
Sim, porque há muito analfabeto sensato. Quem 
não ouviu dizer que Carlos Magno só aprendeu a 
ler aos cinqüenta anos? De qualquer forma, o anal¬ 
fabeto paga impostos. Como excluí-lo do direito de 
votar, isto é, da maneira de intervir para que a 
quantia com que contribuiu para o Erário seja bem 
empregada? 


214 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


Voltemos, porém, à indecisão do homem sim¬ 
ples e mal informado da raça, entre ter de votar em 
Mercúrio ou Júpiter, longínquas divindades para êle 
ignotas. O suborno nasceu timidamente, para ven¬ 
cer a indecisão, mediante modestas pelegas de cem 
cruzeiros. Como, porém, todo o comércio a varejo, 
desde que intensificado, cria o comércio “por ata¬ 
cado’o subôrno eleitoral hoje é “organizado” co¬ 
mo verdadeira “empresa”. Daqui a pouco, os “em¬ 
presários’ pagarão “impostos de renda”. A coisa se 
passa assim: Júpiter, se porventura já é Deputado, 
visando reeleger-se, consegue a votação de verbas 
para todos os clubes futebolísticos de sua região. 
Perfeita cortesia com o chapéu do Erário, mas se¬ 
menteira de votos a granei... Apoio não é depu¬ 
tado, nem ao menos tubarão. É apenas “caça-do- 
tes”. Acontece ressoar agradável, à vaidade da so¬ 
gra, ter um genro na Assembléia. “Gaste o que 
quizer, contanto que se eleja”, brada-lhe a velha. E 
o belo Apoio, fazendo cortesia com o chapéu da so¬ 
gra, começa por adquirir novo instrumental e novos 
fardamentos para as bandas de música regionais. 
Mercúrio não é sequer “genro” de ninguém, mas 
como vice-presidente do banco da capital, com fi¬ 
liais em muitos municípios, é-lhe fácil obter a “lis¬ 
ta” dos “enforcados” nas gavetas das agências. E 
lá vem a sugestão, macia como sussurro amoroso: 
sua letra será reformada, com pequeno juro se você 
obtjiver-tme, no dia da eleição, um caminhão de 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


215 


eleitores. Porque na roça a unidade coletiva de 
eleitores é o “caminhão” dêles. E assim como se 
diz “caminhão de milho” ou de lenha ou de estru¬ 
me, diz-se “caminhão de eleitores”. Não há dúvida 
que os três beneméritos filantropos, Júpiter do fu¬ 
tebol, Apoio das bandas de música, Mercúrio dos 
enforcados, serão votadíssimos em regiões onde não 
chegam seguer a ser desconhecidos, porque são ini- 
maginados... Eleitos democraticamente? Não, mas 
plutocràticamente, pela mão exclusiva do dinheiro. 
O “atacadismo” argentário do voto está crescendo, 
tubarônic amente, de pleito a pleito. Sem desem¬ 
bolsar um vintém, eu fui eleito vereador da Câmara 
de São Paulo em 9 de Novembro de 1947. Não pude 
sequer pensar em re-candidatar-me em 1951. O tu- 
baronato eleitoral já excedia, de muito, minhas pos¬ 
sibilidades. 

Ora, o CHEFE LOCAL, dirigindo pela autori¬ 
dade de fato, corrigia o absurdo. Em primeiro lu¬ 
gar, não existe apenas a autoridade de direito, mas 
também a de fato. No seu Direito Natural, explica 
Cepeda que a longa permanência dum indivíduo 
num local, com o sujeitá-lo à crítica dos circunvi¬ 
zinhos, acaba — se êle o merecer — por consagra¬ 
do. Pois bem: o prestígio do “Chefe local” vem ex¬ 
plícito na lição de Cepeda. Ora, nós tivemos “che¬ 
fes-locais” excelentes. Auto-didatas, alguns de “le¬ 
tras-gordas”, tinham, porém, uma intuição dos ne¬ 
gócios públicos provindo da experiência dos negó- 


216 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


cios particulares, de assombrar. A pi*ova de sua 
respectiva superioridade está em que, vindo muitos 
dêsses “coroneíões” a casar as filhas com “douto¬ 
res”, não somente a direção dos negócios particula¬ 
res, como a dos públicos, virava de pernas-para-o-ar 
assim que o genro, com suas “luzes”, procurava 
"corrigir” o “empirismo” do sogro... 

Na região da Mogiana, que foi a do meu berço, 
e na da Sorocabana, que foi a da expansão da mi¬ 
nha atividade profissional, conheci alguns “chefes 
locais” admiráveis. Em primeiro lugar, amavam o 
município e, para dêle não se retirarem, rejeitavam 
todos os cargos públicos estaduais ou federais. Tí¬ 
pico foi o caso do coronel Quinzinho Junqueira, de 
Ribeirão Preto, que jamais consentiu em aceitar 
cargo ou função fóra da região. Rejeitou, várias 
vêzes a vice-presidência do Estado de São Paulo e 
o cargo de Senador estadual. Francisco Sehmidt 
— alemão de nascimento, “rei do café” a presidente 
da Câmara de Ribeirão Preto, foi outro exemplo. 
Assinava apenas F. Sehmidt porque nunca apren¬ 
deu a desenhar “Francisco”. No entanto, sacrificou, 
vêzes não diminutas, a fortuna em benefício do mu¬ 
nicípio e da Região. Sua norma era de não fazer 
negócio em que a outra parte saisse perdendo, de¬ 
vendo ambas as partes sairem sem chorar, confor¬ 
me sua expressão. Certa feita, em sessão da Câma¬ 
ra, presidida por êle, veio a discussão um parecer da 
Comissão de Justiça, considerando prescrito o sa- 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


217 


lário — menos de duzentos mil réis — reclamado 
por um pedreiro. Schmidt desce da presidência, 
pede a palavra, e desculpando-se, como quase anal¬ 
fabeto, de pretender dar lições, reprovou o parecer. 
Prescrição — exclamou êle — não sei o que é, mas 
só pode ser meio de pacificação de conflitos e não 
de furtar salário por serviço prestado. Puxando 
pela carteira, pediu licença para de seu bolso pagar 
ao pedreiro, se o parecer da Comissão de Justiça 
fôsse aprovado. Que raro bom senso jurídico pos¬ 
suía aquele pseudo ignorante dos livros, mas sábio 
da experiência da vida... Ora, por que havemos de 
por de lado homens dêsse valor? Porque não cursa¬ 
ram universidades? No entanto, vivemos a aplaudir 
e a aclamar os “coronéis” do Exterior, às vêzes mais 
ignorantes que os nossos. Assim Henry Ford, rei 
dos automóveis como Schmidt do café, No entanto 
— admitindo embora que Ford como organizador 
do trabalho fôsse um genio — era menos culto que 
o nosso Schmidt. Harry Bennett foi secretário ou 
fac-totum de Ford durante 33 anos. Escreveu a res¬ 
peito um livrinho: We never calleâ him Henry, no 
qual, sem deixar de reconhecer-lhe as qualidades, 
assinala traços duma ignorância fóra do comum. 
Assim, durante anos, não obstante as provas em 
contrário no laboratório, pelo químico-chefe, Ford 
não admitia que se ingerissem cristais de açúcar (de 
beterraba) temendo que as pontas do cristal furas¬ 
sem o estomago. Um gênio prático ignorando a so- 


218 


JOAO CARLOS FAIRBANKS 


lubiliclade! Ford tinha superstições tão baixas, ao 
ponto que porventura tendo calçado pé-de-meia pe¬ 
la manhã, não o trocaria à tarde, embora havendo 
de comparecer a solenidade, porque “isso dava 
azar". 

Não conheci qualquer dos “coronelões” do Bra¬ 
sil a dentro que levasse a ignorância a tal ponto. 
No entanto, a guerra que lhe fizeram os homens 
da cidade foi imensa. Mas os resultados de seu de¬ 
saparecimento são evidentes e nefastos. Desapare¬ 
cido o “chefe-local", o município perdeu a expressão 
e o valor político. Júpiter e Mercúrio, de anel dou¬ 
toral ao dedo, ganham de longe as eleições pelo su¬ 
borno organizado. E o Interior não fica represen¬ 
tado nas Câmaras. Fica nelas completamente au¬ 
sente . Com razão, alegava-se que o título “coronel" 
por tácito consenso público aplicado ao “chefe-lo¬ 
cal" daria lugar a desprimorosa confusão com 
igual título de alta patente do Exército. É exato. 
Isso seria motivo para substituir o título por outro 
— comendador, cavalheiro, barão, etc... — nunca, 
porém, para acabar com a função do “chefe-local”. 
Prestando bem atenção à leitura da Bíblia, que te¬ 
riam sido os grandes líderes Moisés, Davi, Salomão 
senão insignes “chefes-locais” no iniciar de suas 
carreiras?... 

Tem, portanto, carradas de razão o grande Che¬ 
fe que é Plínio Salgado. Sem a ação criteriosa do 
chefe-local, de orientação e comando, estaremos le- 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


219 


vando às altas Câmaras do País semi-analfabetos 
endinheirados. Há uma função por Plínio Salgado 
assinalada — de coordenador de opiniões, de conse¬ 
lheiro oreientador das concentrações demográficas, 
dispersas pelo interior, num sentido de hierarquia 
vertical — que perdeu o órgão funcional — o Chefe 
local... 

Catastrófico será se a função, pelo desuso, vier 
a atrofiar-se. Urge restabelecer o órgão abolido, a 
não ser que prefiramos a formalidade abstrata à 
realidade. Então não haverá mais administração 
autonoma no Interior, mas predominará ali a oli¬ 
garquia, por correspondência, da burocracia cen¬ 
tralizada. 

Assim como a força centrífuga, com o ser de 
“oposição” à centrípeta, na realidade é sua conse¬ 
quência, assim também o centrifugismo municipa- 
lista com o parecer oposto ao centripetismo da so¬ 
berania central, é-lhe pelo contrário, a raiz susten- 
tadora. O “chefe-local”, em cada município, é a 
radicela formando a coifa da raiz alimentadora da 
soberania geral. 














JAIME R. PEREIRA 

LIBERALISMO, SOCIALISMO E 
INTEGRALISMO 




F ALA-SE por ai e ninguém mais fala isto do 
que os próprios liberais democratas, entre 
êles os homens do governo, que os integra¬ 
listas pretendem modificar o sistema de governo no 
país. Alguns confessam bem contra a seu gôsto que 
esta modificação pretendemos nós fazê-la por meios 
pacíficos, persuasórios. Outros, que constituem a 
maioria, asseveram, no entanto, que nós desejamos 
nos apossar violentamente do poder para implantar 
à fôrça, o regime integral. 

Há pouco mais de 3 anos (1) quando o nosso 
grande Chefe lançou a idéia integralista no Brasil, 
êle patrioticamente afirmou que esperava a vitória 
do Sigma após 10 anos de pregação cívica. Vê-se 
logo nesta manifestação, que a campanha integra¬ 
lista se processaria pacientemente durante uma 
longa jornada. Falamos constantemente, e é do 
nosso ritual mesmo terminar sempre as nossas 
reuniões exaltando com vibrantes anauês a Revo¬ 
lução Integralista. Aquêles que sinceramente aten¬ 
tarem para as nossas atitudes e as nossas palavras, 
verão que a revolução por nós apregoada é uma re¬ 
volução de idéias e de consciência, por isso que mar¬ 
camos um praso de 10 anos para nossa vitória final; 
por isso que já publicamos mais de uma trintena de 



224 


JAIME R. PEREIRA 


livros doutrinários; por isso que realizamos cursos 
universitários; por isso que nos empenhamos em 
campanhas sociais levando aos desherdados da for¬ 
tuna o auxilio moral, espiritual e material de que 
precisam; por isso que estudamos noites a fio os pro¬ 
blemas e as necessidades do nosso povo; por isso 
que auscultamos diretamente os anseios e os desejos 
de nossas classes produtoras; por isso que conside¬ 
ramos as angústias e as torturas dos que sofrem; 
por isso finalmente, que procuramos as soluções 
definitivas para as nossas necessidades. E tudo isso 
o fazemos, nós integralistas e só nós, sem cuidar 
si estamos ou não às vésperas de uma eleição. Cru¬ 
zando os sertões distantes, percorrendo o litoral 
imenso em verdadeiras bandeiras de alta significa¬ 
ção cívica, sem atentar para o desconforto e can- 
ceiras das jornadas, pois não será sem sofrimento 
que havemos de construir a grande Nação; sem 
cuidar dos meios de transporte, pois que todos êles 
nos são propícios desde que nos levem à meta dese¬ 
jada; sem pensar no sucesso imediato das nossas 
pregações, porque mais dia menos dia elas calarão 
na consciência dos nossos patrícios; sem imaginar 
os perigos que por tôda a parte nos rodeiam, porque 
em tôda a parte encontramos sempre os inimigos 
do Brasil, nós temos marchados e nós marcharemos 
inflexivelmente, através de tôdas as vicissitudes e 
de todos os obstáculos, com a mesma fé ardente de 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALI8MO 


225 


ontem e a mesma fôrça de hoje, porque sabemos 
que conosco marcham a honra e a dignidade da 
Nação. 

* sjt 

Vêde a nossa trajetória. Por entre as risadas 
beócias de uns e a indiferença doentia de outros, 
fazem três anos, iniciamos o nosso movimento. Ao 
lado do Chefe Nacional tiveram a suprema ventura 
de marchar pelas ruas de São Paulo algumas deze¬ 
nas de companheiros, estudantes e operários, acor¬ 
dados desde logo pela palavra eloqüete e incisiva de 
Plínio Salgado e desde logo voltados para o futuro 
do Brasil. Foi êste punhado de brasileiros que for¬ 
mou a pequenina lagôa de água cristalina e pura 
de onde saiu o minúsculo filete a correr a princípio 
meio assustado por entre os escolhos da indiferença 
e os cascalhos do impatriotismo. Mas êsse filete, 
esbarrando aqui e acolá, ora mais rápida e ora mais 
lentamente, foi-se aos poucos avolumando e foi cor¬ 
rendo e é hoje essa caudal imensa em que desaguam 
todas as consciências honestas do Brasil. Ainda 
ontem erámos algumas dezenas e somos já hoje 
para mais de 800 mil! 

Que fôrça misteriosa é essa que fêz deflagrar 
essa centelha na consciência adormecida da Pátria? 
Que fôrça misteriosa é essa que fêz deslocar essa 
avalanche de homens, todos norteados pelo mesmo 


22G 


JAIME R. PEREIRA 


magnetismo e para o mesmo ideal? Que fôrça mis¬ 
teriosa é essa que inundou de luz todo o panorama 
ensombreado do Brasil? Essa fôrça foi o ideal de 
um liomem sincero que, estribado nas suas convic¬ 
ções e no seu patriotismo, resolveu um dia salvar o 
país. “Despertemos a Nação”, disse êle. E a Nação, 
ao sopro mágico do seu verho candente, de sua ação 
e da humildade dos seus sentimentos, da sua inte¬ 
ligência e da sua cultura, do seu acendrado amor 
à sua pátria, à sua família e ao seu Deus; essa Pᬠ
tria que é tôda nossa porque aqui nascemos ou aqui 
vivemos, essa família que é a nossa própria família 
e esse Deus que é o supremo guia da nacionalidade, 
a Nação resolveu despertar. E ela aqui está na ex¬ 
pressão do nosso movimento e do nosso entusiasmo. 
Ela aqui está na afirmação da nossa doutrina, na 
sohranceiria das nossas atitudes definidas e defini¬ 
tivas . Eia aqui está na coesão do nosso movimento, 
no sentido claro das nossas palavras, na elevada sig¬ 
nificação das nossas idéias, no verde das nossas ca¬ 
misas a refletirem a imensidão das nossas florestas 
e a côr esmeraldina das nossas jazidas. Ela aqui 
está no pensamento comum de todos os nossos com¬ 
panheiros, na obediência às leis do país, na intran¬ 
sigência da nossa campanha, no ardor do nosso pa¬ 
triotismo, na fé ardente que depositamos nos desti¬ 
nos da Pátria, no esplendor da nossa campanha e na 
certeza da nossa vitória. 





ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


22 r t 


* 

* * 

O que pregamos nós e o que queremos? Modifi¬ 
car a forma republicana do país? Não. Nós quere¬ 
mos uma República federativa. Alguma autocracia? 
Não. Queremos uma democracia. Que poderes de¬ 
sejamos para o governo da Nação? Os poderes exe¬ 
cutivos, legislativos e judiciário. E se queremos uma 
república federativa, democrática, com o presidente 
da Nação escolhido por eleição, e reconhecemos 
como necessários os 3 poderes da República acima 
enumerados, como dizer que desejamos modificar o 
regime? Afirmar o contrário será insensatez ou in¬ 
sinceridade. Mas nós, evidentemente, não queremos 
alguma coisa do que ai está. E o que é que não 
queremos nós? Não queremos a forma liberal da 
democracia. E não queremos como não querem os 
próprios liberais democratas que, à custa do voto 
inconsciente, à custa da fraude, à custa de revolu¬ 
ções e de violências, assaltaram o poder. Dizei-me, 
senhores, se o que ai está, se o regime atualmente 
existente no Brasil é de fato o regime liberal demo¬ 
crata. Não, não é. E porque a característica geral 
dêsse regime é o individualismo, político, espiritual 
ou econômico. E dessas três expressões do indivi¬ 
dualismo não mais subsiste nenhuma com a pureza 
da sua acepção liberal democrática. Senão veja¬ 
mos. 





228 


JAIME R. PEREIRA 


A expressão política da liberal democracia é o 
sufrágio direto. No entanto, os nossos parlamentos 
já estão exertados com os chamados deputados 
classistas eleitos pelo voto das classes e não pelo 
voto individual. No Rio Grande do Sul cogita-se 
da organização de uma câmara corporativa para 
funcionar paralelamente à câmara política. Está 
dêste modo desvirtuada a característica política da 
liberal democracia. A intervenção do Estado ou 
do govêrno na formação espiritual e cultural do 
povo obrigando a invocação de Deus no texto da 
nossa Constituição ou ditando normas educacionais 
é outro cerceamento do livre arbítrio e por conse¬ 
guinte do individualismo liberal democrata na es- 
féra espiritual dêste regime. 

As tarifas alfandegárias, os institutos de café, 
de álcool, de cascas de borracha, de castanha, de 
carne e de banha, criados e desenvolvidos pelo go¬ 
vêrno, o que representam, senão a intervenção do 
Estado na economia da Nação, ou para empregar a 
verdadeira e atual terminologia, a “economia diri¬ 
gida” . Não são portanto os próprios liberais demo¬ 
cratas que com essas inovações políticas, espirituais 
e econômicas confessam a falência do regime libe¬ 
ral? Positivamente que são. 

E o que queremos nós, integralistas? Queremos 
varrer do país gs últimos resquícios da liberal demo¬ 
cracia, êsses resquícios que os nossos politiqueiros 
ainda se esforçam por manter afim de se assegura- 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


22S 


rem a possibilidade dos cargos públicos e das nego¬ 
ciatas, através das quais anemiam e escravisam a 
Nação e com o seu sangue e seu ouro poderiam vi¬ 
ver à tripa fôrra, como eternos parasitas egoístas e 
imprestáveis. 

Estudemos então os dois regimes que se de- 
írontam. Vejamos em primeiro lugar a expressão 
político-social dêsses regimes. O voto direto, ou su¬ 
frágio universal atualmente em uso no Brasil, é 
uma velharia que mais tem contribuido para o 
atrazo e o desprestígio da Nação. Com o voto se¬ 
creto ou sem o voto secreto em nada melhoramos a 
mentalidade dos nossos parlamentares. O brasileiro 
que por descuido ou por curiosidade assistir às ses¬ 
sões dos nossos congressos políticos ou mesmo delas 
tomar conhecimento através a leitura dos jornais, 
sente invariavelmente engulhos no estômago e tem 
ancias de vomitar. Governistas e oposicionistas pa¬ 
recem porfiar na degradação dos nossos costumes, 
na cultura da incompetência, na irresponsabilidade 
das suas funções, no enxovalhamento das dignida¬ 
des parlamentares, no descaso pelos problemas pre¬ 
mentes do país, na subserviência, no achincalha- 
mento das tradições nacionais, no retrocesso das 
nossas conquistas científicas, no desbarato das nos¬ 
sas finanças, no rebaixamento moral, na delapida¬ 
ção da nossa economia, na ruina da Nação. E, usan¬ 
do termos do mais baixo calão, se agridem numa 
manifestação sem par de indignidade. 




230 


JAIME R. PEREIRA 


Para isso têm servido o voto direto e os parti¬ 
dos políticos. Logo que se aproxima um pleito elei¬ 
toral formam-se caravanas partidárias. Chovem 
promessas. Banquetes opiparos, discursos inflama¬ 
dos, plataformas substanciosas. Parece que vai 
chover maná no Brasil. Uma vez eleitos, ficam os 
eleitores à espera que se realize mas promessas e de 
esperarem se desesperam. Quando o govêrno lhes 
bate à porta, para ela correm na esperança de que 
seja a realização do que lhes prometeram. Triste 
desilusão! Ou é o fiscal dos impostos cada vez mais 
asfixiantes, ou a intimação para o serviço militar 
ou para a formação do corpo de jurados, como diz 
o Chefe Nacional. Quatro anos depois, novos ban¬ 
quetes, novos discursos e novas plataformas. E o 
caboclo fica esperando por uma coisa que êle sabe 
que nunca virá porque não existe na liberal demo¬ 
cracia; vergonha. E porque tanto defendem os li¬ 
berais o voto direto ? Simplesmente porque são êles 
os profissionais da política. Não exercem êles ne¬ 
nhuma atividade produtiva e no dia em que desapa¬ 
recer o sufrágio direto, perderão as mamatas e ou 
morrerão de fome ou terão de trabalhar de verdade. 

É, pois, a instituição do voto direto a única 
coisa a que se apegam com unhas e dentes os libe¬ 
rais democratas. Que se faça a representação de 
classes; que se organizem as câmaras corporativas, 
Tudo êles permitem, contanto que se mantenham 
os partidos políticos e o voto direto. Pouco importa 



ENCICLOPÉDIA DO 1NTEGRALISMO 


23 ] 


que êste voto seja secreto. De qualquer forma êles 
se elegerão. E a prova ai está. Nos parlamentos 
atuais, vemos os mesmos madalhões, os mesmos po¬ 
litiqueiros de sempre. A mesma praga daninha pa¬ 
rasitando a Nação. 

Ao lado da liberdade do voto, prega a liberal 
democracia a liberdade econômica . É a doutrina do 
laisscz faire, laisscr passcr. “Enriquecei-vos”, disse 
um dia Luiz Felipe. E o individualismo econômico 
ou capitalismo tratou de explorar o mais possível o 
trabalho. Foi o domínio do capital sôbre o trabalho. 
O domínio do patrão sôbre o operário. Com as con¬ 
quistas cada vez mais crescentes da técnica, com o 
aparelhamento cada vez mais aperfeiçoado, a pro¬ 
dução ultrapassou de muito o consumo. E as mer¬ 
cadorias começaram a se acumular. Cresceram os 
estoques. Foi a superprodução e com esta surgiu o 
grande problema de após guerra: a classe dos de¬ 
sempregados. Superprodução de alimentos, super¬ 
produção de carvão e superprodução de tecidos. 
Mas o povo desamparado pelos governos liberais, 
nunca sofreu tanta fome, nem nunca sentiu tanto 
frio! “Enriquecei-vos”, disse Luiz Felipe. Mas só se 
enriquecem os capitalistas. O trabalho continua 
asfixiado pelo capital. O operário continua a sua 
odisséa. 



232 


JAIME R. PEREIRA 


Por todos êsses motivos é que nós queremos 
acabar com o voto direto e com os partidos políti¬ 
cos. Perguntareis então: como é possível acabar 
com os partidos políticos tão arraigado está na cons¬ 
ciência do Brasil a existência desses partidos? Muito 
simplesmente. Basta atentar para a estrutura do 
Estado Integral. Só o Estado Integral poderá ex¬ 
tinguir esta praga daninha, que há anos vem cor¬ 
rompendo a consciência brasileira, destruindo as 
reputações mais firmes e enodoando até a toga da 
nossa magistratura. 




$ * 


O Estado Integral é a expressão nacionalista 
da concepção totalitária do universo. Esta concep¬ 
ção vós a tendes já bem esplanada no Manifesto 
que em Outubro de 1932 o Chefe Nacional lan¬ 
çou ao País e no qual se acha consubstanciada a 
doutrina integralista. Por êsse Manifesto vereis 
que o regime de governo pelo qual pugnamos se es¬ 
triba em uma doutrina bem delineada e que esta 
doutrina se baseia, por sua vez, em uma nova filo¬ 
sofia, através da qual o universo se apresenta à 
nossa observação de uma forma mais consentânea 
com as características fundamentais da éra pre¬ 
sente , Por esta filosofia nós temos uma visão sin¬ 
tética do universo e por conseguinte das causas e 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 233 

efeitos dos fenômenos cósmicos. Em oposição ao 
espírito de análise que caracterisou os dois séculos 
passados, quando todas as manifestações cósmicas 
eram observadas pareeladamente, fracionadamente. 
unilateralmente, nós apresentamos agora uma for¬ 
ma de concepção, de observação e de realização, 
concebendo e observando as coisas não através dos 
seus elementos separadamente, mas através do seu 
todo, englobadamente, integralmente. E o símbolo 
que escolhemos para exprimir essa nova forma de 
concepção é o Sigma. Sigma quer dizer soma, quer 
dizer integral. Por Sigma, há séculos atrás, se de¬ 
signava Deus e por Sigma ainda hoje se designa a 
Estrela Polar do hemisfério sul, aquela que outrora 
guiava os navegantes que se aventuravam ao mar 
alto das suas ilusões e das necessidades. 

* 

* * 

Vistas assim, embora da maneira mais suscinta, 
as origens filosóficas do Movimento Integralista, ex¬ 
pliquemos em que consiste o Estado Integral e as 
vantagens que êle apresenta sôbre as demais for¬ 
mas de govêrno, 

Enquanto que a liberal democracia só consi¬ 
dera o Estado como uma expressão política, defi¬ 
nindo-o como sendo a Nação politicamente organi¬ 
zada; enquanto que a social democracia acrescenta 



234 


JAIME R, PEREIRA 


à íeição política uma outra de natureza social, con¬ 
quista moderna das classes laboriosas; enquanto 
que o comunismo só se preocupa com a feição eco¬ 
nômica; o Integralismo define o Estado como sendo 
a Nação política, social, econômica e espiritualmen¬ 
te organizada, Não olhamos o Estado por conse¬ 
guinte, por uma ou outra das três faces do prisma, 
como fazem os demais sistemas, mas o Estado se 
nos apresenta de um modo totalitário, integrado 
dentro da Nação, 

O homem não é apenas o cidadão político que 
tem o direito de votar; não é também o indivíduo 
que tem o direito de se associar para a formação de 
classes profissionais; não é tão somente o animal 
que por ter estômago se sente obrigado a comer. 
De acordo com a concepção integralista, o homem 
é tudo isto junto e mais que tudo isto. Êie é um 
ente superior, porque além de tudo isto êle pensa e 
raciocina; êle tem aspirações e tem ideais que trans¬ 
cendem a esféra material. Êle tem um Deus, e se 
nem todos têm êsse Deus, têm todos uma moral, 
uma razão e um espírito através dos quais o homem 
distingue o bem e o mal, o justo e o injusto, o belo 
e o feio, o perfeito e o imperfeito. Com a sua moral 
o homem alicerça e constroe a sua família, passando 
de geração em geração os seus sentimentos de honra 
e dignidade. Com a sua razão, o homem alicerça e 
constroe a sua pátria, transmitindo aos seus descen¬ 
dentes as suas e as tradições dos seus antepassados. 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


235 


Com o seu espírito, êle cria todas as belezas do 
mundo, nos domínios da arte e da ciência. 

Eis porque o “camisa verde” é mais do que o ci¬ 
dadão da liberal democracia, mais do que o social 
democrata e mais do que o comunista. Eis porque 
o Integralismo não é um partido. Partido quer di¬ 
zer despedaçado e nós não queremos ser pedaços de 
coisas alguma. Nós somos um todo e como um todo, 
unido, forte e indivisível, nós queremos o Brasil! 

Que faremos no Brasil dentro do Estado Inte¬ 
gral? Vejamos a Nação como estado político, como 
estado social e como estado econômico. Estabele¬ 
cendo o Estado Integral, nós daremos logo o maior 
relevo possível aos municípios. O município é a 
célula da Nação. O todo vive a custa do trabalho 
de cada uma de suas partes. No organismo da Na¬ 
ção a vida lhe vem do trabalho de suas células. Ex¬ 
trair das células o que estas produzem de bom, 
sem lhes dar os meios de subsistência é asfixiar e 
matar o próprio organismo. É isto o que tem feito 
até hoje a liberal democracia. Vivem os govêrnos 
provincianos e vive o governo federal com o traba¬ 
lho e o suor dos seus municípios. 

No estado integral as taxas e os impostos, as 
rendas, enfim, serão tôdas cobradas por uma única 
instituição pertencente ao govêrno federal. Não 
haverá mais impostos municipais e impostos es¬ 
taduais. Tôdas as rendas serão arrecadadas pelo 
govêrno federal. Agora o mais importante: 50% 





236 


JAIME R. PEREIRA 


destas rendas ficarão para o próprio município que 
as aplicará como bem lhe aprouver: 30 % reverte¬ 
rão para a província e apenas 20% para o govêrno 
federal. Vêem-se facilmente os benefícios que tal 
sistema trará para os municípios. Como poderá o 
govêrno federal se manter apenas com 20% das 
rendas do país? perguntareis vós. E eu vos direi, 
que no Estado Integral, haverá uma centralização 
política e uma descentralização administrativa. 
Por conseguinte quase todo o aparelhamento ad¬ 
ministrativo federal atual passará para as provín¬ 
cias e para os municípios. Desta forma, para aten¬ 
der ao que lhe sobrar, bastam ao govêrno federal 
os 20% da economia nacional. 

E os municípios, estimulados pelo seu próprio 
trabalho, mais se desenvolverão e mais se enrique¬ 
cerão. Com o desenvolvimento e o enriquecimento 
das suas células, só benefícios serão advindos para 
o organismo da Nação. 

Nos municípios as classes profissionais se as¬ 
sociarão sob a forma de sindicatos. Para cada classe 
haverá um sindicato apenas. Evitando-se a forma¬ 
ção de vários sindicatos dentro da mesma classe, 
como se faz no sistema atual, evitam-se as lutas de 
classes que impedem a formação do espírito de 
classe, enfraquecendo o poder do operariado. For¬ 
mados os sindicatos» êstes elegerão os seus repre¬ 
sentantes para a formação do Conselho Municipal. 
Os conselheiros municipais então elegerão o seu 





ENCICLOPÉDIA DO INTEORALISMO 


23'i 


Presidente e o Prefeito do município. Em lugar do 
voto direto, ou sufrágio popular, nós estabelecere¬ 
mos assim o voto sindical. Cada profissional só po¬ 
derá votar dentro da sua profissão, em pessoas per¬ 
tencentes à sua classe, de igual profissão, por con¬ 
seguinte. O voto sindical é assim uma expressão 
qualitativa, racional, em oposição ao voto popular 
que não passa de uma expressão quantitativa, irra¬ 
cional. Na liberal democracia o representante po¬ 
lítico, conselheiro, deputado, senador, governador 
ou presidente, jamais poderá saber por quem foi 
eleito, de modo que nunca se sentirá na obrigação 
de atender às necessidades de tal ou qual cidadão 
ou de tal ou qual classe, sobretudo agora com o voto 
secreto. No Estado Integral, cada um saberá de 
onde partiu o voto que o elegeu. Os eleitos, escolhi¬ 
dos poi seus companheiros de profissão, sobem para 
as câmaras conhecendo as suas responsabilidades, 
os seus compromissos e sobretudo conhecendo as 
necessidades das suas classes e dos seus companhei¬ 
ros. Cada eleitor sabe também que tem represen¬ 
tantes seus nas câmaras e nos parlamentos e pode¬ 
rá em qualquer tempo exigir satisfações pelo cum¬ 
primento dos mandatos a êles outorgados. O regime 
integral é pois um regime de responsabilidades de¬ 
finidas . 

Os sindicatos se organizarão, por sua vez, em 
federações de ambiente provincial. Estas federações 
elegerão então os seus representantes para a forma- 




238 


JAIME R. PEREIRA 


ção da Câmara dos Deputados provinciais, fistes 
elegerão o seu presidente e o governador da provín¬ 
cia. Vemos assim a mesma coerência, a mesma de¬ 
finição de responsabilidades. 

As federações por sua vez, se organizarão sob 
a forma de confederações, de ambiente nacional, 
que indicarão representantes para a constituição da 
Câmara Corpoi-ativa. A esta cabe construir para a 
escolha do Presidente da República, para cuja eli- 
ção concorrerá também o voto de uma outra câmara 
nacional — o Senado — sôbre o qual falaremos 
adiante. 

Esta é a estrutura geral do Estado Integral. 
Nada mais lógico, mais racional, mais coerente, 
mais harmonioso. Perguntareis agora: e os partidos 
políticos? Não há lugar para éles, responderei eu. 
Todos os lugares foram tomados pelos que traba¬ 
lham e só os que trabalham terão direitos dentro 
do Brasil integral. Dos malandros não tomará co¬ 
nhecimento o govêrno, porque não haverá sindica¬ 
tos de malandros. E êstes ou morrerão de fome ou 
se resolverão a trabalhar. Desaparecendo os pro¬ 
fissionais da política, desaparecem ipso facto os 
partidos políticos. Em lugar dos partidos políticos, 
formar-se-ão as correntes de opinião dentro dos 
sindicatos. Com o voto sindical deixará de haver 
a incongruência de um sapateiro votar em um te¬ 
celão, em um médico, em um ferroviário, em um 
militar, em um alfaiate, em um padre, em um la- 




ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 231 

vrador, em um comerciário. No Estado Integral 
aquele sapateiro só poderá votar em outro sapateiro, 
a quem êle conhece, sabendo da sua competência 
no ramo de sua profissão, sabendo da sua honesti¬ 
dade, sabendo da sua moral, E o eleito sabe que 
terá e a quem terá de prestar contas da sua ati¬ 
vidade na câmara para a qual foi eleito. 

Além da Câmara Corporativa, haverá também 
um Senado formado pelos representantes dos ins¬ 
titutos cientficos, culturais, artísticos, técnicos, re¬ 
ligiosos e beneficientes do País e os representantes 
dos Estados Maiores cias nossas forças militares de 
terra e mar. Ao Senado cabe a função de garantir 
a continuidade administrativa, traçando planos ge¬ 
rais para o governo e cuja execução ultrapassa os 
limites cronológicos dos períodos governamentais. 
Planos de economia, de defesa, ferro e rodoviários, 
educacionais, artísticos, etc., serão as futuras atri¬ 
buições do Senado integral. 

Esta é, em síntese, a extrutura política e social 
do Estado Integral. 

Resta-nos agora tratar da feição econômica. 
Antes de abordar o sistema de economia do regime 
integralista, vejamos como concebe êste sistema 
a liberal democracia. O capitalismo ou individua¬ 
lismo econômico é a característica econômica da li¬ 
beral democracia. Até há pouco tempo atrás domi¬ 
nava no mundo e predomina até hoje a iniciativa 
individual. É isto, aliás, uma conseqüência lógica 



240 


JAIME R. PEREIRA 


e imperiosa do regime liberal. A economia é regu¬ 
lada por dois fatores primordiais: a produção e o 
consumo. Com a técnica ainda atrazada, tanto no 
sentido da aparelhagem como no sentido da habili¬ 
dade pessoal, o consumo sempre ultrapassou a pro¬ 
dução, provocando então um desequilíbrio em favor 
do capital. Daí o grande desenvolvimento que teve 
a iniciativa individual, Com o aperfeiçoamento da 
técnica, incrementada sobretudo pelas necessidades 
sobrevindas durante a Grande Guerra, houve repen¬ 
tinamente uma modificação na balança econômica, 
passando a produção a superar o consumo. E esta 
modificação se tem evidenciado cada vez mais, em 
conseqüência do que assistimos hoje a apavorante 
situação do mercado mundial de estoques colossais. 
Esta situação gerou a classe dos desempregados, es¬ 
pantalho e máximo problema dos países industriais. 

Viram-se então os governos na necessidade 
imperiosa de intervir na economia,'para o fim de 
restabelecer o equilíbrio econômico. Esta interven¬ 
ção, contrariando os interesses dos capitalistas, 
provocou da parte dêstes, uma reação contra a 
qual se voltam agora alguns governos mais cons¬ 
cientes e principalmente a classe operária. 

A França e a Inglaterra têm sido os redutos 
máximos da liberalidade econômica. Ainda há pou¬ 
co sustentando a doutrina econômica liberal, o ex- 
ministro Flandin dizia: “Minha doutrina é que o 
Estado não deve intervir na produção senão para 






ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


241 


aí assegurar a liberdade, organizar esta liberdade 
e defender esta liberdade”. Isto dizia êle, mas não 
praticava. É a eterna canção dos liberais democra¬ 
tas nas vérperas das eleições. O que êle fêz foi jus¬ 
tamente o contrário, orientando a elaboração de 
leis reguladoras da produção e da venda do trigo e 
do vinho. 

Na Inglaterra, o atual ministro da Agricultura 
nos conta através de um artigo publicado em uma 
revista francesa, como tem êle posto em execução 
nos seus domínios o sistema corporativo, criando 
instituições reguladoras da produção e do comércio 
do leite, dos ovos, da banha e do trigo em pleno de¬ 
senvolvimento há mais de dois anos. 

São do ministro Walter Eliot, as seguintes con¬ 
siderações que, por julgar sobremaneira interessan¬ 
tes e concluentes, eu as cito textualmente: ‘‘Não 
esqueçamos, diz êle, que o liberalismo clássico do 
século XIX parece hoje geralmente caduco. Os ar¬ 
gumentos dos liberais nada mais valem diante dos 
motivos que nos guiam, sabendo-se que êste libe¬ 
ralismo está submerso no desenvolvimento econô¬ 
mico da época, 

O intervencionismo do Estado não constitui 
mais um fato ao azar: é uma necessidade. 

Eu mesmo, que sou automobilista e que dirijo 
há mais de vinte anos, sentir-me-ia feliz se pudesse 
correr pelas ruas e estradas como bem me aprou¬ 
vesse. E isto era possível há cêrca de vinte anos 




242 


JAIME R. PEREIRA 


atrás, época em que a circulação estava ainda em 
estado idílico. Hoje, as coisas se passam diferente¬ 
mente; a rapidez obtida pelos veículos atuais, o nú¬ 
mero destes que se tem visto multiplicar-se por 300, 
tudo isto fazendo já centenas de vítimas por sema¬ 
na. Como querer então que cada um possa dirigir 
como deseja? Reconheço assim a necessidade de 
uma regulamentação da circulação e respeito, mau 
grado meu desejo, os sinais verdes e vermelhos”. 

Não admite êle, entretanto, a economia dirigida 
dos comunistas. Acha que o govêrno não se deve 
intrometer no destino das excursões, bastando-lhe 
exigir o modo como deveremos nos conduzir em 
viagem, se mais depressa ou mais devagar, se por 
um lado ou por outro. 

O que se passa na circulação de veículos, deve- 
-se passar também na circulação da moeda. 

O liberalismo econômico caducou, na afirma¬ 
ção oportuníssima do ministro britânico. Substi¬ 
tuído a doutrina liberal, apareceu contemporânea¬ 
mente uma outra, aceita já pelas nações mais 
cultas, inclusive, como vimos, por algumas ainda 
sujeitas ao pseudo regime liberal. 

O nosso próprio país dirigido pelos liberais de¬ 
mocratas, êsses mesmos que em discursos inflama¬ 
dos tentam a defesa do regime caduco, já de há 
muito adotou a economia dirigida. Não confundir 
com “autonomia dirigida”, criação patenteada e 
recente de um liberal democrata paulista... 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


243 


O que. significam as taxas alfandegárias, os ins¬ 
titutos de café, de açúcar e de álcool, de borracha 
e de castanha, de carne e de banha existentes no 
Brasil? Significam a intervenção do Estado na pro¬ 
dução e nos mercados nacionais. Significam por¬ 
tanto uma economia dirigida. 

Mas, direis vós, esta intervenção do Estado em 
nada tem beneficiado o País. O câmbio caiu à cifra 
de 1; o operário e o camponez continuam a passar 
necessidades; muitos fazendeiros perderam as suas 
fazendas, enquanto que outros se extorsem nas 
malhas asfixiantes da trama bancária. 

Estais certos, senhores. Certíssimos. Para na¬ 
da tem servido a economia dirigida dos nossos go¬ 
vernos. E o fracasso da intervenção do Estado na 
economia nacional é fàcilmente explicável: o go¬ 
verno só dirige a economia no sentido dos inte- 
rêsses dos grupos políticos e capitalistas. Nenhuma 
medida de natureza integralista pode ser bem su¬ 
cedida dentro do regime liberal porque acima dos 
interêsses do governo e da Nação, se acham os in¬ 
teresses dos partidos políticos e dos grupos capita¬ 
listas . Por isto é que pregamos a necessidade de um 
govêrno forte. Por govêrno forte não se deve com¬ 
preender, como maldosamente fazem entendei* os 
demo-liberais, um govêrno de truculência, disposto 
sempre ao emprêgo de medidas violentas, de man- 
ganelo, óleo de rícino, espada e pata de cavalo. Es¬ 
ses são os governos que fazem dos casos sociais, casos 




244 


JAIME R. PEREIRA 


cie policia. O que nós queremos dizer com govêrno de 
fôrça, é um govêrno que seja capaz de colocar os 
interesses da Nação acima das ambições dos políti¬ 
cos e dos apetites insaciáveis dos capitalistas. Isto 
é o que significa dentro do Integralismo um govêrno 
de fôrça. E é disto que mais precisamos nós. E é 
isto o que faremos. 


❖ 

* $ 

Eis aí confrontadas as doutrinas econômicas 
dos regimes liberal e integralista. 

E o que pensa o comunismo da economia? Já 
nos respondeu atrás o ministro inglês Walter Eliot. 
O comunismo além de regular o modo e a intensi¬ 
dade da produção, escolhe ainda o destino desta. E 
escolhe porque tudo é seu. Tôda a produção do país 
pertence ao govêrno soviético. A produção dos 
campos e a produção das fábricas. Aos camponeses 
e operários podem pertencer as terras e as oficinas, 
mas nunca os produtos do seu trabalho. Êstes, uma 
vez colhidos e fabricados, devem ser entregues aos 
comissários do povo. O operário e o camponez, pelo 
que dão ao govêrno, recebem vales para com êles 
retirarem das cooperativas os alimentos e as vesti¬ 
mentas de que necessitam para si e sua família. 

O comunismo com êste sistema quiz acabar 
com os patrões, que no seu dizer viviam explorando 



ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


245 


o operariado. Acabou de fato com os patrões, mas 
ficou êle, o governo, como o único patrão em tòda 
a Rússia. E que patrão! 


* * 

Mostrei-vos o fracasso do sistema de economia 
dirigida tal qual tem sido praticada em nosso país. 
Uma outra conquista mundial contemporânea, que 
também tem sido experimentada no Brasil e que, 
como essa última, fracassou inteiramente, é a sin¬ 
dicalização . 

A sindicalização no Brasil tem uma origem 
marcadamente errada e perigosa. Senão, vejamos, 
É do conhecimento de todos a atividade comunista 
no meio das nossas classes operárias e esta ativi¬ 
dade foi iniciada logo depois que na Rússia se im¬ 
plantou o estado soviético. Desta forma, em tôdas 
ou quase tôdas as nossas classes profissionais, es¬ 
tabeleceram-se células comunistas chefiadas prin¬ 
cipalmente por agitadores extrangeiros. Quando se 
tratou da sindicalização no Brasil, o Ministério do 
Trabalho encarregou desta tarefa um conhecido 
professor da Faculdade de Direito de Recife, agita¬ 
dor mor do operariado naquela cidade nortista e par¬ 
tidário extremado do credo de Moscou. Valendo-se 
da incumbência que lhe fôra atribuída, êsse pro¬ 
fessor fêz a coisa mais nefasta que imaginar se 
pode e que foi apenas isto: elaborou unia lei, per- 




246 


JAIME R. PEREIRA 


mitindo que a um grupo de pelo menos 30 operárias 
pertencentes à mesma profissão, pudesse se orga¬ 
nizar sob a forma de um sindicato reconhecível pelo 
govêrno. Desta forma tôdas as células comunistas 
no Brasil transformaram-se incontinente em sindi¬ 
catos, legalizadas portanto e podendo agir assim 
livremente entre as classes operárias. E êstes sindi¬ 
catos comunistas se multiplicaram e se espalharam 
pelo Brasil. Não é pois de se admirar a extensão e 
a intensidade do comunismo entre o operariado 
nacional. 

Não parou aí porém a obra moscovita do Minis¬ 
tério do Trabalho. A campanha vermelha na massa 
operária começou então a provocar uma reação na¬ 
tural partida de elementos mais morigerados e de 
visão mais larga. Ante esta reação, movimentaram- 
-se os “pimentas” do Ministério do Trabalho, conse¬ 
guindo uma outra lei de sindicalização de acordo 
com a qual só seria permitida a formação de novos 
sindicatos pela maioria dos operários de uma mes¬ 
ma profissão. Resultado: tornou-se impossível a 
organização de novos sindicatos, permanecendo em 
função apenas aquêles que se formaram e se desen¬ 
volveram em tôrno às antigas células comunistas. 
São Paulo conta hoje com 90 mil tecelões. Pois 
bem, se êstes quizerem organizar um outro sindi¬ 
cato, terão de congregar mais de mil, sem o que 
não o farão, e isto é pràticamente impossível. 


ENCICLOPÉDIA DO INTEG RALISMO 


247 


Eis para que serviu a intervenção do governo 
na questão social do Brasil e porque a sindicalização 
do nosso País não deu o resultado que seria de es¬ 
perar. 

Não quero terminar esta minha exposição sem 
dar uma palavra aos comunistas que me lerem. 
Como irmãos que sômos, emhora com ideais dife¬ 
rentes, quero com eles conversar um pouco para 
mostrar-lhes que contra êles não nos animam sen¬ 
timentos de ódio ou mesmo de desprêso. São êles 
ovelhas que por desídia dos pastores se tranviaram 
e hoje se encontram à mercê de elementos extra- 
nhos à nossa nacionalidade, aos nossos sentimentos, 
às nossas tradições, às nossas conquistas, às nossas 
aspirações, ao nosso progresso e ao nosso futuro. 

Uma palavra, pois, para convosco, meus irmãos 
comunistas. 

Ninguém vos contou até hoje em que solo mer¬ 
gulhou o comunismo as suas primeiras raizes. Sa¬ 
beis que a doutrina comunista nasceu do movimen¬ 
to socialista e gira principalmente em tôrno às 
idéias expendidas no meado do século passado por 
Karl Marx. Ao lado dêste formou Engels, conside¬ 
rados os dois como os pais do socialismo científico. 
O socialismo político foi fundado por Louis Blanc, 
Lassalle e Blanqui e o socialismo econômico e filo¬ 
sófico teve como precursores Saint Simon, Fourier 
e Owen. Agora, o que não sabeis: todos êsses ho¬ 
mens tidos e havidos como criadores do socialismo. 





248 


JAIME R, PEREIRA 


inclusive Karl Marx, eram burguezes. Além dêstes, 
convém citar o nobre Miguel Bakounine e o prín¬ 
cipe Pedro Kropotkine que se fizeram anarquistas. 
Na história do socialismo apenas um homem par¬ 
tido do proletariado teve uma atuação notavel¬ 
mente destacada: Proudhon, saído da classe dos ti¬ 
pógrafos. Concluímos então que a origem do mo¬ 
vimento proletário foi essencialmente burgueza. 
Êste mal de origem se tem continuado até hoje. 
Enumerai os chefes comunistas de hoje e dizei-me 
qual dêles saiu da classe proletária. Que sabem 
êsses homens de hoje e que sabiam aqueles de on¬ 
tem dos sofrimentos, das amarguras, das necessi¬ 
dades, da fome e do frio experimentados pelos des¬ 
protegidos da sorte? 

Aqueles de ôntem eu os comparo aos nossos lí¬ 
deres abolicionistas: poetas, jornalistas e oradores, 
intelectuais que viram na escravidão da raça negra 
um motivo magnífico dentro do qual se inspiraram 
para comporem os seus poemas, os seus artigos e 
os seus discursos. Cantaram e pregaram a emanci¬ 
pação dos nossos escravos, mas com ela só se preo¬ 
cuparam até o momento em que o govêrno expediu 
o decreto abolicionista. O que lhes interessava era 
apenas o sofrimento da raça negra e não a sua feli¬ 
cidade. Libertos os negros, libertos os escravos, êles 
por aí ficaram ao abandono dos governos, ao aban¬ 
dono dos abolicionistas, ao abandono da sociedade. 
Dos negros só quizeram as torturas para com elas 






ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


2 40 


comporem os versos mais sonoros, os artigos ms is 
inflamados e os discursos mais candentes. 

Na Europa não haviam negros e escravos em 
cujo sofrimento pudessem os pensadores se inspirar 
para as suas elocubrações e as suas doutrinas. Mas. 
se não havia uma raça que sofresse, havia no en¬ 
tanto uma classe que padecia. E foi então nos pa¬ 
decimentos dessa classe que os intelectuais bur- 
guezes foram buscar o motivo para a sua imagina¬ 
ção criadora, para os seus poemas, para os seus 
artigos e para os seus discursos. 

E os socialistas de hoje? De socialistas, eu vos 
asseguro, só têm êles o rótulo, Egressos também 
da burguezia; desfrutando como qualquer outro 
burguez ou capitalista hodierno os prazeres da vida 
fácil; enriquecendo-se à custa de prestígios políticos 
momentâneos; raivosos e despeitados com o govêr- 
no por lhes ter retirado os cargos bem remunerados 
todos êles só vêem no movimento proletário uma 
arma para as vindictas pessoais ou para um esno- 
bismo estéril e pecaminoso. 

Pedi a qualquer um dêles que vos ofereça uma 
sugestão racionai para a solução dos problemas so¬ 
ciais. Não as têm. A êles só interessam as doenças 
do proletariado e não a sua cura. Só cuidam êles 
de reavivar as vossas chagas, fazê-las sangrar e 
torná-las mais dolorosa para vos acirrar o ódio e 
enlouquecer-vos e vos atirar como animais bravios 
contra os seus inimigos de hoje, com quem estarão 




250 


JAIME R. PEREIRA 


amanhã, se novamente forem chamados, de braços 
dados a gozar e a viver os prazeres fáceis da vida, 
E vós, que trabalhais a vida dura, que sofreis a 
vossa desgraça, que chorais as vossas dores, conti¬ 
nuareis trabalhando e sofrendo e chorando. 

Não, meus irmãos comunistas, não permitais 
que essas bestas-féras continuem a explorar as vos¬ 
sas amarguras. Êles são as hienas e os chacais a 
revolverem eternamente os cadáveres da miséria 
alheia. Êles são as hienas e os chacais que só se 
alimentam de dores e sofrimentos. Não concorrais 
por conseguinte, para que se satisfaçam os seus 
mórbidos apetites. 

É esta a palavra que aqui vos deixo. Ela re¬ 
flete em tôda a sua plenitude os nossos sentimentos 
de compaixão pelas vossas dores. No terreno da des¬ 
graça e na hora do sofrimento vós nos encontrareis 
sempre compartilhando com as vossas desgraças e 
convosco chorando as vossas dores. Não nos preo¬ 
cupamos tão somente com as vossas doenças, mas 
queremos sobretudo o vosso restabelecimento. Para 
isto sacrificamos todo o bem estar que poderíamos 
desfrutar, percorrendo sem desfalecimentos não só 
os centros populosos das cidades, mas também os 
lugarejos esquecidos e o sertão agreste, onde quer 
que haja um coração que sofra, onde existir uma 
alma em pranto. 

Essa é a grande fôrça atrativa do nosso movi¬ 
mento: a sinceridade. Não conhecemos o ódio, 


ENCICLOPÉDIA DO INTEGRALISMO 


251 


como não conhecemos a mentira. Com o nosso 
grande Chefe Nacional aprendemos a falar sempre 
a linguagem da verdade e a pregar o amor aos nos¬ 
sos semelhantes. Pelos nossos lábios falam sempre 
os nossos corações e o nosso olhar e a expressão 
objetiva das nossas almas. Todos voltados para 
vós, todos cuidando de vós. Porque vós sois, ó pro¬ 
letário do Brasil — os que mais sofrem, e o nosso 
movimento é um apostolado de sacrifício e de dor. 


(1> O autor escrevia estas páginas em 1935, constituindo 
as mesmas o capitulo final da obra denominada Demo- 
cracia Integralista. 





i 





ÍNDICE 


Introdução ao terceiro volume .. h ,,. 5 

7 asso da Silveira 

I — Limiar ...*... 17 

II — O movimento do sigma ... 25 

III — O pensamento Integralista .. 41 

Augusto de Lima Júnior 

I — O espirito Integralista da Inconfidência 

Mineira ...... tt , 83 

Fefe Cojitreiras Rodrigues 

I — A economia e a organização integral ... 89 

II — Formas de Estado. Regimes de Govêrno. 

Sistemas constitucionais .. 115 

III — O problema do latifúndio . 129 

IV — A propriedade e 0 ensinamento Integra¬ 

lista ...... 137 

Rocha Va z 

I — Estado integral e bio-psicologia indivi¬ 
dual . 143 

João Carlos Fairhãnks 

I _ porque ingressei no Integralismo 151 

II — Que é Integralismo? . 179 

III — A estatística e 0 Integralismo. 189 

IV — A impossibilidade matemática do sufrᬠ

gio universal direto . 199 

V — O chefe local .. 209 

Jaime R , Pereira 

I — Liberalismo, Socialismo e Integralismo 221 

























Êste livro foi composto e impresso 
oficinas gráficas de 

FOLHA CARIOCA S.A, 

à 

Rua João Cardoso, 23 
para 

EDIÇÕES GRD 
em maio de 1953 
Rio de Janeiro - Brasil